PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

Pazuello prevê cem mortes diárias em Manaus sem transferência maciça de pacientes a outros Estados

Ministro da Saúde, investigado pela Polícia Federal na crise pela falta de oxigênio, alerta para a necessidade de deslocar 1.500 doentes para aliviar as UTIs do Amazonas

Funcionários municipais recolhem o corpo de uma nonagenária que morreu por complicações da covid-19 em sua casa em Manaus na última sexta-feira.
Funcionários municipais recolhem o corpo de uma nonagenária que morreu por complicações da covid-19 em sua casa em Manaus na última sexta-feira.Edmar Barros / AP

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A crise sanitária de Manaus continua em fase extremamente grave. O ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, alertou em um dramático pronunciamento nesta sexta-feira que sem medidas radicais é impossível estabilizar a situação. “Sem a evacuação [a outros Estados] de 1.500 pacientes (...) continuarão morrendo de 80 a 100 pessoas por dia porque as UTIs não são feitas de um dia para o outro”, prognosticou duas semanas depois da morte de pelo menos 50 pessoas asfixiadas por falta de oxigênio em hospitais da cidade.

O procurador-geral da República iniciou investigação sobre o ministro por essas mortes, pelo fato de Pazuello ter sido oficialmente informado de que, diante do espetacular aumento de internados no começo de 2021, o oxigênio estava escasseando. O ministro não adotou medidas. Há duas semanas milhares de famílias desesperadas procuram fornecimento de oxigênio da maneira que for para manter os seus vivos. Nesta sexta-feira, como parte do processo formal iniciado pela PGR, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar o caso.

Pazuello fez o sombrio prognóstico em Manaus ao dar as boas-vindas aos 108 médicos que as autoridades contrataram a toda pressa em uma tentativa de aliviar a situação crítica. A rede sanitária do Estado sempre foi frágil. Faltam UTIs, médicos... O ministro afirma que o oxigênio está estabilizado. É uma região muito remota, vasta e com população muito dispersa fora de Manaus. Só a capital tem unidades de terapia intensiva, e hoje estão saturadas. A crise já se espalha pela região Norte: Rondônia já sofre com falta de leitos e médicos, e o governador do Pará, Helder Barbalho, confirmou nesta sexta que foram identificados dois pacientes infectados com a nova cepa do coronavírus no Estado.

A crise de Manaus e, em geral, do Amazonas é o exemplo mais claro de uma gestão da pandemia marcada pela incompetência, segundo os mais benevolentes, e pela temeridade e diretamente a má fé, de acordo com os mais críticos do presidente Jair Bolsonaro, que na quinta-feira andou sem máscara e apertando mãos em meio a uma multidão durante uma visita oficial a Sergipe. Como se não fosse o chefe de Estado de um país que contabiliza mais de mil mortos diários e que vacinou somente 1,5 milhão de seus 210 milhões de habitantes.

O Brasil é o país que pior lida com a pandemia de coronavírus entre os 98 analisados pelo Instituto australiano Lowy de relações internacionais.

O governador do Amazonas prorrogou até 7 de fevereiro o confinamento total que começou na segunda-feira e suspendeu o feriado de Carnaval.

Para aliviar as UTIs, o general Pazuello considera imprescindível evacuar 1.500 pacientes a outros Estados para dar lugar aos doentes mais graves que precisam de oxigênio com urgência e aos que se teme que vão chegar. O Amazonas está em plena temporada de chuvas, a estação em que os casos de síndromes respiratórias agudas disparam todos os anos porque a umidade é de 100%. “Respiramos água”, frisou o militar. Um panorama agravado agora pelo coronavírus porque a região “foi premiada com uma nova cepa da covid-19, geneticamente identificada pelo instituto Fiocruz, que é três vezes mais contagiosa”, disse o ministro. Também apelou diretamente aos dois milhões de moradores de Manaus para que contactem um médico ao primeiro sintoma.

Pazuello foi apresentado como um especialista em logística quando Bolsonaro o nomeou após demitir dois titulares da Saúde no começo da pandemia. A crise do oxigênio, que chocou o Brasil, o colocou em evidência. Suas palavras contrastam com as que pronunciou na mesma cidade dias antes da fatídica noite em que vários dos principais hospitais de Manaus ficaram literalmente sem oxigênio. Ele se referiu, nessa ocasião, aos alertas com resignação e em tom leve.

O general nunca escondeu que está no cargo para obedecer sem quaisquer questionamentos as ordens do presidente. Ele alertou o prefeito na sexta-feira que precisa reforçar imediatamente os ambulatórios municipais com equipamentos e pessoas. “Mas de verdade, não para inglês ver e para fotos”, disse.

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