JOSEP BORRELL | ALTO REPRESENTANTE DA UE PARA ASSUNTOS EXTERIORES

Chanceler da UE: “Lukashenko é como Maduro. Não o reconhecemos, mas é preciso lidar com ele”

Alto representante europeu para Relações Exteriores, Josep Borrell afirma que União Europeia não quer que Belarus seja outra Ucrânia e fala com a Rússia para levar país à democratização

Josep Borrell, Alto representante da União para Relações Exteriores e Política de Seguridade, em Santander, esta semana.
Josep Borrell, Alto representante da União para Relações Exteriores e Política de Seguridade, em Santander, esta semana.PABLO LASAOSA

“Yes, mister Lavrov? This is mister Borrell”. A entrevista, realizada na quinta-feira durante um descanso do curso Quo Vadis Europa que dirige há 20 anos na Universidade Internacional Menéndez Pelayo, no tranquilo paraíso do palácio de Magdalena em Santander, acaba como estava previsto quando o ministro das Relações Exteriores russo liga para ele para falar de Belarus. Josep Borrell (La Pobla de Segur, 73 anos), alto representante europeu para Relações Exteriores, curtido em mil batalhas, conversará com ele em um corredor do palácio tentando convencer-lhe de que dessa vez não é como o fiasco da Ucrânia: agora a UE não quer brigar pelo controle geoestratégico com a Rússia, somente promover a democracia e ajudar os bielorrussos que pedem liberdade. O superministro das Relações Exteriores da UE passou todo o verão apagando incêndios. E ainda restam muitos.

Pergunta. Até onde a UE irá para fazer com que Alexandr Lukashenko deixe o poder de maneira pacífica?

Resposta. O caso de Belarus não é comparável ao da Ucrânia. Lá ocorreu uma tensão entre a vocação europeia e a de se associar à Rússia, os manifestantes levavam bandeiras europeias. Teve uma dimensão geopolítica. Os bielorrussos não estão discutindo agora se um ou outro. Simplesmente pedem um regime de liberdades e direitos civis. Não há bandeiras europeias nas manifestações. E a UE também não tem a intenção de transformar Belarus em uma segunda Ucrânia. Precisamos impulsionar uma reforma política, mas evitando aparecer como um fator de distorção que é como o lado russo poderia nos ver. Essa tensão entre a Europa e a Rússia foi paga a tiros, com violência e com uma desagregação do território ucraniano que ainda permanece. O problema de hoje dos bielorrussos não é escolher entre a Rússia e a Europa, é conseguir liberdade e democracia, que são valores básicos da União Europeia e que, portanto, apoiaremos.

P. Não interessa à UE que Belarus não caia nas mãos de Vladimir Putin?

R. Temos interesse principalmente que os bielorrussos possam viver em um regime de liberdades políticas, e ter boas relações com toda nossa vizinhança. Uma vizinhança muito complicada, como se demonstrou nesse verão. Do Sahel ao Oriente Médio, passando pela Líbia, Turquia, Irã e agora Belarus, toda nossa vizinhança é conflituosa. E a UE não tem varinhas mágicas. Temos recursos financeiros, mobilizamos 50 milhões de euros (331 milhões de reais) para ajudar a sociedade bielorrussa, temos influência política, mas Belarus não deve ser uma segunda Ucrânia.

P. Não há bandeiras europeias, mas certamente desejo de ocidentalização, de democratização em Belarus. Pode acontecer como na Ucrânia, que esse desejo de abertura acabe ao contrário, em um maior controle de Putin dessa região?

R. É também o que se deve evitar. Por isso estamos em contato com a Rússia. O presidente do Conselho falou com o presidente Putin e eu com o ministro Lavrov para evitar um mal-entendido e que do lado russo sejam tomadas decisões que poderiam desestabilizar a situação. Já em 2010 dissemos que essas eleições eram falsas, e Lukashenko respondeu com a mesma violência aos manifestantes. Em 2006 já estabelecemos sanções contra o próprio Lukashenko e 230 responsáveis. Depois ele fez um tímido movimento de liberalização, soltou alguns presos políticos, acreditamos que era um bom sinal e encerramos todas as sanções. Está claro que agora será preciso retomá-las.

P. Para a UE, Lukashenko precisa cair?

R. Não o reconhecemos como presidente legítimo. Como também não reconhecemos Nicolás Maduro [governante da Venezuela]. Desse ponto de vista Maduro e Lukashenko estão exatamente na mesma situação. Não reconhecemos que tenham sido legitimamente eleitos. Gostando ou não, entretanto, controlam o Governo e precisamos continuar lidando com eles, apesar de não reconhecer sua legitimidade democrática. O objetivo é que os bielorrussos tenham a oportunidade de se expressar livremente. Isso foi o que decidiu o Conselho Europeu.

