Meghan Markle revela que pensou em suicídio e que Buckingham se preocupava com a cor do seu filho

Na esperada entrevista com Oprah Winfrey, exibida na noite de domingo, os duques de Sussex se queixam do tratamento dispensado a eles durante a gestação do menino Archie, filho dela e do príncipe Harry: “Disseram que ele não teria direito a segurança nem ao título de príncipe”

O príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, durante a entrevista a Oprah Winfrey, gravada em fevereiro.
O príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, durante a entrevista a Oprah Winfrey, gravada em fevereiro.HARPO PRODUCTIONS (Reuters)
Antonia Laborde
Washington -
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Uma bomba atrás da outra, durante duas horas. A entrevista concedida por Meghan Markle e o príncipe Harry à apresentadora Oprah Winfrey, pouco mais de um ano depois de se desvincularem da família real britânica, esteve repleta de declarações explosivas. Markle, filha de mãe negra e pai branco, relatou ―e Harry confirmou― que houve “preocupação” no Palácio de Buckingham com a possibilidade de seu primeiro filho, Archie, nascer com a pele escura. Disse que durante algum tempo ela teve pensamentos suicidas constantes, mas “a instituição” não quis ajudá-la, e que o príncipe Charles não atende aos telefonemas do seu filho caçula. Os duques de Sussex também narraram atritos com a esposa do príncipe William, Kate Middleton, e revelaram que se casaram em segredo três dias antes da cerimônia oficial. Meghan Markle e o príncipe Harry ainda contaram que o filho que eles esperam é uma menina. Sobrou principalmente para a Casa Real, que, segundo ambos, os deixou desprotegidos perante a fúria dos tabloides. A atriz, no entanto, diz não guardar mágoas da rainha Elizabeth II: “Ela sempre foi encantadora comigo.”

A expectativa gerada por este especial de duas partes exibido pela rede CBS ―a última delas vai ao ar nesta segunda― era mundial, comparável ao encontro da princesa Diana com Martin Bashir no programa Panorama, da BBC, 25 anos atrás. Desta vez foi em horário nobre da TV norte-americana e diante da poderosíssima Oprah Winfrey, amiga e vizinha do casal na localidade californiana de Montecito. Aos olhos dos britânicos, serão manchetes para a história: durante a entrevista, gravada por volta de 20 de fevereiro, a duquesa de Sussex retrata a instituição monárquica com uma crueldade nunca antes empregada para descrevê-la.

Durante a gestação do seu primogênito, Archie, o Palácio de Buckingham lhes informou que o bebê não receberia o título de príncipe ou princesa (ainda não sabiam o sexo) e que tampouco contaria com segurança especial, apesar do assédio da imprensa sensacionalista sobre o casal. Além disso, “havia preocupações e conversas sobre quão escura poderia ser sua pele quando nascesse”, afirmou a atriz norte-americana, de 39 anos. Seu marido, de 36, corroborou a acusação de racismo contra a realeza, mas não quis citar nomes. “Seria muito prejudicial para eles”, observou Meghan Markle, esclarecendo que o tema não foi abordado uma só vez, e sim várias.

Durante os quatro anos em que Meghan Markle exerceu seu papel monárquico, ela esteve preocupada com sua saúde mental. Várias vezes pediu ajuda à instituição, mas, segundo conta, a casa real se negou a interná-la em uma clínica psiquiátrica, temendo a imagem negativa que isso projetaria. A duquesa sentiu então que, se não compartilhasse com seu marido a dor que sofria, “não ia querer continuar vivendo”. “Tive pensamentos suicidas constantes e claros”, afirmou. E Harry acrescentou: “A família tem uma mentalidade de ‘é assim mesmo, não dá para mudar’. Não tinha em quem me apoiar”. Na opinião de ambos, houve “falta de entendimento e apoio” por parte da família real e da mídia. “Tinha medo de que se repetisse a história da minha mãe”, afirmou o príncipe, em alusão à princesa Diana, que teve depressão e morreu num acidente de carro ao ser perseguida por fotógrafos da imprensa sensacionalista. O casal diz que, em um dado momento, eles salvaram a vida um do outro.

