Belarus

Svetlana Tikhanovskaya, líder opositora: “Fraudaram as eleições. Sou a presidenta eleita de Belarus”

Concorrente de Lukashenko no pleito enfatiza em uma entrevista do exílio que mandatário tem que sair e que o país precisa um novo processo de votação

Svetlana Tsikhanouskaya no sábado em Vilnius (Lituânia).
Svetlana Tsikhanouskaya no sábado em Vilnius (Lituânia).PETRAS MALUKAS / AFP

Para Aleksandr Lukashenko, Svetlana Tikhanovskaya é uma “coitadinha”, uma “marionete manipulada pelo Ocidente”. Mas a ex-professora de inglês de 37 anos, que parou de trabalhar para cuidar dos dois filhos, se tornou o rosto da oposição bielorrussa na pessoa que desafiou o líder autoritário, que pensa que uma mulher não pode ser presidenta. É a voz que alimentou um movimento de cidadãos que exige democracia em Belarus. “Votaram em mim para salvar o país, eles me veem como o símbolo das mudanças”, diz Tsikhanouskaya muito séria em uma entrevista por Skype da Lituânia. A líder opositora cumpriu uma das tradições mais tristes em Belarus e, como a maioria dos críticos, foi para o exílio ao sentir a família ameaçada. “Estou segura aqui”, insiste. Acrescenta que voltará para Belarus assim que sentir que nem ela nem os filhos correm perigo. Hoje, o país do Leste Europeu vive as maiores mobilizações de sua história. E esta ex-professora de inglês foi a chave de passagem.

Reconhece que continua tendo medo. “Todo o povo de Belarus sente medo, é uma realidade, também temo por ele e o meu coração está lá”, diz com voz suave a opositora, vestida com uma camisa azul. “O povo bielorrusso nunca mais será o mesmo. A chama não se apagará, as pessoas despertaram e não se poderá mais viver com um Governo que não aceita, os crimes que cometeu não podem ser perdoados”, lamenta. Nos primeiros quatro dias de protestos por fraude eleitoral nas eleições presidenciais de 9 de agosto houve cerca de 7.000 presos, centenas ficaram feridos e houve quatro mortos.

Tikhanovskaya nunca quis se dedicar à política. Desses assuntos sequer se falava em casa, apesar de seu marido, o blogueiro Sergei Tikhanovsky, ter se tornado um dos adversários mais conhecidos. Em maio ele foi preso e não pôde se candidatar às eleições presidenciais. Ainda está preso, conta a líder opositora, como muitos outros “presos políticos, reféns” do regime de Lukashenko. Foi então que, “por amor”, decidiu apoiá-lo e candidatar-se, sem imaginar o enorme movimento que iria acompanhá-la no caminho.

Ela se tornou a única dos opositores de destaque que pôde concorrer, o que levou outros dois candidatos com chances —o banqueiro Viktor Babariko, também preso, e o diplomata Valery Tsepkalo, que deixou o país— a apoiá-la. Em seguida juntaram-se as chefas de campanha dos outros dois principais opositores e assim se formou o trio de mulheres que abalou os alicerces do regime bielorrusso e pôs nas cordas o líder autoritário, conhecido pelos seus comentários machistas.

“Tornei-me muito mais forte, mas não estava preparada para o que ia acontecer; no entanto, sinto que tenho esta responsabilidade”, reconhece encolhendo os ombros. Ela se sente como a “presidenta nacional eleita”. “Sabemos que fraudaram os resultados das eleições. As pessoas não acreditam nos resultados. Sabem que me elegeram presidenta. Sou a líder nacional de Belarus”, insiste Tikhanovskaya. Evita o termo oposição: “Somos a voz da maioria”.

O caminho desejado para o país, esclarece, porém, não é que outros países a reconheçam como presidenta, um modelo semelhante ao da Venezuela, onde um bom número de países reconhece Juan Guaidó como presidente interino, em vez de Nicolás Maduro. “Não há necessidade. Isso não resolveria nada. Eles também não reconhecem Lukashenko. Precisamos de eleições e, para isso, primeiro Lukashenko tem que sair”, enfatiza.

Nascida em Mikasevichy, não muito longe da fronteira com a Ucrânia, Tikhanovskaya estudou pedagogia na cidade de Brest. Nesse ínterim, foi uma das meninas que passava os verões da infância fora de Belarus, apoiada pelos programas de ajuda para crianças afetadas pelo desastre da usina nuclear ucraniana de Chernobyl, em 1986.