P. Que relação a Europa deve ter com a Rússia, que quer ocupar cada vez mais espaço?

R. A relação com a Rússia é tão complexa quanto a relação com a China. É um poliedro de muitas caras. Com a Rússia, por um lado a sancionamos, mas por outro temos uma dependência energética que para alguns países é muito forte. A Rússia não é vista da mesma forma se você é lituano ou português. A Rússia é um ator na política internacional, com desejos de voltar a desempenhar um papel de potência, não é a única que sente a velha tentação imperial. Mas, gostando ou não, há muitos problemas dos quais precisamos lidar com a Rússia para tentar resolvê-los, do Ártico à Síria.

P. O possível envenenamento do opositor Alexei Navalny lhe preocupa?

R. Naturalmente que nos preocupa, além disso nos ocupa. Um avião o levou a um hospital alemão. essas coisas nos lembram acontecimentos que já nos preocuparam. Mas tudo ainda precisa ser verificado.

P. Por que é tão difícil consolidar a democracia na Rússia?

R. Não somente na Rússia. A democracia está muito pouco consolidada em muitos países do mundo. E em outras há uma preocupante fadiga democrática. Os europeus são conscientes da enorme sorte que têm de viver na melhor combinação de liberdade política, prosperidade econômica e solidariedade social que há no mundo.

P. Putin respeita a UE?

R. A pergunta é sobre Putin ou Trump? Quando Putin age como age, primeiro na Síria e depois na Líbia, e antes na Ucrânia, o faz utilizando seu potencial militar e sua vontade de agir como uma potência hegemônica regional. Para ele seria mais fácil que não existisse a União Europeia. Então só precisaria lidar com os países um por um, e alguns poucos teriam o que dizer. Justamente para enfrentar os riscos e as ameaças em nossas fronteiras, a União Europeia tem cada vez mais razão de ser.

P. A França quer se aproximar da Rússia.

R. A França tem uma posição de maior abertura com a Rússia, é verdade. Mas a Alemanha também, é perfeitamente consciente de que a Rússia é um mercado e um fornecedor energético. A situação da Polônia e dos países fronteiriços antes dominados pela União Soviética, particularmente os bálticos, é diferente. O problema que temos na Europa na hora de fazer uma política externa comum é não compartilhamos a mesma visão de quais são nossas ameaças. Porque não temos a mesma história. E por isso nossa visão de mundo é diferente. Dou um exemplo: os poloneses acham que devem sua liberdade aos Estados Unidos e ao Papa. E têm razão. Mas eu como espanhol penso que sofri a ditadura franquista em boa medida pelo apoio dos Estados Unidos e do Vaticano. A política externa é a projeção do resto do mundo de sua identidade histórica.

P. O fundo de recuperação salva a UE?

R. O vírus teve um grande efeito de catalizador da integração europeia. Sem ele continuaríamos dizendo que não se pode auxiliar conjuntamente os mercados financeiros, não podem ocorrer transferências financiadas com dívida. Mais uma vez se comprova que a UE se constrói nas crises. Ou, como diz o ditado, a la fuerza ahorcan (fazer algo que não gostaríamos de fazer).

P. A pandemia pode ter salvado a UE?

R. Deu à UE uma nova imagem. No começo da pandemia, a Europa teve uma imagem muito negativa. Vimos italianos queimando as bandeiras europeias. E um salve-se quem puder, com os alemães que não queriam vender seus estoques de material de saúde à Itália e aviões russos e chineses aterrissando em Milão com as bandeiras desfraldadas dizendo aqui estamos nós, somos os mocinhos. No começo a imagem não foi brilhante. Mas depois existiu uma resposta conjunta, difícil de gestar, que rompeu moldes. Ficamos satisfeitos. Agora os europeus veem que a Europa se mobiliza organizando a solidariedade de uma maneira mais profunda.

P. A Espanha está preparada para gastar bem esse dinheiro?

R. Não será fácil executar esses bilhões. Porque as transferências não ocorrem sem condições. Mas não existirão homens de negro (referência aos responsáveis por velar pelos princípios de estabilidade fiscal que regem as regras da moeda única), porque não ocorrerão ajustes macroeconômicos, mas haverá condicionalidade lógica para que esses recursos sejam utilizados para as finalidades as quais são destinados, desenvolvendo a resposta climática, a transição ecológica, a digitalização da economia. Sem homens de negro e cheques em branco. É lógico que exista preocupação pela execução desse ambicioso plano.

P. Há preocupação com a situação política da Espanha, particularmente com uma coalizão inédita na Europa?

R. Não particularmente. Veja, fui ministro de Obras Públicas, coube a mim administrar boa parte dos fundos estruturais. Aquilo foi mais fácil porque os fundos estruturais eram basicamente infraestrutura de obras públicas que sabíamos construir. Mas fomos os que melhor geriram os fundos estruturais, e olhe que foi uma enxurrada de dinheiro. Agora é mais difícil, porque não vamos dizer a um garçom que ficou sem trabalho na Costa do Sol que seu futuro será verde e digital. Ele te dirá “certo, mas e o meu presente?”. A curto prazo há um problema de manutenção de rendas e capitalização de empresas, que é um trabalho mais micro. Isso exigirá uma grande eficácia administrativa a todos os países.

P. Se Donald Trump vencer as eleições, nos encaminhamos a um mundo de guerra comercial entre duas grandes superpotências, com a China. Como a UE se coloca nisso?

