Eleições EUA 2020

Três grandes redes de TV dos EUA interrompem o discurso em que Trump blefava sobre fraude eleitoral

ABC, CBS e NBC cortam a transmissão da fala em que, sem prova alguma, o presidente acusava adversários de tentar “roubar” na apuração e atacava todo o sistema eleitoral dos EUA

Donald Trump durante seu discurso na Casa Branca nesta quinta-feira.
Donald Trump durante seu discurso na Casa Branca nesta quinta-feira.BRENDAN SMIALOWSKI / AFP

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Os relógios se aproximavam das 19h desta quinta-feira na Costa Leste dos EUA (21h em Brasília) quando Donald Trump lançou na Casa Branca uma mensagem sem precedentes: “Se contarmos os votos legais, ganhamos facilmente. Se contarmos os ilegais, vão tentar nos roubar”. Assim começava um discurso que indicava desde os primeiros minutos um dano histórico ao sistema eleitoral norte-americano por parte de um mandatário do país. Mesmo para os padrões de Trump, as acusações sem prova alguma lançadas na noite desta quinta, sugerindo uma fraude eleitoral maciça nos Estados Unidos, representam uma afronta inédita às instituições e alcançam o objetivo de jogar gasolina num país mais polarizado do que nunca. Três grandes redes de televisão aberta, ABC, CBS e NBC, decidiram interromper a transmissão ao verem um perigo nessas palavras sem provas. Os únicos canais que continuaram mostrando o discurso foram CNN e Fox News.

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Em seu pronunciamento à imprensa, o primeiro desta quinta-feira, o presidente se mostrou cabisbaixo, como um mal perdedor, diante da vantagem mínima —mas cada vez mais sólida— de seu rival democrata, Joe Biden. Trump apontou diretamente para o seu alvo principal: o voto por correio. Estas cédulas estão favorecendo os democratas em uma apuração frenética, que deixa o país em vigília. E insinuou que seus adversários controlam esses sistemas e o usam a seu favor, mas não apresentou qualquer prova disso. “Nosso objetivo é defender a integridade da eleição”, chegou a afirmar.

Na metade desse discurso, os três principais canais da TV aberta interromperam a transmissão. “Estamos aqui novamente na posição incomum de não só interromper o presidente dos Estados Unidos, mas também de corrigir o presidente dos Estados Unidos...”, comentava o apresentador da NBC, enquanto ainda se podia escutar levemente Trump ao fundo. A imprensa é outro alvo dos ataques do presidente desde que chegou ao poder, e com este gesto, quando ainda faltam milhares de votos para que se conheça o ganhador, os jornalistas deram um basta.

Na CNN, a transmissão não foi interrompida, mas imediatamente depois de o presidente virar as costas o apresentador Jake Tapper fazia esta declaração: "Acusar falsamente as pessoas de tentarem roubar as eleições, tentar atacar assim a democracia com seu festival de mentiras. Mentira atrás de mentira, atrás de mentira... ". Já no canal conservador Fox News, os apresentadores praticamente repetiram a ladainha de acusações infundadas feitas por Trump, mas inclusive ali o apresentador admitiu que não se viu “nenhuma prova de que tenha ocorrido fraude”.

Também a rede hispânica Univision interrompeu a exibição do pronunciamento presidencial. “Parte do que disse o presidente Trump é mentira. Não é verdade o que disse o presidente Trump sobre votos ilegais que impedem sua vitória. Ele não apresentou nenhum tipo de evidência”, afirmou o apresentador Jorge Ramos.

A rede social Twitter, usada por frequência por Trump para se comunicar, também censurou alguns das mensagens enviadas pelo presidente Trump após o discurso na Casa Branca. Neles, o republicano repetia partes de sua fala em que qualificava Filadélfia (capital da Pensilvânia, um dos Estados em disputa que ainda não concluiu a apuração) como “um dos lugares mais corruptos do país” e insistia em que não permitiria que “roubassem a eleição”. Não é a primeira vez que o Twitter etiqueta as mensagens de Trump como “enganosas” —já o havia feito na noite eleitoral, quando o republicano também fez acusações sem provas.

Trump vem há meses falando da possível fraude do voto postal, mesmo sem nenhum indício disso. Trata-se de um sistema amplamente usado nas eleições norte-americanas desde o final da década de 1990. Neste ano, mais norte-americanos do que nunca votaram por esta via, devido à pandemia de coronavírus. Tradicionalmente os democratas votam mais pelo correio, enquanto os republicanos geralmente preferem emitir seus votos pessoalmente, a maioria no dia oficial da votação.



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