Um milhão de vidas perdidas para a covid-19

Em plena transformação e diante de uma crise econômica e política, o mundo atinge o número simbólico sem perspectivas de um final próximo da pandemia do novo coronavírus, mas com novas defesas diante da segunda onda e com esperança nas primeiras vacinas contra a covid-19

Um casal chora em um cemitério de Manaus (AM).
Um casal chora em um cemitério de Manaus (AM).Bruno Kelly.

O mundo de ontem parece cada vez mais remoto —um continente exótico, quase outro século—, mas o novo nunca chegou e ninguém ainda o vislumbra.

Quando em 11 de janeiro surgiu a notícia da primeira morte como resultado de um misterioso vírus detectado algumas semanas antes na cidade chinesa de Wuhan, nem mesmo o mais lúcido dos visionários poderia ter adivinhado o que estava por vir. Ninguém imaginava que, atrás daquele homem de 61 anos, se acumulariam mais 999.999 cadáveres por covid-19 e que o excepcional —a vida com máscara e sem beijos, o teletrabalho, a hipótese de voltar a se fechar em casa, o medo de um mal que no final de 2019 nem tinha nome— se tornaria rotina.

Nove meses depois, o mundo está prestes a ultrapassar a marca de um milhão de mortes muito mais bem armado do que então para atenuar o impacto letal da doença e com avanços na obtenção da vacina. No entanto, o número de infectados desde o início da pandemia ultrapassa os 32 milhões. E países que acreditavam ter controlado mais ou menos a epidemia e reduzido ao mínimo as mortes enfrentam o temor de uma segunda onda que pode saturar de novo os hospitais e levar a um novo confinamento da população depois daquele do último inverno.

“Não estamos prestes a derrotar o vírus. Teremos de conviver com ele e desaparecerá gradualmente com as vacinas e a imunidade de grupo. Não haverá corte seco que solucionará tudo”, diz desde Massachusetts o ensaísta Robert D. Kaplan, autor entre outros livros de À Beira da Anarquia e A Vingança da Geografia e especialista em geopolítica. “Não haverá desfile da vitória”.

Um milhão é um número arbitrário que, isolado, significa muito pouco —"uma morte é uma tragédia, um milhão é uma estatística", diz a frase apócrifa atribuída ao tirano soviético Josef Stalin—, mas é um número que nos permite avaliar como a humanidade chegou a este ponto, o que mudou nestes meses não só na frente sanitária, mas também na política internacional e na economia.

“Comparo esta pandemia com o Bolero de Maurice Ravel. A música é repetitiva. Os instrumentos vão entrando pouco a pouco na partitura”, diz o epidemiologista Antoine Flahault, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra, na Suíça. Foi assim na pandemia de SARS-Cov-2, o vírus que causa a doença covid-19. Primeiro foi a China. Depois, Coreia e Irã. Em seguida, Itália e Espanha. E as Américas do Norte e do Sul, e a Índia. E assim por diante, até cobrir quase todo o planeta, como o crescendo da peça do compositor francês.

“Se existe um instrumento que não entrou, é a África subsaariana. E cada um evolui por seu lado”, explica o professor.

Quase metade das mortes ocorreu nas Américas. Um quarto na Europa. A Ásia, onde surgiram os primeiros casos e onde as medidas contra o vírus foram mais eficazes, registra 10% das mortes. E a África, com uma população jovem e menos vulnerável, 2,5%. O dia com mais mortes no mundo foi 17 de abril, com 12.421; 7 de setembro, com 8.666, foi o quarto pior.

