Países europeus fazem tentativas incertas para conter a extrema direita

Partidos e governos lançam iniciativas paralelas para traçar linhas vermelhas com grupos considerados radicais e contrários aos valores democráticos

Manifestação da Génération Identitaire, em 20 de fevereiro em Paris.
Manifestação da Génération Identitaire, em 20 de fevereiro em Paris.IAN LANGSDON

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Foi uma tripla ação em países distintos e contra três organizações diferentes da direita nacionalista e extrema direita. No mesmo dia e no espaço de algumas horas. A coincidência reflete uma vontade comum de traçar linhas vermelhas com os radicais em um momento em que, justamente, essas linhas se esfumaçam e algumas ideias dos partidos raciais – sobre a imigração, a soberania e as fronteiras – se instalam no centro do debate.

Em 3 de março, o Governo francês dissolveu o grupúsculo Génération Identitaire. No mesmo dia, se soube que os serviços secretos alemães haviam colocado sob vigilância o Alternativa para a Alemanha (AfD), principal partido de oposição no país mais rico e povoado da União Europeia (UE), decisão que posteriormente um tribunal administrativo bloqueou temporariamente.

Os dois gestos coincidiram com a saída dos eurodeputados do Fidesz, o partido do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE), o primeiro na Eurocâmara, a família democrata-cristã que, junto com a social-democracia, construiu a UE.

“Nós nos sentimos aliviados porque nossos discursos já não serão contaminados por Orbán. Agora, entretanto, estamos preocupados por estar engordando a extrema direita”, diz o eurodeputado Esteban González Pons, vice-presidente do grupo popular europeu e impulsor da votação que levou à saída do Fidesz.

As três decisões recentes são díspares. Se aconteceram no mesmo dia, foi casualidade. Também não respondem a um mesmo plano, e as entidades que as adotaram não são comparáveis: o Conselho de Ministros francês, o Escritório para a Proteção da Constituição (BfV, o nome dos serviços secretos internos alemães) e o grupo popular europeu. E o objeto da ação é distinto: um movimento marginal como o Génération Identitaire; um grande partido em uma democracia escrupulosa com o respeito dos direitos civis, mas também com a vigilância diante dos que pretendem alterar a ordem constitucional; e o partido de um chefe de Governo que se senta junto com seu colegas no Conselho Europeu.

“A proibição do Génération Identitaire e a vigilância do AfD não estão em desacordo com as práticas de longa tradição dos Estados francês e alemão”, diz Cas Mudde, professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, e autor do livro A Ultradireita Hoje. “A expulsão de Orbán deveria ter ocorrido há tempos, e o que a provocou, principalmente, foram mais seus ataques pessoais contra políticos proeminentes do PPE do que ter destruído a democracia na Hungria”.

Uma vontade comum impulsionou as decisões de 3 de março: conter e apartar do terreno democrático a direita radical em suas múltiplas variantes. O acordo, no final de 2020, para condicionar os fundos europeus em relação ao Estado de Direito, surge em um esforço semelhante. Na Áustria, o Governo iniciou o procedimento para proibir os símbolos do ramo local do movimento identitário.

“Há uma ligação sutil entre esses três acontecimentos recentes”, diz Alberto Alemanno, professor da cadeira Jean Monnet de Direito Europeu na Escola de Estudos Superiores de Comércio de Paris. “Marcam um reordenamento iminente da paisagem política na UE”, acrescenta.

Alemanno lembra que, até agora, os planos para unir a extrema direita populista europeia fracassaram. Suas sensibilidades – pró-russos e anti-russos, partidos de governo e antissistema, nacional-populistas e velhos radicais – estavam muito afastadas para coincidir em um movimento. Mas as tentativas do poder de conter esses grupos podem ter o efeito contraproducente: uni-los contra o establishment que supostamente pretende calá-los.

“A extrema direita nativista da UE”, afirma Alemanno, “pode sair reforçada por essa tentativa tardia dos Governos atuais de fazê-los se adaptar aos valores constitucionais, notadamente ao Estado de Direito. Essa união da extrema direita pode ter consequências profundas tanto nas políticas constitucionais nas eleições holandesas, alemãs, francesas, como na política da UE, com uma reordenação dos grupos políticos e a erosão da maioria parlamentar em apoio a [presidenta da Comissão Europeia, Ursula] von der Leyen”.

Possível reunião

“O que causou a saída de Orbán”, analisa González Pons, “é uma possível reunião em um grupo de extrema direita, que está dentro do sistema, de uma série de partidos que podem se transformar no terceiro ou segundo grupo da Câmara europeia: a fusão de Orbán com a Liga italiana e com o PiS [o partido governista Lei e Justiça] polonês dá lugar a um grupo de mais de cem eurodeputados. Ultrapassam os liberais de [o presidente francês] Emmanuel Macron e se aproximam dos socialistas”.

O eurodeputado espanhol diferencia as duas extremas direitas: a de sempre e o que chama de direita iliberal. A primeira, que se corresponderia ao grupo Identidade e Democracia na Eurocâmara, vai contra o sistema, segundo González Pons. A segunda – representada no grupo Conservadores e Reformistas no Parlamento – participa a princípio das regras do jogo, governa em países como a Polônia e a Hungria e pode ser reforçada graças a Orbán.

O professor Mudde é cético sobre o alcance dos gestos recentes. “Não existe uma estratégia europeia para lidar com a extrema direita”, indica. “E eu não vejo nenhuma mudança significativa na maneira em que os partidos da direita majoritária tratam a direita radical. Enquanto em alguns casos já não são bem-vindos nas coalizões, como na Áustria e nos Países Baixos, em outros se transformou recentemente em partidos suscetíveis de participar em coalizões, pelo menos no âmbito regional. É o caso de Portugal e Espanha”.

O fim da frente comum contra Le Pen na França?

Todas as pesquisas dão quase como certo que Marine Le Pen, a candidata do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), irá ao segundo turno das eleições presidenciais de 2022, provavelmente contra o atual mandatário, Emmanuel Macron. Se este prognóstico se cumprir, seria uma repetição de 2017. Macron, à época, teve 66% de votos; Le Pen, 34%. Várias pesquisas dizem que essa distância pode cair notavelmente no ano que vem. Le Pen perderia, mas teria pelo menos 48% dos votos, e Macron 52%. A margem é muito estreita para que o presidente durma tranquilo. A frente republicana – a união dos eleitores de esquerda e direita contra a extrema direita – parece coisa do passado.

Como diz o cientista político Jean-Yves Camus, da Fundação Jean Jaurès, o cordão sanitário não se rompe, geralmente, porque as máquinas dos partidos decidem pactuar com a extrema direita. Ele se rompe – na França e em outros países europeus – porque, para muitos eleitores, a linha vermelha desapareceu, e optam pelo candidato radical. “A pergunta colocada pelas máquinas dos partidos é: ‘O que faço para manter meus eleitores, que se vão?”, diz Camus. “Há uma dissonância entre a atitude dos partidos e o fato de que uma parte dos eleitores considera que a direita se transformou em um centro, um centro-direita, e que isso é insatisfatório”.

Um dos temores de Macron, em um duelo contra Le Pen, é a abstenção de esquerdistas que votaram nele em 2017 e que agora, decepcionados por políticas que consideram de direita, ficariam em casa no lugar de fechar o caminho à extrema direita. “Já servi de barreira”, foi uma manchete recente do jornal progressista Libération, citando um eleitor decepcionado. “Desta vez acabou”.

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