R. A UE precisa definir sua própria política internacional e não ficar pressionada dentro desse confronto sino-americano que irá marcar esse século. Nesse momento, os EUA perderam uma votação no Conselho de Segurança porque não votaram suas propostas sobre o embargo de armas ao Irã países como a França, Alemanha e o Reino Unido. Mas não é só Trump, há uma corrente de fundo também na sociedade americana que é a relação com a China. Seguramente tanto os americanos como nós pecamos por uma certa ingenuidade e a agora queremos nivelar o terreno de jogo. O que acontece é que nós fazemos de uma maneira mais, digamos, negociada.

A UE precisa definir sua própria política internacional e não ficar pressionada dentro desse confronto sino-americano que irá marcar esse século

P. A Europa deve se ocupar mais de sua própria defesa sem depender sempre dos EUA?

R. É o que se chama a autonomia estratégica europeia, o que não quer dizer que sairemos da OTAN. O euro nos dá uma certa autonomia estratégia europeia, sem o euro a Espanha não teria conseguido sair do Iraque, pobre peseta se ainda a tivéssemos. Mas ainda não a temos em matéria de defesa, como se demonstrou na Líbia. Precisamos construir de forma complementar a que nos dá pertencimento à OTAN. Desenvolver uma política de segurança e defesa europeia é uma das tarefas que devemos fazer, sabendo que nem todos os países europeus a veem da mesma maneira e nem todos têm o mesmo interesse nela.

P. A situação na Líbia pode provocar uma crise migratória como a da Síria?

R. Não é a Líbia, é a pressão migratória que vem do Sahel. Sobre a Síria temos acordos com a Turquia discutidos e discutíveis, mas não estamos dando dinheiro ao Governo turco, estamos dando dinheiro aos refugiados na Turquia, que são 3,7 milhões de pessoas, a maior massa de refugiados que não são abrigados por nenhum país.

P. Não é uma terceirização de um problema?

R. A alternativa é que as sociedades europeias decidam aceitar que esses 3,7 milhões de exilados venham e se instalem na Europa. Querem? Se não quiserem é preciso procurar uma solução alternativa. Fazer política exige definir objetivos de acordo com suas capacidades. Colocar a cabeça nas nuvens deixando de ter os pés no chão não adianta muito.

P. Não há maneira de evitar que as pessoas continuem morrendo no mar em frente à Europa?

R. Sim, mas para isso é preciso regulamentar a imigração e o asilo em escala europeia e há muito tempo a UE tem sido incapaz de fazê-lo. A imigração não pode ser um fenômeno desregulado, que infunda temor nas sociedades, porque é facilmente manipulável. Mas a Europa precisa da imigração. Alguns países europeus não querem reconhecer, preferem envelhecer a se misturar, como os japoneses, de fato. Outros estão mais abertos. Mas todos precisamos compensar nossa queda demográfica com imigração. Ah, e vamos chamar as coisas pelo seu nome: a guerra da Síria não mandou imigrantes, mandou exilados, como a Guerra Civil espanhola mandou exilados às praias francesas, exatamente igual.

P. Há risco de confronto armado entre a Turquia e a Grécia?

R. É uma situação muito tensa. No Conselho de ministros das Relações Exteriores que tivemos nesse verão, que passei com um telefone em cada orelha, as três palavras mais usadas foram solidariedade com a Grécia e Chipre; desescalada, porque há muitos barcos de guerra manobrando na mesma área e outro dia ocorreu um choque acidental entre um barco grego e outro turco que amanhã pode ser outra coisa; e negociação. Com a Turquia as coisas foram de mal a pior, precisamos recompor a relação e isso só se faz negociando.

P. A Turquia sofrerá sanções?

R. O Conselho me pediu que apresentasse um conjunto de possíveis sanções. Já ocorreram contra alguns diretores de empresas que fazem perfurações. Se as coisas não melhorarem será preciso agir, mas estamos tentando evitar. Minha função não é jogar gasolina no fogo e sim evitar o aumento das tensões.

P. O senhor deu boas-vindas ao acordo Israel-Emirados Árabes, mas alguns membros da UE acham que pode ser uma facada na causa palestina.

R. Depende. Temos boa relação com Israel, com os Emirados, com os palestinos. Tudo tem vantagens e inconvenientes. Esse acordo serviu pelo menos para evitar que durante o verão ocorra a anunciada anexação do Vale do Jordão que teria sido um ponto de grave desencontro com Israel. O que nós da UE dissemos claramente é que o plano de paz apresentado por Jared Kushner não é uma boa base à negociação.

P. O senhor está há nove meses no cargo. É frustrante precisar pactuar tudo por unanimidade?

R. Cheguei ao cargo convencido de que seria preciso abandonar a regra da unanimidade e agora estou mais do que nunca. Mas sou consciente de que para mudar a unanimidade... é preciso unanimidade, e tal coisa não existe, todo mundo quer ter o direito ao veto. É um cargo apaixonante em que é preciso ter muita paciência, saber que é uma maratona. Agradeço à vida por ter a oportunidade de acabar minha carreira política em um posto tão exigente.

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