Flahault, que mantém uma contagem diária do estado da pandemia no mundo, revê o horizonte atual. De áreas “pouco ativas”, como China, Japão, Vietnã ou Tailândia na Ásia, ou Austrália e África do Sul, à América Latina, que “enfrenta uma catástrofe sanitária sem precedentes”, e partes dos EUA onde o vírus “não está absolutamente sob controle”. No meio, a Europa Ocidental, que no verão [no hemisfério norte] “viveu uma situação paradoxal, com aumento de casos, mas não de mortes nem de formas graves da doença”. “Agora, na Espanha e na França começamos a ver formas graves cada vez mais numerosas que preocupam porque são muito semelhantes ao início de uma segunda onda”, constata o epidemiologista de Genebra. “Não se pode descartar que, se a segunda onda atingir a Europa, os sistemas sanitários estarão sob tal pressão e que, para evitar sua implosão, seremos obrigados a novos confinamentos”.

O rastro de outras pandemias

Um milhão, o que isso significa? É muito, é pouco? A malária provocou 405.000 mortes em 2018. O HIV/AIDS, 690.000 mortes em 2019, contra mais de 32 milhões desde os anos oitenta. A gripe comum mata entre 290.000 e 650.000 pessoas a cada ano. As gripes de 1957 e a de Hong Kong em 1969 fizeram um milhão de mortes cada uma, segundo dados do Centro de Controle de Doenças dos EUA, mas quase não deixaram vestígio na memória coletiva.

A comparação habitual é com as gripes de 1918 e 1920. “O balanço global estimado é de aproximadamente 50 milhões de mortes. É o número mais citado. Na realidade, não sabemos o total de vítimas mortais, principalmente nos países em desenvolvimento em que os registros eram irregulares. Estima-se que, somente na Índia, houve oito milhões de mortes. Aquela pandemia foi e continua sendo a mais mortal da história”, explica o professor J. Alexander Navarro, do Centro de História da Medicina da Universidade de Michigan. “Assim como aconteceu com a pandemia de 1918-1920, é provável que nunca tenhamos um número preciso do total de mortes por covid-19”.

Um milhão, é um número credível? “Não, não, não. De modo algum”, responde o demógrafo Jean-Marie Robine, do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED). Só na França, explica, existem três fontes diferentes e não coincidentes. “Os números são provavelmente muito imprecisos (...). Certamente já estamos muito acima do milhão”, acrescenta.

Robine explica que se a pandemia terminar relativamente cedo, os efeitos demográficos serão limitados. A expectativa de vida pode cair cinco ou seis meses este ano nos países europeus, mas se recuperaria rapidamente, como aconteceu depois de epidemias e guerras. “Se for um acontecimento único, o impacto será menor. Um milhão de mortos, na escala da humanidade, não é nada”, diz. “Mas, se a crise voltar com ondas regulares, pode ter um grande impacto e impedir o aumento da expectativa de vida. Seria o fim da revolução da longevidade”, prevê. Ou seja, o aumento da idade média de morte dos seres humanos, que não parou de crescer desde a década de cinquenta, estacionaria.

Se a crise voltar com ondas regulares, pode ter um grande impacto e impedir o aumento da expectativa de vida
JEAN-MARIE ROBINE, DEMÓGRAFO

Os números se tornaram uma arma política e uma bandeira. A China, com três mortos por milhão de habitantes, a Coreia do Sul com oito e a Alemanha com 114, se saíram melhor nesses nove meses de pandemia do que a França (486), os Estados Unidos (629) e a Espanha (668). “Não acredito que se possa dizer que os países autoritários se saíram melhor do que as democracias. A Ásia administrou isso bem, seja uma democracia como Taiwan ou uma autocracia como a China continental”, disse Kaplan. “O que vimos não foi democracias versus autocracias, mas administração inteligente versus administração estúpida".

A segunda globalização

Kaplan acredita que o vírus estabelece “uma pausa” entre o que chama de duas fases da globalização. A primeira, que começou com o fim da Guerra Fria no início dos anos noventa, foi uma globalização democratizante e globalizadora. A segunda, que já havia começado antes da pandemia, mas que esta acelerou, é uma globalização marcada pela pujança das autocracias e das rivalidades entre potências.

