Família real britânica

Harry e Meghan Markle renunciam aos títulos e financiamento público

O Palácio de Buckingham informa do acordo ao qual o casal será submetido a partir da primavera de 2020 (no Hemisfério Norte)

A solução para a crise desencadeada na monarquia britânica foi cortar o mal pela raíz e evitar qualquer acordo intermediário. O príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, deixarão de usar os títulos reais que possuíam e, no final de um período de transição que vai até a primavera de 2020 (no Hemisfério Norte), não receberão mais fundos públicos para sustentar suas atividades e vida privada. Eles continuarão sendo os Duques de Sussex e, como tal, poderão continuar patrocinando todas as organizações e projetos sociais nos quais já estão envolvidos, mas não poderão mais assinar seus nomes com o acrônimo HRM (Sua Majestade Real, Sua Alteza Real), e consequentemente, não serão mais considerados representantes da rainha ou da monarquia britânica.

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Harry e Meghan também se comprometem a devolver os quase três milhões de euros do tesouro público com os quais foi renovada sua residência em Frogmore Cottage, na cidade de Windsor, que pretendem manter como residência no Reino Unido.

"Depois de muitos meses de conversas e debates, tenho o prazer de anunciar que encontramos juntos um caminho construtivo e solidário para meu neto e sua família", diz a declaração de Buckingham em nome de Elizabeth II, publicada neste sábado. "Harry, Meghan e Archie sempre serão membros muito queridos de nossa família. Reconheço os desafios que eles enfrentaram como resultado do intenso escrutínio dos últimos dois anos e apoio o desejo deles de ter uma vida mais independente. Quero agradecer a eles por sua dedicação em todo o país, na Commonwealth (Comunidade das Nações) e além disso, sinto-me particularmente orgulhosa pela maneira como Meghan se tornou membro de nossa família tão rapidamente.Toda a minha família deseja que o acordo de hoje possa permitir que eles comecem a construir uma vida nova e pacífica".

A vida longe do palácio

A imprensa conservadora do Reino Unido —ou seja, quase toda a imprensa britânica— se equivocou numa das recriminações mais repetidas nos últimos dias aos duques de Sussex. “Ser um membro da família real não é o mesmo que ser uma celebridade”, jogaram na cara de Harry e Meghan Markle assim que eles anunciaram seu desejo de abandonar as tarefas públicas e alcançar gradualmente “a independência econômica”. O fato é que apenas três membros da Casa dos Windsor se livram atualmente de serem matéria-prima para o entretenimento: Elizabeth II, seu herdeiro direto, Charles, e o terceiro na linha de sucessão, o príncipe William. A idade da rainha (93 anos) e de seu filho (71) fazem o trio ser visto como um conjunto inseparável de estabilidade continuada. São “o ramo dignificador” do poder, frente ao “ramo eficiente” encarnado pelo Governo, segundo a definição clássica estabelecida por Walter Bagehot, o legendário diretor do semanário The Economist, em seu livro A Constituição Inglesa (manual de cabeceira de George V, George VI e Elizabeth II).

Harry e Meghan proporcionaram, até agora, a parte exótica e glamourosa que a neutralidade da rainha, a intensidade do herdeiro e a normalidade do duque de Cambridge não podiam oferecer. Já eram duas celebrities, e tudo indica que no futuro serão ainda mais.

A tormenta desatada nos últimos dias com o chamado Megxit esconde, sob uma aparente capa de frivolidade mal entendida, problemas de autoridade, de responsabilidade pública, de transparência, de segurança e, em grande medida, de família desestruturada. E põe sobre a mesa uma pergunta ainda mais complicada que a de “Monarquia ou república?”, que é: “Que tipo de monarquia faz sentido no século XXI?”.

De autoridade, porque é trágico que o futuro rei não tenha sido capaz de impor uma conciliação entre dois filhos até pouco inseparáveis, e que tendem a ignorar suas sugestões. Charles exigiu de Harry uma proposta quanto aos seus planos futuros, para estudar com calma sua intenção de andar livre por aí. O duque de Sussex, porém, preferiu obter diretamente a bênção de sua avó. Esteve a ponto de ter um encontro a sós com ela, curto-circuitado no último minuto pela equipe do príncipe de Gales. E quando se fez chegar aos irmãos um pedido para que tivessem palavras amáveis com seu pai a respeito do papel que desempenhou na criação dos príncipes, num programa da BBC sobre o 20º aniversário da morte de Lady Di, William ignorou a solicitação.

De responsabilidade pública, porque os britânicos mais monárquicos são bastante seletivos na hora de aplaudirem as causas beneficentes e sociais patrocinadas pelos membros da família real. Na última semana, Harry participou de alguns vídeos para anunciar a próxima edição dos Jogos Invictus e promover uma maior atenção à saúde mental. Participou também do sorteio dos confrontos da nova temporada do rúgbi. Meghan Markle, no Canadá, optou por ser vista na sede do Justice for Girls, uma organização que defende que a mudança climática e o sistema de justiça afetam de forma desproporcionalmente maior as mulheres e meninas. Uma visita mais compatível com “o papel progressista no seio da instituição” que os duques de Sussex querem desenvolver, mas fora do estrito controle do palácio de Buckingham. Nesta sexta-feira, a imprensa britânica informava que os funcionários dos duques em sua casa do Frogmore Cottage, em Windsor, estavam sendo realocados, o que foi visto como um sinal de que os patrões já não precisam mais deles por lá.

De transparência, porque sempre há interesses que perseguem o guarda-chuva do selo real. Quase 3.000 organizações beneficentes têm o apadrinhamento da casa real britânica. O selo da Casa dos Windsor no cartão de apresentação abre muitas portas. Eis a razão que levou Elizabeth II a ordenar uma solução detalhada para esta crise no prazo de dias. A marca SussexRoyal, registrada com antecipação ao seu anúncio por Harry e Meghan, pode ser um ímã de futuros ganhos, mas também de problemas inesperados. E a isso é preciso acrescentar as rendas que, em curto e médio prazo, continuarão recebendo do ducado de Lancaster (propriedade de Elizabeth II) e do ducado da Cornualha (do príncipe de Gales). Embora saiam do patrimônio privado da rainha e do seu herdeiro, aos olhos da cidadania britânica continuará sendo dinheiro público cujo uso terá que ser convenientemente justificado. “Não preponderará sempre a representação real frente à atividade privada? Como se deixarão à margem as restrições habituais se continuam recebendo dinheiro público? Como farão para embarcar em projetos privados sem ser criticados por abusar de sua posição”, perguntava-se dias atrás Bob Morris, do University College London, no jornal The Times.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse que seu Governo arcaria com a segurança dos Sussex. Algum meio canadense já questionou essa celeridade em comprometer dinheiro público. É uma das 14 nações da Commonwealth onde Elizabeth II continua sendo chefa de Estado. Já se especula com a ideia de que Harry ocupe o posto simbólico de governador-geral. O salário é equivalente a mais de 900.000 reais por ano. Uma parcela mínima do que os Sussex calculam que podem obter de modo privado. Eduardo VIII tentou, após sua abdicação, exercer o cargo de governador das Bahamas. Mas dedicou o resto da sua vida a vagar pelo mundo. Chegou a cobrar para ir a festas. O duque de Windsor, o ramo frívolo da monarquia. George VI, o ramo dignificador. Dois irmãos que decidiram se dar as costas mutuamente até o final dos seus dias.