Pandemia de coronavírus

Europa isola o Reino Unido por medo de nova cepa do coronavírus

Itália, Alemanha, Holanda, Bélgica, Áustria, Irlanda e França suspendem as conexões aéreas procedentes do território britânico. Espanha reforçará controles com testes de PCR

Aviões da British Airways no aeroporto London Gatwick, em maio.
Aviões da British Airways no aeroporto London Gatwick, em maio.BEN STANSALL / AFP

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A União Europeia começou neste domingo a se proteger do Reino Unido para tentar conter a propagação de uma nova cepa do vírus, detectada nas Ilhas Britânicas e à qual o Governo de Boris Johnson atribui o aumento dos casos de covid-19 em seu país. O Executivo holandês de Mark Rutte foi o primeiro a proibir os voos procedentes do Reino Unido, de 20 de dezembro a 1º de janeiro. Bélgica, Itália, Áustria, Alemanha, França e Irlanda também anunciaram o veto aos passageiros procedentes da Grã-Bretanha.

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O isolamento do Reino Unido por avião, barco e trem coincide com a reta final das negociações com a União Europeia sobre um acordo comercial para evitar uma ruptura drástica em 31 de dezembro, quando expira o prazo de carência acordado depois da saída do país da UE em 31 de janeiro. O Executivo de Johnson se defronta assim com uma tempestade perfeita, provocada pelo golpe definitivo do Brexit e pela última investida do vírus SARS-CoV-2.

A Espanha não fechará o tráfego aéreo com o Reino Unido, como fizeram outros países europeus, mas o Governo anunciou no final da tarde de domingo que reforçará o controle com testes de PCR em passageiros procedentes do país britânico. Fontes governamentais explicam que nesta segunda-feira insistirão em uma reunião com o resto dos países da União Europeia na “necessidade de adoptar medidas coordenadas em relação aos voos procedentes do Reino Unido”. “A Espanha mantém sua posição de que qualquer decisão a esse respeito deve ser comum e evitar a unilateralidade”, acrescentam as mesmas fontes. Nesta manhã, a Espanha anunciou que suspenderia os voos de e para o Reino Unido se não chegasse uma resposta conjunta da União Europeia. O Executivo considera que, ao exigir um teste de PCR dos passageiros do Reino Unido –ao contrário de outros países europeus– um reforço desse controle é suficiente até a reunião de segunda-feira pela manhã.

“Depois de tomarmos conhecimento do anúncio de vários países de suspender seus voos de e para o Reino Unido, informamos que o Governo da Espanha solicitou esta manhã à presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao presidente do Conselho, Charles Michel, uma resposta coordenada da comunidade a esta nova situação”, disseram fontes do Executivo pela manhã. Michel convocou uma reunião por videoconferência neste domingo com os representantes permanentes dos países para analisar a evolução do vírus e as novas cepas. Essas fontes afirmam que houve troca de informações sobre as medidas que cada país vai adotar em relação ao fechamento com o Reino Unido, a proibição de voos ou a obrigatoriedade de PCR. A reunião de amanhã dará continuidade aos esforços de coordenação.

O bloqueio fronteiriço também abre uma incógnita sobre a estratégia sanitária da UE, que nos últimos meses havia conseguido manter abertas as comunicações entre os Estados-membros e evitar o caos no transporte de passageiros e de mercadorias experimentado durante a primeira onda. Para efeitos de transporte, o Reino Unido continua sendo membro de facto da UE até 31 de dezembro, razão pela qual o veto a seus voos e trens poderia antecipar uma escalada de proibições se a terceira onda se precipitar ou atingir de forma mais virulenta do que o esperado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu a seus membros na Europa que “reforcem seus controles”, conforme indicou um porta-voz do braço europeu da organização à agência AFP.

