PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

Caixões de papelão contra a falta de recursos na América Latina

São baratos e ecológicos, mas os fabricantes entram em choque com os preconceitos culturais

Trabalhadores do cemitério Parques da Paz colocam em uma cova uma caixa de papelão com uma pessoa que morreu supostamente de covid-19, em 20 de abril, em Daule, província de Guayas (Equador).
Trabalhadores do cemitério Parques da Paz colocam em uma cova uma caixa de papelão com uma pessoa que morreu supostamente de covid-19, em 20 de abril, em Daule, província de Guayas (Equador).Mauricio Torres / EFE
Guayaquil / Santiago do Chile / Lima / Buenos Aires - 01 Jul 2020 - 09:25 -03

Quando o coronavírus se disseminou por Guayaquil e os mortos jaziam nas ruas, os caixões de madeira foram substituídos pelos de papelão. No Peru, uma fábrica de papelão corrugado vendeu um milhar a dois cemitérios particulares, embora nesse país prefiram os de melamina. No Chile, as autoridades os proibiram porque violam as normas locais. Um fabricante argentino se queixa de que os Governos temem “o que vão dizer” e relutam em resolver o problema dos enterros de maneira “econômica e sustentável”. Os caixões de papelão são até três vezes mais baratos do que os de madeira, são produzidos em série e não poluem, mas colidem com as imposições do ritual da morte. As barreiras pouco mudaram nos países mais afetados pela covid-19.

O Equador registrou mais de 4.500 vítimas desde o início da pandemia em todo o país. Mas, entre março e abril, Guayas, a província que tem Guayaquil como capital, produziu 17.000 atestados de óbito contra 2.000 mensais em um período normal. Guayaquil não conseguiu lidar com seus mortos, e os fabricantes de caixões não davam conta. Os cadáveres se amontoaram nas casas e nas portas das casas, à espera de que os serviços funerários fossem recolhê-los. A pandemia sobrepujou todos, exceto os fabricantes de caixas de papelão, que reagiram.

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“Ouvimos as notícias de que havia pessoas que não tinham como enterrar seus familiares. Decidimos, como empresa, exatamente como aconteceu no terremoto de 2016, fabricar caixões de papelão”, diz Gonzalo Velázquez, gerente da Papelera Nacional. Sete das maiores empresas do setor doaram 5.000 caixões de papelão para as vítimas do coronavírus em cerca de vinte cidades. As empresas de papelão contrataram mais funcionários e, por três semanas, dedicaram uma linha de produção aos caixões de papelão. Quando a pandemia passar, no entanto, eles vão parar as máquinas. “Ninguém quer enterrar um parente em uma caixa de papelão, essa foi uma maneira de ajudar em uma situação catastrófica, como no terremoto”, reconhece.

O município de Guayaquil, de fato, recebeu críticas quando anunciou a doação de caixões de papelão para as famílias das vítimas. Não era digno, protestavam as pessoas. O argentino Alejandro Faks está há dez anos lutando contra o medo que as autoridades têm do “o que vão dizer”. “Tenho consultas do Governo da cidade de Buenos Aires e Tucumán (norte). Me perguntaram se ainda estou em pé, queriam saber se estou disponível e continuo vendendo. Mas eles estão esperando a hecatombe para comprar no dia seguinte. Têm medo do que as pessoas possam dizer”, diz Faks.

O empresário é dono da Restbox, a única empresa da América Latina dedicada exclusivamente ao projeto e fabricação de caixões de papelão. Desde o início da pandemia, dobrou suas vendas para as funerárias às quais fornece habitualmente na Argentina. Também recebeu dezenas de ligações do exterior, mas nenhum pedido concreto. Faks diz que seus caixões custam apenas 40 dólares (216 reais), mas dobram de valor quando se soma o custo de exportação. Os caixões de papelão não poluem porque não contêm esmaltes nem vernizes, e a capacidade de fabricação é quase ilimitada. A questão a ser resolvida é o “choque cultural”, diz Fask, que propõe como alternativa colocar o caixão de papelão dentro de um de madeira alugado ou cobri-lo com um manto papal.

“Grande parte das pessoas não gosta do aspecto do papelão porque lhes parece que se transporta mercadoria, como alimentos. Para não causar impacto visual, pensamos em imprimir-lhe texturas de madeira ou flor”, diz Cristian Cáceres, gerente de projeto da fábrica de papelão chilena Paper Project. A empresa tentou vender caixões de papelão, mas se confrontou com os padrões locais de impermeabilização e vedação hermética. “A madeira por si só também não é impermeável. O que é à prova d'água é a caixa metálica que fica dentro do caixão ― feita de latão, selado e soldado ―, que é fácil de fazer e processar. O custo e a demora estão no caixão de madeira, que no Chile é fabricado praticamente de modo artesanal por mestres carpinteiros”, explica Cáceres. Um caixão de papelão no Chile custa cerca de 123 dólares (665 reais) enquanto o de madeira sai por 370 (cerca de 2.000 reais). A Paper Project luta há anos para entrar no negócio funerário. Somente depois da explosão da covid-19 na China a empresa acelerou o projeto. Agora, depende da autorização oficial.

Com mais de 285.000 casos positivos, o Peru é o segundo país da América Latina com mais pessoas com coronavírus, atrás do Brasil. Das 9.600 mortes registradas, pelo menos 3.900 ocorreram em Lima, onde o número pode ser o triplo se, como no Equador, for considerada a cifra ascendente dos atestados de óbito. Uma representante da empresa de papelão corrugado Carvimsa, em Lima, indica que desde o início de abril entregaram mil caixões de papelão à Mapfre e Campofe, que administram cemitérios particulares, ao custo de 100 dólares cada. “Também estamos procurando uma instituição que realmente esteja necessitada, para fazer uma doação desses caixões”, diz a executivo. Os modelos da Carvimsa podem suportar até 100 kg, têm 1,90 centímetros de comprimento e pesam 13 quilos.

No dia 23, o principal crematório de Lima havia cremado mais de 5.000 corpos, a maioria em caixões de laminado melamínico (MDF). “Usamos relativamente poucos caixões de papelão por uma razão muito simples: custo. Tenho um irmão que os fabrica em MDF e os vende para mim mais barato que os de papelão”, diz Henry Gonzales, gerente geral da Piedrangel, a agência funerária que registrou o maior número de mortes por covid-19 na capital peruana.

Gonzales comprou os caixões de papelão de pessoas que importaram o produto e de um fabricante peruano de papelão corrugado. “Pensei em importá-los, mas está demorando muito. Meu irmão não estava envolvido nisso, fabricava móveis, mas no início da pandemia não tínhamos caixões suficientes para tanta demanda, então, ele se adaptou ao material”, explica. Desde o início da pandemia, os sete fornos que Gonzales administra em Lima trabalham 24 horas por dia para cremar sessenta corpos por dia.

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