Coronavírus

Premiê italiano: “Teria sido criminoso ocultar dados do coronavírus ou minimizá-lo”

Giuseppe Conte se mostra disposto a utilizar qualquer meio para proteger os cidadãos da epidemia

STEFANO CAPPELLINI (LA REPUBBLICA)
O premiê italiano Giuseppe Conte.
O premiê italiano Giuseppe Conte.Antonello Nusca

Giuseppe Conte (Volturara Appula, 55 anos) tem uma imagem de John Fitzgerald Kennedy como sua foto de perfil no WhastApp, junto com uma citação: “Qualquer resultado começa pela decisão de tentar”. Mas no momento em que a Itália enfrenta a epidemia de coronavírus com quase 6.000 contagiados e mais de 230 mortos, e horas depois de aprovar as medidas mais drásticas já adotadas contra a doença na Europa, com a decisão de forçar a quarentena de mais de 16 milhões de pessoas no norte do país, o primeiro-ministro italiano cita outro estadista anglo-saxão: “Nos últimos dias tornei a pensar em antigas leituras de Churchill. É nossa hora mais escura, mas sairemos adiante”. Horas depois da entrevista, o Governo italiano ampliaria o isolamento para todo o país.

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Pergunta. Os italianos se perguntam quando sairemos do túnel.

Resposta. Quero ser honesto e claro, como sempre: neste momento é muito difícil fazer prognósticos, porque estamos diante de um vírus novo e com um índice de virulência que ainda estamos experimentando. O Governo coordena com a máxima intensidade e concentração a estrutura organizativa. Devemos alcançar dois objetivos: conter a difusão do vírus e potencializar as estruturas sanitárias para que possam fazer frente a este desafio. Somos um país forte.

P. Mas a aprovação no meio da noite do último decreto antivírus foi muito problemática, confusa e discutida pelas regiões da zona vermelha [a de maior incidência do vírus]. Como é possível que começasse a circular já pela tarde [de sábado] um rascunho sobre as novas restrições?

R. Quem vazou para o exterior o rascunho do decreto cometeu um ato irresponsável, porque a divulgação indevida do texto ainda não definitivo provocou confusão e incerteza nos cidadãos.

P. Então não foi o Executivo que divulgou o rascunho do decreto?

R. Rotundamente não. No final da tarde, quando o rascunho foi enviado aos ministros e presidentes das regiões, como está previsto em lei, nos encontramos com um país que falava de medidas provisórias sobre as quais eu mesmo tinha evitado fazer avaliações definitivas. De agora em diante, adotaremos medidas mais rigorosas para que não se repitam situações semelhantes. O segredo sobre os atos legislativos ainda não definitivos deve ser protegido ao máximo.

P. Também sobre o fechamento das escolas houve um baile de antecipações, desmentidos e depois confirmações.

R. Essa antecipação à imprensa foi imprevista, eu disse claramente. Nesta fase tão complicada é fundamental falar a uma só voz.

P. Entretanto, muitos se perguntam quem manda em momentos como estes: o Governo ou as regiões.

R. A proteção da saúde está transferida em grande medida às regiões. O Governo é o principal responsável quando se trata dos princípios fundamentais e dos níveis essenciais de atendimento. O Governo, também através da Defesa Civil, realiza um trabalho de apoio fundamental, mas as regiões devem continuar colaborando, como já fazem, para seguir uma linha de ação única, compartilhada e efetiva. Qualquer iniciativa autônoma e fragmentada tornaria inúteis todos os esforços que estamos fazendo.

P. Voltaria a conceder uma entrevista coletiva às duas da manhã? Não seria melhor, especialmente em situações tão delicadas, suprimir essas entrevistas noturnas surrealistas que se tornaram algo habitual?

R. Trabalho até tarde, mas não gosto das coletivas noturnas. Aquela noite foi um caso especial. Depois da confusão gerada pela antecipação indevida, considerei necessário que, ao despertar, o país pudesse escutar uma voz clara e sincera, que explicasse o ocorrido e antecipasse o autêntico conteúdo do decreto.