A Itália é um dos países que não esperou uma decisão comum. O ministro das Relações Exteriores italiano, Luigi Di Maio, comunicou o fechamento de seu país ao Reino Unido no Twitter: “Como Governo temos o dever de proteger os italianos e, por essa razão, depois de notificar o Governo inglês, estamos prestes a assinar uma medida com o ministro da Saúde para suspender os voos de e para a Grã-Bretanha. Nossa prioridade é proteger a Itália e nossos compatriotas”.

A Alemanha também suspenderá o tráfego aéreo com o Reino Unido a partir da meia-noite deste domingo. “É necessário proibir de imediato e temporariamente os voos do Reino Unido e da Irlanda do Norte para a República Federal para proteger a população da Alemanha e limitar a entrada e a rápida disseminação das novas variantes do vírus”, afirma a ordem alemã. Um regulamento especial do Ministério da Saúde alemão permitirá que os aeroportos alemães proíbam voos do Reino Unido e da África do Sul, onde também circula uma nova cepa do vírus. “As informações disponíveis sobre a mutação estão sendo avaliadas a toda velocidade e o Governo alemão também está em contato com seus parceiros europeus”, disse um porta-voz do ministério à imprensa alemã.

No final da tarde, a agência AFP informou que a França proibirá todas as viagens desde o Reino Unido durante 48 horas a partir da meia-noite deste domingo.

A nova variante obrigou o Reino Unido a endurecer as restrições em Londres e em outras regiões do sul do país. Segundo o Executivo de Boris Johnson, a nova cepa tem maior capacidade de transmissão (até 70% a mais que a cepa anterior) e, por isso, as infecções ocorrem com mais rapidez, embora os cientistas alertem que ainda não se sabe se a nova cepa é realmente mais contagiosa.

Um novo contágio dessa nova cepa já foi detectado na Holanda: o Ministério da Saúde holandês comunicou a presença do patógeno no país e seu departamento investiga agora a origem da infecção. Diante da situação, o Governo proibiu os voos de passageiros provenientes do Reino Unido até 1º de janeiro e no momento investiga se deve aumentar as restrições. A suspensão dos voos não inclui os de carga e nem as viagens por terra e de barco, mas é aconselhável viajar apenas em caso de extrema necessidade.

Barbara Visser, secretária de Estado de Defesa da Holanda, explicou neste domingo num programa de televisão que estudará, em conjunto com outros países europeus, “se seria possível estabelecer um controle mais rígido das fronteiras”. Os viajantes que chegarem do Reino Unido deverão observar uma quarentena de 10 dias. Na madrugada deste domingo, o aeroporto internacional de Schiphol se dispunha a avaliar o efeito da suspensão dos voos. Um porta-voz da KLM, a companhia aérea nacional, apontou que, “somente hoje, oito aviões deveriam decolar de Londres rumo a Amsterdã”.

A Bélgica também anunciou um fechamento semelhante ao da Holanda a partir da meia-noite deste domingo, conforme anunciado pelo primeiro-ministro belga, Alexander de Croo. As conexões ferroviárias do Eurostar desde o Reino Unido também estão temporariamente suspensas, de acordo com o jornal L’Echo. Segundo explicou De Croo, por enquanto a medida terá vigência inicial de 24 horas porque a comunidade científica ainda está fazendo uma avaliação da situação. “Não temos uma resposta conclusiva”, acrescentou o primeiro-ministro belga.

O Governo austríaco também proibiu neste domingo a aterrissagem de voos provenientes do Reino Unido. “Temos de evitar por todos os meios que essa mutação perigosa do vírus nos seja introduzida”, disse o ministro das Relações Exteriores, Alexander Schallenberg, à agência APA.

O país vizinho do Reino Unido, a Irlanda, restringirá o transporte aéreo e marítimo com a Grã-Bretanha a partir da meia-noite deste domingo. “As viagens entre a Irlanda e a Grã-Bretanha ficarão limitadas”, disse o ministro dos Transportes, Eamon Ryan, que acrescentou que a medida será revista na terça-feira. A conexão para o transporte de bens e produtos essenciais está mantida.

