Arqueologia

O último banquete canibal na casa dos mortos

Universidade de Valladolid recria a celebração antropofágica que há 5.500 anos um grupo humano realizou antes de abandonar as terras esgotadas por suas plantações

Reconstrução do último jantar antropofágico do grupo humano que ocupou Reinoso (Burgos) há 5.500 anos.
Reconstrução do último jantar antropofágico do grupo humano que ocupou Reinoso (Burgos) há 5.500 anos.Miguel Sastre Rojo

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Durante três séculos exploraram as terras que rodeavam o grande dólmen funerário –um monumento de 25 metros de diâmetro– que ergueram há cerca de 5.500 anos onde hoje é o termo municipal de Reinoso (província de Burgos, na Espanha) e onde sepultavam seus entes queridos. Mas os campos, depois de doze gerações de agricultores que ainda desconheciam os métodos de rotação e mal usavam adubo, acabaram se esgotando. A sobrevivência já era impossível. Decidiram, portanto, se dispersar em pequenos grupos, mas antes celebraram o último grande ritual; um enorme banquete que incluiu, além de carne de animais, a de seus próprios congêneres. A equipe de Manuel Rojo Guerra, professor de Pré-história da Universidade de Valladolid, que dirige o projeto juntamente com a pesquisadora Cristina Tejedor Rodríguez, reconstruiu –inclusive com imagens recriadas virtualmente– como foi aquele festim, no qual pés e mãos humanas se tornaram delicadas iguarias exclusivas para consumo de sacerdotes ou chefes.

Com a ida do grupo para outras terras, o dólmen de El Pendón deixava, logicamente, de cumprir sua missão inicial de cemitério. Portanto, antes do grande banquete seria necessário desmontá-lo e mudar sua finalidade original: se converteria em uma referência cultural para os membros dessa comunidade em êxodo. Por esse motivo, o túmulo e o corredor de entrada foram meticulosamente desmontados e a câmara mortuária onde repousavam os antepassados foi selada com enormes pedras. O grande monumento funerário foi assim transformado em “um lugar de reunião, um centro de agregação populacional onde as diferentes famílias renovariam pactos de hospitalidade, trocariam produtos, e onde, talvez periodicamente, se reunissem para celebrar a pertença à mesma estirpe”, detalha Rojo Guerra. Em seguida, começou o último banquete.

No local onde se juntavam a câmara mortuária e o corredor de acesso ao túmulo, a Universidade de Valladolid encontrou uma estrutura retangular “que nada mais era do que uma pira de ossos humanos [extraídos da tumba], já que não havia cinza nem carvão, apenas restos parciais de esqueletos de até 20 indivíduos”, lembra o professor. Especificamente, a antropóloga física Sonia Díaz Navarro identificou nove crianças de até 10 anos (uma perinatal), quatro subadultos (entre 15 e 20 anos), seis adultos jovens (entre 21 e 35 anos) e um maduro (entre 36 e 50 anos).

“Quase todos os ossos foram lançados na pira depois que as partes moles foram removidas, sugerindo uma seleção de certas áreas do esqueleto, especialmente crânios e mandíbulas antigas. Os crânios estão intimamente associados aos rituais porque são uma das regiões mais importantes e representativas do ser humano”, explica o diretor das escavações financiadas pela prefeitura de Reinoso, a Deputação de Burgos e a Junta de Castela e Leão.

Mas entre os vestígios milenares também foram encontrados uma mão e um pé quase completos. “A mão esquerda conserva”, explica o professor, “os ossos carpais mais próximos dos metacarpos (trapézio e trapezoide), os quatro primeiros metacarpos e a terceira falange proximal. Sua posição sugere que estava flexionada ou contraída pela ação do fogo e que conservava, portanto, tendões e ligamentos quando foi lançada às chamas. O pé direito, por sua vez, mantém o calcâneo, o tálus, os escafoides, os cuboides e todos os metatarsos, exceto o quinto. A posição dos ossos tarsais parece indicar que foi depositado na posição plantar”. Diretamente sobre as brasas.

“Isto significa que tanto a mão quanto o pé, quando foram lançados ao fogo tinham partes moles, razão pela qual se deduz que a pira funerária e o fechamento da tumba foram feitos imediatamente após uma morte”, talvez a última antes da desagregação do grupo. “As populações antropófagas atribuíam a maior importância às mãos e pés. Assim, os astecas os destinavam exclusivamente ao grande sacerdote e governante e os consideravam uma iguaria. Além disso, os guerreiros das tribos theddora e ngarigo, do sudeste australiano, comiam mãos e pés de seus inimigos”, explica Rojo Guerra.

Mas ambas as extremidades não foram a única coisa que consumiram em sua grande celebração. Ao lado da pira foram encontrados dois buracos nos quais apareceram as patas dianteira e traseira de uma vaca e duas paletas de javali. Quase todos esses restos apresentavam impactos e marcas de corte para poder consumir tanto a carne quanto o tutano, segundo as análises da zooarqueóloga Marta Moreno, do Laboratório de Arqueobiologia do CSIC.

Para completar a refeição, o melhor foi uma boa bebida. Na última campanha de escavação foi desenterrado um enorme recipiente de cerâmica que estava lacrado com uma laje de arenito e continha o líquido que ingeriram. Os especialistas acreditam que poderia se tratar de algum tipo de álcool, embora as análises ainda não estejam terminadas.

Finalizado o festim, as sobras foram jogadas para os cães, como evidenciam as marcas de roedura e as marcas de dentes de canídeos. O grupo então se dispersou pela região buscando sua sobrevivência. Algum dia voltariam para buscar suas recordações no centro ritual que deixavam para trás e onde realizaram seu último banquete.

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