Crise política no Peru

Milhares de peruanos protestam contra o Governo interino de Manuel Merino

Os enfrentamentos com a polícia deixam pelo menos 16 detidos e três pessoas gravemente feridas

Manifestantes enfrentam a polícia nos protestos em Lima, na noite de quinta-feira.
Manifestantes enfrentam a polícia nos protestos em Lima, na noite de quinta-feira.ERNESTO BENAVIDES / AFP

O quarto dia de protestos no Peru pela destituição do presidente Martín Vizcarra foi um dos mais violentos e com maior número de participantes. As manifestações desta quinta-feira contra o novo Governo de transição, liderado pelo empresário de direita Manuel Merino de Lama ―que era o presidente do Congresso―, seu Gabinete de Governo, presidido pelo primeiro-ministro Ántero Flores-Aráoz, e o Congresso foram pacíficas durante mais de três horas, mas, com o cair da noite em Lima, o ambiente ficou cada vez mais tenso e a polícia reprimiu violentamente os manifestantes e repórteres. Há pelo menos três feridos com gravidade por tiros disparados pelas forças de segurança, um deles com prognóstico confidencial, e oito com ferimentos leves, incluindo quatro jornalistas, segundo um balanço da entidade Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos divulgado na manhã desta sexta-feira. Pelo menos 16 pessoas foram presas.

O mais gravemente ferido é Percy Pérez Shaquiama, 27 anos, transferido antes da meia-noite para o Hospital Guillermo Almenara, após ter sido atingido por uma bala no abdômen, e operado no serviço emergencial. Seu estado é “delicado e com prognóstico confidencial”. Durante um programa de rádio, o médico Jorge Amorós afirmou que a equipe médica extraiu um “corpo estranho” que perfurou o intestino delgado da vítima e o entregou à polícia. Minutos depois, o plano social de saúde Essalud, ao qual pertence o hospital, especificou em um comunicado que Pérez estava sendo tratado por um ferimento à bala. Depois, excluiu o tuíte do primeiro informe e modificou o texto para substituir “bala” por “projétil de arma de fogo”.

Luis Alejandro Aguilar, 26 anos, também internado por um ferimento à bala no mesmo hospital, está “estável”, informa a agência Efe. A Coordenação Nacional de Direitos Humanos do Peru indicou que uma terceira pessoa, Rubén Guevara, também de 27 anos, foi atingido por um cartucho de projétil e ficou com o “rosto desfigurado, com possibilidade de lesões permanentes no olho esquerdo”.

A confirmação dos ferimentos à bala ocorre após a difusão de várias gravações de vídeo feitas por cidadãos e pela imprensa sobre a presença de supostos agentes disfarçados que teriam usado suas armas de fogo durante os protestos. O aparecimento desses agentes à paisana, do chamado Grupo Terna, durante os primeiros dias de manifestações, após a destituição de Martín Vizcarra pelo Congresso na segunda-feira, já havia provocado duras críticas tanto no Peru como por parte de organismos internacionais. Mar Pérez, advogada da Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos, denunciou que se trata de uma violação do direito internacional e dos manuais da polícia.

Na noite desta quinta-feira, enquanto ocorriam os confrontos, o novo ministro do Interior, Gastón Rodríguez, negou que os agentes tivessem usado bala de chumbo grosso e que houvesse elementos do Grupo Terna. No entanto, um grupo de jovens teria identificado um desses policiais no protesto em Lima. Quando o expulsaram da manifestação, apontando para ele com um sinalizador a laser, o agente teria sacado sua arma e disparado contra os participantes. “Error 404. Democracia not found”, dizia o cartaz carregado por um jovem a 200 metros da Plaza San Martín, principal ponto dos protestos em Lima. A praça ficou lotada a partir das 18h30 (hora local) e os manifestantes ocupavam quase todas as avenidas e ruas circundantes. O objetivo da Polícia Nacional era impedir que os manifestantes avançassem em direção ao Congresso ou ao Palácio do Governo. As forças de segurança também reprimiram os profissionais da imprensa: quatro jornalistas ―do jornal El Comercio, do Canal N, do Ojo Público e da agência francesa AFP― foram feridos por projéteis. Uma outra foi ferida em Puerto Maldonado, na região amazônica de Madre de Dios, segundo a Associação Nacional de Jornalistas.

Os protestos contra o que consideram um Governo ilegítimo ―na forma e na substância― e contra a corrupção ocorreram não só no centro de Lima, mas, pela primeira vez em 20 anos, em quase todos os bairros da capital, acompanhados por panelaços, e em quase todas as capitais das 24 regiões.

O Congresso destituiu Vizcarra na segunda-feira, recorrendo para isso a uma moção de vacância (ou impeachment) por “incapacidade moral permanente”, apoiada por uma investigação contra o político por supostamente ter se deixado subornar quando era governador regional de Moquegua, em 2014. A moção foi adiante, contra todas as probabilidades, por 105 votos a favor, 19 contra e 4 abstenções. O Ministério Público está investigando o ex-presidente, que já havia sido alvo de uma primeira tentativa de destituição dois meses atrás e cujo mandato terminaria em 28 de julho, enquanto prosseguiam as investigações.

As bancadas parlamentares que promoveram a saída de Vizcarra encontraram no presidente um obstáculo para poderem usar o Congresso como plataforma a favor dos seus interesses privados. O fundador do Podemos Peru, José Luna Morales, está em prisão preventiva desde sábado enquanto é investigado por lavagem de dinheiro e tráfico de influência. Morales é o principal representante de um grupo de políticos que fez negócios abrindo universidades privadas de baixa qualidade educacional que foram posteriormente fechadas pela Superintendência Nacional de Educação Universitária. Já o líder da União pelo Peru, Antauro Humala, está preso e pede anistia para ser candidato à presidência.

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