A Grécia não restringiu o tráfego aéreo com o Reino Unido, mas anunciou que ampliará a quarentena obrigatória aos cidadãos desse país quando entrarem em território helênico: em vez dos três dias impostos aos viajantes de outros países, os que chegarem do Reino Unido terão de fazer uma semana de isolamento.

Fora da União Europeia também estão sendo adotados fechamentos ao Reino Unido. Israel anunciou a proibição de viagens de e para a Grã-Bretanha e, além disso, desde outros dois países que detectaram a variante, como Dinamarca e África do Sul. Os israelenses que retornarem desses três países serão obrigados a ficar em quarentena em hotéis habilitados para esse fim.

62% das novas infecções aconteceram no Reino Unido

De acordo com os dados mais recentes, até 62% das novas infecções registradas na capital britânica se devem à nova variante do vírus, que se tornou a dominante. Boris Johnson, acompanhado no sábado em uma coletiva de imprensa extraordinária pelos principais assessores médicos do Governo, explicou que os dados coletados não levam à conclusão de que a variante produza sintomas mais graves da doença, ou maior mortalidade.

À espera de novos testes, a equipe de assessoria científica do Executivo continua acreditando que as vacinas serão eficazes contra essa nova modalidade do vírus. De qualquer forma, alertou o primeiro-ministro, os novos dados obrigaram a uma mudança de critérios e a endurecer as medidas de restrição social nas áreas afetadas.

A amostra com a nova cepa do coronavírus foi detectada no início de dezembro na Holanda e as autoridades sanitárias investigam agora o estado da pessoa que deu positivo – cuja identidade não foi revelada – bem como de seu círculo mais próximo. Segundo Marion Koopmans, integrante da equipe científica que assessora o Governo holandês e também a OMS, a expectativa é que as vacinas atuais sirvam também contra essa nova variante. No longo prazo, porém, considera que as vacinas terão de ser adaptadas às mutações, conforme explicou à imprensa local.

A primeira rodada de vacinação na Holanda acontecerá a partir de 8 de janeiro e o Instituto de Saúde e Meio Ambiente (RIVM, na sigla em holandês), que assessora o Governo, informou que a nova cepa circula no Reino Unido “desde setembro, e apenas um caso holandês foi descoberto até esta data; algo aconteceu agora que fez [as autoridades britânicas] tomarem medidas extras”, disse um porta-voz do instituto.

“O FATO DE OS VÍRUS SOFREREM MUTAÇÃO PARA SE TORNAREM MAIS INFECCIOSOS NÃO É SURPREENDENTE”

Esta não é a primeira nova cepa preocupante detectada do SARS-Cov-2. Em novembro, o Governo da Dinamarca determinou que milhões de visons fossem sacrificados depois da detecção de outra variante do coronavírus que se espalhou entre as fazendas de criação e depois passou para os seres humanos. Esta variante do coronavírus tinha quatro novas mutações, algumas delas na parte mais importante do patógeno: a proteína S, essencial para que o SARS-CoV-2 possa infectar e que é o alvo de muitas das vacinas que estão em desenvolvimento. Ainda não foi possível demonstrar que estas novas cepas são mais contagiosas ou infecciosas do que as já detectadas.

“O fato de os vírus sofrerem mutação para se tornarem mais infecciosos não é surpreendente e que isso poderia acontecer com vírus novos e emergentes já é conhecido há algum tempo”, disse Paul Hunter, professor da Escola de Medicina de Norwich da Universidade de East Anglia, ao serviço de notícias científicas SMC. “Para mim, estes relatórios sobre a transmissibilidade da nova variante são ainda mais preocupantes do que eu havia previsto”, acrescenta. O especialista acredita que é apenas “questão de tempo” para que esta variante do vírus se torne dominante no Reino Unido e apareça em outros países. (Informações Nuño Domínguez) .

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