Monarquia britânica

Príncipe Harry e Megan Markle buscam trabalho, o que eles têm a oferecer?

A rede de contatos e as habilidades diplomáticas são as principais vantagens dos duques de Sussex, segundo especialistas em carreiras

Megan segura o filho Archie ao lado de Harry, em imagem de setembro de 2019.
Megan segura o filho Archie ao lado de Harry, em imagem de setembro de 2019.TOBY MELVILLE / POOL / EFE

Os duques de Sussex, o príncipe Harry e Meghan Markle, anunciaram na semana passada em um comunicado que estavam “dando um passo atrás” como membros da casa real britânica e que trabalhariam para ser economicamente independentes. A notícia causou alvoroço dentro e fora de Buckingham e deixa várias questões em aberto. Por enquanto, o casal pretende abrir mão de parte do salário público, mas não de outros privilégios, como suas escoltas —dirigidas pela Scotland Yard— ou os títulos nobiliárquicos. De qualquer forma, os especialistas concordam que, para além deles, é difícil que sua imagem se desassocie completamente da casa real no momento de empreender uma carreira solo.

“Você pode abdicar de suas responsabilidades, dos títulos e do salário, mas nunca de ser quem é”, diz a diretora da Lee Hecht Harrison para o sul da Europa, Nekane Rodríguez. A executiva afirma que, enquanto existir coerência nas decisões que tomem, ou seja, deixem de receber um salário público, o assunto não deve ser tratado como um debate moral. Na Espanha, a Diputación de la Grandeza —organização que reúne cerca de 2.200 proprietários dos grandes títulos nobiliárquicos do país— lembra que esses perfis há muito tempo se dedicam a questões que ultrapassam a posição que ostentam.

“O rico e proprietário de terras que vive de renda não tem mais virtualidade alguma. Os grandes patrimônios, pelas divisões hereditárias, foram sendo diluídos, e o campo e o nome já não dão dinheiro”, explica um porta-voz da entidade. Por isso, acrescenta, os nobres tiveram de buscar novas fórmulas para encontrar viabilidade econômica, e a simbiose com o mundo empresarial é uma delas. “Somos perfis que se adiantaram às tendências mais comuns hoje em dia, como se formar no exterior, fazer mestrado em Direito, Auditoria e Contabilidade ou Economia e saber línguas estrangeiras. Hoje é muito comum que um nobre transite no mundo do trabalho tradicional”, diz. Por enquanto, à espera de novas medidas, a família real britânica abrirá um “período de transição” para se acomodar à nova situação, como informou na segunda-feira um comunicado de Buckingham.

A diretora da Lee Hecht Harrison acredita que eles, assim como qualquer outro indivíduo, têm sua própria marca pessoal, que devem fazer valer quando se trata de encontrar um lugar no mundo profissional. “O fato de eles entrarem como mais uma pessoa no mundo da empresa iria contra o que seria o desenvolvimento profissional normal. Todos nós agimos com base no que somos e no que podemos contribuir”, conclui. Apesar de não ter experiência no setor privado, seu trabalho como representante da instituição real proporcionou ao príncipe Harry um amplo leque de habilidades sociais e de diplomacia que podem ser muito úteis no âmbito empresarial, como defende Rodríguez, especialmente em um Reino Unido em pleno Brexit.

Os contatos são, para a professora da EAE Business School, Pilar Llácer, o principal aspecto positivo desses perfis para as empresas. O fato de uma pessoa com sobrenome famoso participar de um processo de seleção não é uma circunstância excepcional no mundo corporativo, embora o habitual sejam casos com menos notoriedade. “Em igualdade de condições é normal que os contatos sejam interessantes para as empresas; o problema ético acontece quando esses sobrenomes pesam mais do que os conhecimentos ou a formação”, explica. Nesse sentido, a professora de recursos humanos enfatiza que acomodar uma pessoa apenas por sua rede de contatos, sem prestar atenção às suas capacidades, só seria sustentável no curto prazo ou para acordos muito pontuais.

Quanto à remuneração que ambos deveriam receber no setor privado para manter um ritmo de vida semelhante ao atual, a porta-voz da Lee Hecht Harrison é clara: “Não é responsabilidade da empresa quem você é ou de onde vem. As condições salariais e equitativas devem ser claras e transparentes, sempre de acordo com o cargo e a responsabilidade, e não com quem você for”. Exigir tratamento diferenciado ou condições particulares, continua, seria uma falta de coerência com a independência que dizem buscar. A transparência ao anunciar essas contratações por parte das empresas também é essencial para que a contratação seja bem-sucedida. “O processo deve ser muito claro, porque do contrário surgem rumores, mas é exatamente o contrário do que se costuma fazer nesses casos”, diz Llácer.

Uma opinião contrária, no caso exclusivo que se refere aos duques de Sussex, é a de José Ignacio Jiménez, sócio da empresa de colocação de executivos Talengo: “No mundo profissional, no nível de uma grande empresa, é difícil que possam contribuir com algo. Ela é atriz e ele é conhecido pelo pouco brilho e maturidade que está demonstrando. São perfis que não se encaixam com a grande empresa”.

Nesse sentido, aponta, seu futuro teria mais possibilidades no mundo do marketing, da imagem e da notoriedade pública. “Continua sendo um negócio e um modo de vida legítimo, mas, em minha opinião, como headhunter, são perfis que não contribuem em nada do ponto de vista de direção ou de conselho”. Ainda mais, enfatiza, com o mal-estar que a aparente decisão dos Sussex provocou em toda a sociedade britânica. “Tenho dificuldade em ver uma grande empresa querer associar sua imagem com a do casal”, aponta Jiménez. Um caso diferente e próximo do analisado, continua, seria o de William de Cambridge, um perfil muito mais técnico, que transmite “mais seriedade e confiança. O mundo corporativo, especialmente no nível dos conselhos de administração, tornou-se muito sério. Já não basta parecer, também é preciso ser”.

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