Estados Unidos

Hunter Biden: “Sempre estou a um passo de tomar a decisão errada”

Filho do presidente norte-americano lança uma autobiografia na qual conta que sua família jamais o deu por perdido, apesar de ser dependente de drogas e álcool

Hunter Biden no dia da posse de Joe Biden, em 20 de janeiro.
Hunter Biden no dia da posse de Joe Biden, em 20 de janeiro.WIN MCNAMEE / AFP

Pouco resta por dizer a respeito da turbulenta vida pessoal de Hunter Biden. Até os detalhes mais acidentados e vergonhosos já foram narrados por ele próprio. Se o único filho vivo do presidente norte-americano já narrava em 2019 à revista The New Yorker seus sórdidos anos sob o domínio do álcool e das drogas ―justamente quando seu pai tinha que tomar a decisão de se lançar na disputa pela Casa Branca―, sua nova redenção e ato de contrição ganham agora a forma de uma autobiografia lançada nesta terça-feira nos Estados Unidos.

Hunter Biden confessa em Beautiful Things (coisas bonitas) que seu medo de uma recaída é constante. “É a minha história. Sempre estou a um passo de tomar a decisão errada e voltar exatamente aonde estava”, conta o homem de 51 anos. Assim é a recuperação do álcool e das drogas: viver em perpétua recuperação. “Nunca desaparece. Só se esconde”, acrescenta.

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O livro é um recado sobre as escandalosas manchetes que o filho do mandatário geraria no caso de uma recaída. Hunter sabe disso e admite que sua família jamais se deu por vencida no seu caso. “Nunca houve um só momento em que não tratassem de me salvar”, escreve Biden. Se está vivo, diz, é pelo inabalável amor de sua estirpe para obter sua salvação.

“Eu vivia a duras penas num hotel de algum lugar de Connecticut quando meu pai e minha mãe [Jill, a segunda esposa de Biden] me pediram que fosse à casa deles”, conta. “Quando entrei nesse lar, lá estavam minhas três filhas: Naomi, Finnegan e Maisy, e minha sobrinha e sobrinho, Natalie e Hunter, além de dois terapeutas. Minha reação imediata foi sair fugindo”, relata o advogado formado em Yale. “Mas meu pai me agarrou, me abraçou tão forte como conseguiu e me disse: ‘Não sei o que fazer’”. O encontro soa dilacerante, sobretudo, porque Hunter Biden relata em suas memórias que, apesar de saber que contava com todo esse amor, o que realmente sentia era a necessidade de uma dose de droga, um gole de álcool.

Hunter Biden conta que comprou sua primeira pedra de crack aos 18 anos. Sua dolorosa paixão pela bebida começou no colégio e virou alcoolismo antes dos 30. Durante as duas últimas décadas, entrou e saiu várias vezes das clínicas de reabilitação, sempre que tinha uma recaída.

A morte de seu irmão Beau, o filho pródigo da família, com um futuro promissor na política, o abalou de tal forma que a maneira que encontrou de afogar sua dor foi mantendo uma relação com a cunhada. Hunter e Hallie, a viúva de Beau, mantiveram um vínculo sentimental porque, segundo ele, precisavam continuar acreditando que Beau estava por perto. “Estava tratando loucamente de me aferrar a um pedaço do meu irmão, e acho que Hallie estava fazendo o mesmo”, relata no volume de 272 páginas.

Aquela relação acabou, não sem que antes Hunter pedisse ao seu pai que lhes desse sua bênção, para que os filhos de ambos não vivessem aquilo como um escândalo ―algo que se ocupou de proclamar o tabloide Page Six quando tornou público esse namoro, em 2017.

Página após página, o livro narra o desmoronamento de seu casamento, a queda ao inferno do garoto que, junto com seu irmão, aos dois anos sobreviveu a um grave acidente de trânsito que acabou com a vida da sua mãe e da sua irmã, quando os quatro iam comprar uma árvore de Natal para as festas de 1972. Joe Biden havia acabado de ser eleito senador pela primeira vez e acabou tomando posse num quarto de hospital onde seus dois meninos se recuperavam dos ferimentos, poucas semanas depois da tragédia.

Hunter Biden teve sucesso em muitas empresas, entre elas a ucraniana Burisma, o que foi um pretexto para que Donald Trump tentasse acusar Joe Biden de favorecimento ao filho na época em que era vice-presidente (2009-2017). O filho do presidente norte-americano chegou a ganhar 50.000 dólares (282.160 reais) por mês na Burisma, mas queimava tudo nos seus vícios. Quando vivia em Washington, convidou um sem-teto para ir morar com ele em seu apartamento após comprar crack.

Em Los Angeles, procurou drogas onde nem a polícia se atreve a entrar. “Passei e cerquei gente encolhida atrás de pedaços de papelão. Estava completamente escuro. Tudo o que vi foi uma pistola apontando para a minha cara”, escreve em Beautiful Things. Hunter recorda que houve um tempo em que estava “tão desesperado por consumir álcool” que não podia caminhar um quarteirão, da loja de bebidas até sua casa “sem abrir a garrafa para tomar um gole”.

Biden não teme magoar seu pai a ponto de perder seu amor. Mas está totalmente consciente do “imenso dano” que causou a ele e aos que o amam. No final do livro, Hunter Biden menciona uma entrevista à rádio pública NPR na qual declarou que a principal e verdadeira razão que o levou a escrever essa autobiografia foi “dar esperança às pessoas e lhes dizer que há luz, que não precisam permanecer trancadas nessa prisão [do vício]”. Mas Biden admite que a cada minuto que passa ele sabe, segundo suas próprias palavras, que pode despencar no abismo outra vez.

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