União Europeia

Ruptura com Orbán põe em risco duas décadas de domínio conservador na UE

Choque entre o leste e o oeste do continente ameaça se estender a outras famílias políticas e provocar uma cisão geográfica do clube comunitário

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, chega à cúpula europeia de dezembro de 2020, em Bruxelas.
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, chega à cúpula europeia de dezembro de 2020, em Bruxelas.YVES HERMAN / Reuters

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A ruptura do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, com o Partido Popular Europeu (conservador) ameaça abrir uma perigosa cisão geográfica dentro da União Europeia, na qual os países da Europa Central e Oriental vêm se alinhando em torno de grupos direitistas ou esquerdistas confrontados com seus atuais homólogos do Ocidente. Por enquanto, a saída do Fidesz, partido de Orbán, do grupo popular representa um desgaste para a família democrata-cristã, que domina as instituições europeias há mais de duas décadas. Mas a sacudida húngara pode se estender também aos socialistas, o segundo grande grupo europeu, que conta com algumas formações suspeitas de desrespeito ao Estado de direito.

Orbán anunciou sua intenção de se desfiliar do PPE logo depois de se ver forçado a retirar seus eurodeputados do grupo popular no Parlamento Europeu, devido a uma mudança nas normas internas que apontava para a expulsão do Fidesz. Na quinta-feira passada, após romper com sua antiga família política europeia, o premiê húngaro proclamou sua intenção de “construir uma direita democrática europeia que acolha os cidadãos europeus que não querem imigrantes, que não querem multiculturalismo, que não caíram na loucura LGTBQ, que defendem as tradições europeias cristãs, que respeitam a soberania das nações e que não veem suas nações como parte do passado, mas sim do seu futuro”.

A proposta do húngaro representa uma reviravolta na defesa dos valores multiculturais e de inclusão, defendidos com afinco pelos partidos de esquerda e assumidos também por quase todas as agremiações conservadoras na parte ocidental da UE. Orbán se propõe a romper o PPE pelo lado ultraconservador e nacionalista que ganhou força nos últimos anos em muitos países europeus. Seus primeiros contatos foram na Itália, com os partidos Liga, de Matteo Salvini, e Irmãos da Itália, de Georgia Meloni. E supostamente buscará aliados também na Polônia, Romênia e Eslovênia, entre outros países.

“Isso pode causar um estrago muito grande para nós, porque Orbán é preparado, nos conhece muito bem e tem muita influência sobre os países próximos à Hungria”, admite uma fonte do grupo popular, comentando a fissura que o rompimento com o primeiro-ministro húngaro pode causar no flanco oriental da formação conservadora.

O PPE venceu todas as eleições para Parlamento Europeu desde 1999 (quatro legislaturas consecutivas), mantém a presidência da Comissão Europeia desde 2004 e exerceu a presidência do Conselho Europeu da sua estreia, em 2009, até 2019. Os conservadores devem boa parte desse poder ao celeiro de votos dos 12 países que ingressaram no clube a entre 2004 e 2013, durante a grande ampliação da UE em direção ao Leste Europeu. Nas eleições europeias de 2019, o PPE conseguiu nesses países 43% de seus 187 assentos (incluídos os 13 de Orbán), cifra superior às dos grupos socialista (33% dos assentos) e liberal (29%).

A cisão geográfica latente há anos e agravada pelo descolamento de Orbán ameaça pôr fim a duas décadas de hegemonia conservadora em um confronto aberto entre os partidos ocidentais de tradição democrata-cristã e seus aliados da Europa Central e Oriental, mais propensos a tendências antiliberais ou francamente autoritárias.

Antonio López-Istúriz, eurodeputado espanhol e secretário-geral do PPE desde 2002, admite que “há uma questão com o Leste Europeu, devido em grande parte a que esses países vêm de uma tradição diferente”. Ele observa, porém, que a lacuna entre a Europa Ocidental e Oriental vai além da família conservadora. “Essa diferença não quer saber de ideologias e afeta igualmente os grupos de direita, de centro ou de esquerda, o que deveria ser visto como um toque de atenção para todos”, afirma o político do PPE.

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Shada Islam, fundadora da consultoria de análises New Horizons Project e professora convidada do Colégio da Europa, acredita que as ideias de Orbán se espalharam inclusive além da sua área de influência geográfica ou política. “Sejamos francos: a visão de Orbán sobre a Europa como um clube branco e cristão e seu ódio aos imigrantes, muçulmanos, judeus e gays não se limita ao Fidesz – foram abraçados com mais ou menos clareza por muitos partidos políticos europeus considerados, digamos, normais”, afirma.

Os populares alertam que a saída de Orbán os levará a elevar a baliza para outros partidos que também abrigam formações ultranacionalistas ou eurocéticas. O Partido Socialista Europeu já congelou temporariamente em 2019 suas relações com o Partido Social-Democrata (PSD) da Romênia devido à sua suposta falta de respeito ao Estado de direito. As dúvidas também se estendem aos socialistas da Eslováquia, Bulgária e Malta, onde o primeiro-ministro socialista, Joseph Muscat, renunciou depois do assassinato da jornalista Daphne Caruana, que investigava casos de corrupção ligados ao seu Governo. E na família liberal se encontra o primeiro-ministro tcheco, Andrej Bavis, acusado de conflitos de interesse por ter canalizado fundos europeus para um conglomerado industrial supostamente controlado por ele mesmo.

Orbán poderia se apresentar como um catalisador dessas correntes que, à direita e à esquerda, desconfiam da integração supranacional representada pela UE e pregam uma soberania nacional eventualmente próxima do protecionismo e da xenofobia. Boris Vezjak, filósofo e professor da universidade de Mariborg, na Eslovênia, acha improvável que o premiê húngaro consiga criar uma alternativa verdadeira. “O Fidesz pode acabar sendo marginal aos olhos da maioria política dentro do Parlamento Europeu e do público em geral”, observa. “Goste ele ou não, será tratado como um partido mais radical e oposto aos valores e princípios democráticos europeus. Fazer o papel de vítima não vai convencer ninguém.”

O objetivo de boa parte do PPE, em todo caso, era evitar essa ameaça externa, sustentando o desafio de Orbán até novembro deste ano, quando faria um congresso programático em que decidiria o modelo a seguir na próxima década. Fontes do PPE admitem que dentro do grupo conservador convivem sensibilidades partidárias afinadas com uma guinada à direita semelhante à preconizada por Orbán, tendo o chanceler (primeiro-ministro) austríaco, Sebastian Kurz, e o primeiro-ministro da Eslovênia, Janez Jansa, como representantes destacados dessa linha-dura. A escolha entre a tradição democrata-cristã e a alternativa representada por Orbán poderia ser resolvida, segundo quem defendia a fórmula do congresso, de maneira ordenada e debatida, e não abrupta, como ocorreu. Mas os acontecimentos se precipitaram. E o risco de que surja um pano de fundo de incompreensão entre o Leste e o Oeste da UE atinge agora seu maior nível desde a ampliação de 2004.

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