Três dias antes de se casarem, o arcebispo de Canterbury celebrou a união do casal em uma cerimônia sem convidados, conforme relataram os protagonistas em um trecho da entrevista. A duquesa disse a Winfrey que agora se sente feliz por poder viver “de forma autêntica” longe da realeza britânica.

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Os supostos atritos com a cunhada Kate Middleton também foram expostos. Naquela semana do casamento, a duquesa de Cambridge – mulher do príncipe William, herdeiro direto do trono – teria feito a atriz norte-americana chorar por uma questão relativa aos trajes que os pajens usariam durante o cortejo real. Mas, seis meses depois, a imprensa publicou uma versão diferente: que Markle é que fizera Kate chorar na véspera do casamento. “Este foi um ponto de inflexão”, salientou a duquesa de Sussex, já que Buckingham “sabia que era mentira” e ninguém disse nada. “Eu estava desprotegida”, concluiu a atriz. A imprensa britânica espremeu a não mais poder a suposta inimizade entre as cunhadas. “Querem uma narrativa em que existam uma heroína e uma vilã”, acusou Markle.

Para Harry, no entanto, o ponto de inflexão foi a primeira viagem que fizeram depois de casados, à Austrália. “Meghan se comportou de forma espetacular com as pessoas. Isso evocou lembranças à família real, e eles não gostaram”, argumentou, em mais uma alusão à sua mãe, que roubou todos os holofotes durante uma visita ao país da Oceania e deixou o príncipe Charles relegado a um segundo plano. Sobre seu pai – que, segundo ele, não atende seus telefonemas desde que o casal decidiu se desvincular da família real –, Harry se disse “decepcionado” Quanto à relação com seu irmão William, revelou: “Neste momento... há uma lacuna entre nós. Espero que as feridas se curem com o tempo. De qualquer forma, estou orgulhoso de tudo o que passamos juntos”.

Os maiores elogios de toda a entrevista couberam à rainha da Inglaterra. “Sempre foi estupenda comigo”, afirmou Markle, que no dia que a conheceu a descreveu como “fácil e adorável”. O príncipe Harry contou que a relação com sua avó é muito boa e que se falam com muita frequência. “Ela entende”, comentou.

Há um ano nasceu no Reino Unido o término Megxit (um trocadilho com o nome da duquesa e o termo Brexit), que serve para descrever o momento em que os duques de Sussex abriram mão das suas atribuições dentro da família real. O casal defendeu que sua intenção nunca foi se desvincular e que, se tivessem recebido a ajuda que pediram, teriam ficado. Entretanto, Harry reconheceu que, se não fosse por sua esposa, não teria se afastado. “Eu estava preso. Ela me fez ver a realidade do que estava vivendo, retido no sistema da família real. Meu pai e meu irmão continuam retidos e não vão poder sair”, afirmou. Markle, por sua vez, achou ridículo que, depois de renunciar à sua carreira artística e à vida pessoal “por amor”, lhe impusessem tantas responsabilidades.

Em um momento da entrevista, Winfrey perguntou à duquesa se não tinha medo da reação do palácio de Buckingham após as revelações que estava fazendo. “Não sei como podem pretender, depois de todo este tempo, que continuemos calados, enquanto a Firma [como os tabloides chamam a casa real britânica, mas não os membros da família] continua perpetuando de modo ativo falsidades sobre nós”, respondeu Markle.

O hermetismo da família suscita um interesse maiúsculo sobre como é a vida por trás das paredes do Palácio de Buckingham. À curiosidade habitual é preciso acrescentar que 100 milhões de espectadores viram The Crown, a série da Netflix sobre a vida de Elizabeth II – que assume muitas licenças dramáticas. O sucesso da atração aproximou a monarquia britânica de um público mais amplo do que nunca, mas também incomodou seus membros, que tentam de maneira quase desesperada não dar margem a fofocas de corredor.

Em uma cena de The Crown, o príncipe Charles diz à sua mãe, a rainha da Inglaterra, que ela “tem voz”, ou seja, precisa dizer algo à sociedade. “Vou lhe contar um segredo”, responde a soberana. “Ninguém quer ouvir [essa voz].” A imprensa britânica noticiou que Elizabeth II não tinha planos de assistir à entrevista do seu neto e da esposa dele. Com isso, abriu-se o jorro das especulações, segundo as quais, diferentemente de milhões de espectadores mundo afora, é ela que não tem interesse em ouvir.

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