A líder opositora foi para a Irlanda, para Roscrea. E se apaixonou pelo país. Lá aprendeu e aperfeiçoou seu inglês, ganhou um pequeno salário trabalhando em uma fábrica de carne na juventude e acabou se tornando professora dessa língua em uma escola bielorrussa. Deu aulas até que a família se mudou para uma cidade perto de Minsk para que seu filho com deficiência auditiva fosse submetido a uma operação de implante coclear e a um tratamento. Ela e o marido decidiram então que Tikhanovskaya deveria ficar em casa para se ocupar dos cuidados da criança. E assim ela se apresentou à sociedade bielorrussa, com a modéstia de quem não quer permanecer no poder, mas desalojar Lukashenko, que governa o país com mão de ferro há 26 anos, e promover a transformação de Belarus.

“Não sou política. Não preciso do poder. Gosto de meus filhos, do meu marido e quero voltar a fritar costeletas”, disse em um de seus eventos de campanha, que mobilizaram verdadeiras marés humanas em um país onde qualquer sinal de atividade contra o regime é reprimido. “Sveta! Sveta!”, apoiavam dezenas de milhares de pessoas que, mesmo com a opositora fora do país, continuam gritando seu apelido em muitas mobilizações. Em seu programa eleitoral havia apenas algumas linhas mestras e estas eram basicamente novas eleições em seis meses e a libertação dos presos políticos.

“O povo quer poder escolher um líder por si próprio. Agora sente que é uma nação unida e não pessoas separadas. Estou orgulhosa de que, apesar de tudo o que aconteceu, as pessoas em Belarus e na diáspora estão mostrando ao mundo um grande respeito e apoio”, diz a opositora.

Tikhanovskaya assumiu muitos riscos. Não quer comentar o que a levou a sair de Belarus. Falará sobre isso quando for o momento. “Cada vez mais gente tem a sensação de que podemos mudar tudo. Cada um de nós, o povo, é fonte de poder se nos unirmos”, afirma. Espera que esta situação seja resolvida “em breve”.

Desde a sua partida para a Lituânia, para onde antes das eleições já tinha enviado os filhos e a mãe para evitar possíveis represálias, a líder da oposição se reuniu com destacados membros dos Governos da União Europeia, que rejeita as eleições e apoiou um novo pacote de sanções contra funcionários do Governo. Também pôde conversar em Vilnius com o subsecretário de Estado dos Estados Unidos, que ressaltou ter ficado “impressionado” com seu carisma. “Em todo o mundo estão atentos ao povo bielorrusso, estão impressionados com a forma como está lutando por seus direitos, mas também impactados negativamente pelo outro lado, pela forma como as pessoas pacíficas foram tratadas”, aponta.

Ninguém da Rússia, à qual Lukashenko pediu ajuda, ligou, explica. Do exílio, apelou ao Ocidente que apoie o povo bielorrusso, que encoraje um diálogo com Lukashenko para alcançar seu objetivo principal: realizar novas eleições e que estas sejam, finalmente, limpas. Também promoveu um comitê de coordenação com perfis de todos os tipos para organizar as conversações de transição.

“As pessoas saem às ruas e continuam a fazê-lo porque não estão dispostas a aceitar este presidente e muito menos depois da violência com que reprimiu os manifestantes que só pediam democracia”, diz Tsikhanouskaya, que comenta que está “chocada” pelos testemunhos de brutalidade policial.

Seus objetivos para o futuro podem parecer muito simples, comenta, mas para Belarus são o passo que pode mudar tudo. “Quero que meus filhos cresçam em um país livre e democrático, onde os direitos humanos sejam respeitados, onde possam sair à rua sem medo e não temam acabar na prisão se disserem algo contra as autoridades; estamos lutando pelo futuro dos nossos filhos”, diz a ex-professora de inglês, que enfatiza que o povo bielorrusso está “mais do que preparado para mudar o regime autoritário”.

Svetlana Tikhanovskaya conta que nunca falou com Alexandr Lukashenko. O que diria a ele caso se encontrem? “Como simples cidadã de Belarus, diria que estamos fartos dele, que é hora de ir embora.”

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