“As ações da Administração Trump prejudicaram o prestígio norte-americano e a posição da China se reforçou”, descreve o titular da cátedra de geopolítica do Foreign Policy Research Institute. “Dependerá muito das eleições presidenciais nos Estados Unidos. É a maior variável independente que desconhecemos, a variável que pode ter maior efeito geopolítico na Europa, no Oriente Médio, no Extremo Oriente. As coisas estarão mais claras até o final do ano.”

Kaplan fala de outra fase da globalização, mas não do fim da globalização. O confinamento interrompeu as cadeias de abastecimento que eram o centro nevrálgico do comércio mundial e pôs fim às viagens internacionais. A escassez de produtos que da noite para o dia se tornaram de primeira necessidade, como as máscaras, levou muitos países a promover sua produção nacional para não depender tanto da China. A rápida disseminação do vírus pelo planeta facilitou a designação de um culpado: a globalização. A realidade é mais complicada.

O risco são as tensões geopolíticas, protecionistas. Foi o que aconteceu em 1929
ISABELLE MÉJEAN, ECONOMISTA

“A ideia de uma desglobalização provocada pelo coronavírus... Posso estar enganado, mas não tenho a impressão de que seja isso o que está acontecendo”, explica a economista Isabelle Méjean, professora da Escola Politécnica da Universidade Paris-Saclay. E lembra que, embora o transporte de pessoas tenha parado, o comércio internacional de mercadorias continuou funcionando. “O risco”, prossegue Méjean, “são as tensões geopolíticas, protecionistas. Foi o que aconteceu em 1929. Quando há crises econômicas, surge um reflexo soberanista, de recuo, que pode dar lugar a tensões protecionistas que seriam bastante onerosas do ponto de vista do crescimento”.

A referência de 1929 —e o que veio depois pelos erros do poder político e monetário— está na boca de muitos políticos e especialistas.

“A política do Banco Central Europeu e as decisões da Europa em julho são antídotos e, de certa forma, a melhor resposta que podíamos dar”, disse Macron em um encontro com jornalistas no final de agosto. Fazia alusão ao plano de recuperação de 750 bilhões de euros (cerca de 4,85 trilhões de reais) em subsídios e empréstimos, e à maciça intervenção do BCE com 1,35 trilhão de euros do programa de compra de ativos. “Nos anos trinta, depois da crise de 29, a Europa fez exatamente o contrário. Tivemos políticas monetárias duras e políticas orçamentárias restritivas durante um tempo. Levam ao caos social e político”.

Nove meses e um milhão de mortos depois, nem o caos social nem o político chegaram. As eleições de 3 de novembro nos EUA serão o grande exame nas urnas da gestão em uma crise que busca culpados: aqueles que nada anteciparam, aqueles que desprezaram os sinais, aqueles que entraram em lutas partidárias e não organizaram um sistema de testes e de rastreamento, os cidadãos que baixaram a guarda, os conspiracionistas. Ao mesmo tempo, algo insólito acontece com esta pandemia: a humanidade decidiu parar bruscamente durante os confinamentos de março e abril para salvar as vidas de seus idosos; sem essas medidas, é provável que muito mais de um milhão de pessoas teriam morrido.

Hoje, a angústia com a crise econômica —nunca tantos países estiveram em recessão ao mesmo tempo desde 1870, de acordo com o relatório mais recente da Fundação Gates; 37 milhões de pessoas caíram na pobreza extrema— ocupa mais espaço na mente dos cidadãos e dos políticos. E a crise sanitária ainda está longe de ser resolvida. “Se uma segunda onda vier durante nossa temporada de frio [no hemisfério norte], entre o outono e a próxima primavera, esta parecerá muito longa para nós, mas no final talvez esteja o fim do túnel”, diz o professor Flahault. “Talvez tenhamos alcançado a imunidade em vários segmentos da população que nos protegerá de outra nova onda. E podemos esperar que até lá tenhamos uma vacina que protegerá os idosos, os profissionais de saúde e as crianças que ainda não tiverem sido afetados”. O inverno será longo.

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