P. Agora uma boa parte do norte da Itália é zona vermelha. Mas continua havendo uma grande confusão sobre as restrições, revogações e sanções. Uma nota explicativa da Farnesina [sede do Ministério de Relações Exteriores] diz que bastará que os cidadãos aleguem razões comerciais para obter um salvo-conduto para viajar.

R. O norte não é exatamente uma zona vermelha, porque não impusemos uma proibição absoluta de entrada e saída entre as duas grandes zonas do país. Entretanto, introduzimos restrições no movimento de pessoas, que também se aplicam dentro da zona setentrional. Pedimos a todos que reduzam os deslocamentos, limitando-as às exigências profissionais, casos de necessidade e razões de saúde.

P. Sentido cívico à parte, como pensa fazer que as proibições sejam respeitadas?

R. Quem não respeitar esta disposição viola o artigo 650 do Código Penal. E quem atestar falsamente que se dá uma das três justificativas para os movimentos ficará exposto a uma nova sanção penal.

P. Nos últimos dias, incluído anteontem, o dia dos mil novos contágios, observamos multidões que abarrotavam os centros turísticos, casas noturnas e reuniões nas ruas. O que é isso? Subestimar o perigo? Alergia italiana às regras?

R. Não é fácil mudar os hábitos de vida da noite para o dia e aceitar sacrifícios pessoais por um bem coletivo. Não quero fazer julgamentos negativos. Esta dificuldade de adaptação afeta a todos, incluídos você e eu. [O escritor] Ennio Flaiano disse que os nomes coletivos só servem para criar confusão, e que um belo dia você percebe que “o povo”, “a população”, somos nós, e não outros, como acreditávamos. A renúncia que cada um de nós está chamado a fazer é crucial para o bem-estar de todos. Se todos respeitarmos as regras indicadas, o país logo poderá levantar cabeça.

P. Zingaretti [governador da região do Lácio] e Cirio [governador de Piemonte], homens das instituições, foram contagiados. O senhor já fez exame? Pensa em fazer?

R. Meus médicos são competentes. Seguem-me cuidadosamente e tenho plena confiança neles.

P. Então fez?

R. Sim, deu negativo.

P. Se os números demonstrassem em alguns dias que não foi possível conter a epidemia, seria possível aplicar novas restrições?

R. Continuamos na linha de aplicar com a máxima precaução e proporcionalidade as medidas adotadas segundo a evolução da situação. Mas a verdadeira diferença deve ser estabelecida agora por todos os cidadãos. Faço um apelo a todos os italianos: confiemos nos cientistas, mantenhamos uma distância de um metro, evitemos beijos, abraços, apertos de mãos, respeitemos as demais regras. Da nossa parte, com o decreto-lei aprovada na sexta-feira à noite, preparamos um plano extraordinário para reforçar o pessoal médico e de enfermaria, enquanto que com outras iniciativas garantimos algumas linhas de produção, aqui na Itália, para dispor de equipes especializadas para cuidados intensivos e semi-intensivos.

P. A decisão de fechar os colégios durante 10 dias esteve no centro da polêmica. Estamos nos encaminhando para uma prorrogação?

R. Não foi uma decisão fácil; sabemos que estamos pedindo às famílias e a muitos pais com filhos um esforço considerável. Solicitamos ao comitê técnico-científico um estudo aprofundado para dispor de toda a informação útil e necessária para assumir a responsabilidade política desta decisão. Nos próximos dias vocês terão uma ideia mais clara dos efeitos das medidas tomadas e decidiremos se prolongaremos esta medida, comunicando com antecedência às famílias.

P. A taxa de mortalidade do coronavírus na Itália é alta. É possível que isso se deva a que uma parte dos contagiados ainda escapa à detecção?

