Morre o poeta Ernesto Cardenal, figura-chave da Teologia da Libertação na Nicarágua

Voz moral da Revolução Sandinista e crítico do Governo de Daniel Ortega, sacerdote tinha 95 anos

O poeta Ernesto Cardenal, em 2010.
O poeta Ernesto Cardenal, em 2010.Getty
Carlos Salinas Maldonado
Cidade do México - 02 mar 2020 - 14:26 UTC

O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal morreu neste domingo em Manágua, aos 95 anos, vítima de insuficiência renal e cardíaca, informaram fontes próximas ao literato, um dos principais expoentes da poesia latino-americana. Cardenal foi também um dos mais destacados representantes da chamada Teologia da Libertação. Seu compromisso político o fez apoiar a luta armada contra a ditadura dos Somoza, uma dinastia que governou a Nicarágua por mais de 40 anos, e mais recentemente a enfrentar o Governo do presidente Daniel Ortega, seu ex-aliado, cujos desmandos e arbitrariedades denunciava em todos os lugares aonde viajava para apresentar sua poesia. Seu compromisso com os mais pobres e contra as injustiças o transformaram na voz moral da Revolução Sandinista, um projeto com o qual se comprometeu a fundo e lhe valeu a reprimenda do papa João Paulo II, para quem um sacerdote não podia se envolver com assuntos políticos. “Nicarágua sem Guarda Nacional, vejo o novo dia! Uma terra sem terror. Sem tirania dinástica”, havia escrito em um de seus poemas mais célebres, Canto Nacional.

Nasceu em Granada (Nicarágua), em 20 de janeiro de 1925. Herdeiro de uma sólida tradição poética —seu país foi o berço de poetas proeminentes, como Rubén Darío—, Cardenal estudou Literatura em Manágua e no México e cursou outros estudos nos Estados Unidos e Europa. Em 1965 foi ordenado sacerdote, e mais tarde se estabeleceria no arquipélago de Solentiname, localizado no lago Nicarágua, onde fundou uma comunidade de pescadores e artistas primitivistas que se tornou mundialmente famosa. Foi lá onde escreveu seu célebre O Evangelho de Solentiname. O arquipélago é um local de peregrinação dos fiéis leitores e seguidores do poeta. Cardenal passava suas férias nessas ilhas, onde lia as obras completas de Darío, escrevia e celebrava a missa da Semana Santa na pequena igreja da localidade. Ali será enterrado.

O escritor Sergio Ramírez, ganhador do prêmio Cervantes e amigo próximo do poeta, disse sobre ele que foi um dos grandes inovadores da língua espanhola, ao criar uma nova forma de poesia lírica, a da narração na poesia, que fez de Cardenal um cronista do seu tempo. “Meço Ernesto primeiro por seu dom da inovação. Há ótimos poetas que não conseguem fazer escola, e isso não tira peso da sua voz, mas Cardenal desde o começo fez escola, teve seguidores, abriu um espaço na poesia da língua,” afirmou Ramírez.

O próprio Cardenal se definia como o fundador de um novo estilo, que ele chamou em entrevista ao EL PAÍS de “poesia científica”. “Acredito que sou o único poeta, ou pelo menos o único que eu conheço, que está fazendo poesia sobre a ciência, poesia científica. Para mim é quase como uma oração ler livros científicos. Vejo neles o que alguns disseram ser rastros da criação de Deus”.

A poesia de Cardenal está fortemente ligada à Revolução Sandinista, que em 1979, sob a liderança de Ortega, derrubou a ditadura de Somoza. Em poemas como Hora Zero e Canto Nacional, o poeta destacou as proezas do herói nacional Augusto Sandino e dos guerrilheiros sandinistas. Essa íntima vinculação à política fez que a cúpula da Igreja católica o rejeitasse, a tal ponto que o papa João Paulo II o admoestou publicamente quando visitou a Nicarágua em 1983, em plena era sandinista.

Cardenal, entretanto, mantinha um profundo amor cristão, expresso através de obras como Los Salmos, versos que demonstram seu compromisso com a fé, mas também sua crítica às injustiças, a opressão e o sofrimento dos mais desprotegidos. O poeta era um criador incansável, um homem comprometido politicamente até o final de seus dias, e uma voz profética, combativa e incômoda para o poder.

O poeta viveu seu próprio martírio desde 2007, quando Daniel Ortega retornou ao poder na Nicarágua. Desde então, foi perseguido pela Justiça, controlada pelo líder sandinista. “Eles [Ortega e sua esposa e vice-presidenta, Rosario Murillo] são donos de todos os poderes da Nicarágua. Têm um poder absoluto, infinito, que não tem limites, e esse poder agora está contra mim”, afirmou Cardenal ao EL PAÍS numa entrevista concedida em sua casa de Manágua em 2017. Apesar dessa perseguição, Cardenal manteve uma atividade incansável. Fez recitais na Europa e América Latina, denunciando, além disso, os desmandos de Ortega. Ele, que em seu Cântico Cósmico escreveu que a poesia é “o canto e o encanto por tudo que existe”, continuava trabalhando aos 95 anos. Em 4 de fevereiro, foi internado em um hospital de Manágua devido a uma infecção renal e, embora se pensasse que não resistiria, o poeta se recuperou e semanas mais tarde recebeu o EL PAÍS em sua casa da capital nicaraguense comendo um nacatamal, prato tradicional preparado à base de milho.

Após décadas de expurgo por parte do Vaticano, o poeta foi reabilitado pelo papa Francisco. Jorge Mario Bergoglio lhe informou em fevereiro sobre a revogação da suspensão ad divinis (proibição de administrar os sacramentos) imposta em 1984 por Karol Wojtyla. Em uma entrevista, o mesmo Cardenal tinha reconhecido: “Sinto-me identificado com este novo Papa. É melhor do que poderíamos ter sonhado”.

O Governo de Ortega decretou três dias de luto nacional pela morte de Cardenal, em uma nota com o inconfundível estilo de Murillo, com tons de discurso místico e religioso. No decreto, agradece a Deus pela vida de Cardenal, contra quem ela mantinha um ódio inflamado. Chama-o de “irmão” e de “glória e orgulho”, e afirma “admirá-lo profundamente”. O documento oficial comete um erro ao afirmar que o poeta era ganhador do prêmio Cervantes. Na verdade, Ernesto Cardenal recebeu o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2012.

A Nicarágua perde assim um de seus escritores mais queridos, o homem que conseguiu ser um profeta em sua terra e que deixa uma longa produção literária que, neste país de catástrofes e desmandos de seus políticos, é repetida como prece, como o canto de uma nação acometida por seus próprios erros, mas ansiosa por romper com sua história de opressão.

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