R. Acima de tudo, quero expressar meu apoio às famílias das pessoas mortas, frequentemente maiores de 80 anos. São avós, pais, pessoas que deixam um vazio. A taxa de mortalidade pode depender de muitos fatores, incluindo a diversidade de estilos de vida e o fato de que nossa população é mais idosa que a chinesa. É preciso dizer que, como apontou o Instituto Superior de Saúde (ISS), na grande maioria destes casos se tratava de pessoas com patologias prévias.

P. A quantidade de recursos atribuídos pelo Governo é enorme, mas com toda probabilidade insuficiente para fazer frente aos efeitos econômicos da epidemia. Como conseguiremos superá-la?

R. Liberamos imediatamente 7,5 bilhões de euros (40,6 bilhões de reais) para apoiar as empresas mais diretamente afetadas, mas também as famílias e os trabalhadores, e aplicamos as medidas sociais. Certamente, não vamos parar por aqui. Teremos que recorrer a uma terapia de choque maciça. Para sair desta crise, mobilizaremos todos os nossos recursos humanos e econômicos. Será necessário um plano eficiente de “reconstrução” estendido a todos os campos. Aproveitaremos para desbloquear um sistema que é lento quando se trata de investir. O modelo de Gênova se tornará o modelo da Itália.

P. Não acha que a natureza excepcional da situação pode provocar medidas igualmente excepcionais? Por que não pensar em uma suspensão temporária do pacto fiscal ou das cláusulas de proteção?

R. Agradeci as evidentes demonstrações de colaboração da Comissão Europeia. Entretanto, em casos excepcionais como o que estamos vivendo, está prevista a flexibilidade orçamentária, e a aproveitaremos plenamente. Estamos estudando várias iniciativas, que não quero adiantar aqui. Com toda segurança, a Europa não pretende enfrentar com meios ordinários uma situação que promete ser extraordinária.

P. O senhor incentivou seus ministros a reunirem algumas das ideias sugeridas pela oposição. Mas custa ver uma atmosfera de concórdia nacional. Meloni [Giorgia Meloni, presidenta do partido Irmãos da Itália], embora mais aberta ao diálogo, falou de “gestão criminosa” por parte do Governo.

R. Teria sido criminoso se tivéssemos ocultado os dados do contágio ou minimizado tudo. Hoje mais do que nunca a política deve demonstrar, apesar da diversidade de papéis, que se preocupa com o bem dos italianos e que fala com responsabilidade, mostrando amor pelo país. Entre hoje e amanhã voltarei a me reunir com a oposição para falar de medidas econômicas.

P. Nas últimas horas se fala menos de “governíssimo”. Há ainda quem se esforce em substituir o Governo atual?

R. Francamente, todas minhas energias estão voltadas para as necessidades do país. Não tenho nenhum interesse por outros assuntos.

P. Matteo Renzi sugere que contrate [Guido] Bertolaso [diretor da Defesa Civil durante o terremoto de L’Aquila] . Em geral, é necessário reforçar a equipe?

R. Estamos perante uma crise que a Itália, ao menos em sua história mais recente, nunca enfrentou. Estou decidido a utilizar qualquer meio para proteger os cidadãos e, claro, reforçaremos a equipe.

P. O referendo constitucional sobre a redução do número de parlamentares foi adiado por prazo indeterminado. Existe a possibilidade de adiar também as eleições regionais?

R. Por enquanto não se contempla essa possibilidade.

P. Se pudesse voltar atrás, mudaria alguma das decisões do Governo? Houve algum erro que fez de nós o país europeu mais exposto ao contágio?

R. Estamos perante uma crise histórica, um vírus desconhecido que está se estendendo rapidamente e que já afetou mais de 90 países e territórios de todo o mundo. Inicialmente, eu me perguntei: se ainda fosse um cidadão comum, o que esperaria do primeiro-ministro? A resposta foi a que sempre me dou: transparência, coragem, determinação. Fomos acusados de falar muito, mas também de falar muito pouco. De sermos muito rigorosos, mas também de levarmos pouco a sério. Será assim até o final. Mas nossa linha não muda, e repito isso como um mantra para todos os ministros e para a estrutura organizativa: máxima precaução, adequação e proporcionalidade das medidas.

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