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Ortega, a velha raposa da política, se agarra ao poder na Nicarágua

No exercício de poder de Ortega, pouco resta da revolução que inspirou os movimentos revolucionários de toda a América Latina

Daniel Ortega cumprimenta seus seguidores em um ato público. Ampliar foto
Daniel Ortega cumprimenta seus seguidores em um ato público. Reuters


EL PAÍS e O FARO inauguram uma aliança para ampliar a cobertura e o debate sobre a América Central. A cada 15 dias, no sábado, um jornalista do EL FARO vai registrar seu olhar no EL PAÍS através de uma análise sobre a região, que enfrenta uma de suas etapas mais agitadas.


Dias atrás, alguém publicou no Twitter uma foto do presidente nicaraguense Daniel Ortega em um breve comício. O homem parece doente, com o rosto chupado, um sorriso meio congelado, com a boca semiaberta e o corpo inclinado. O tuiteiro escolheu uma legenda genial para a foto: “O Coma-andante”.

Duas coisas me chamaram a atenção. Explico a primeira: Ortega tem sido inevitavelmente comparado, nos últimos anos, com o ditador Anastasio Somoza, derrocado pelos sandinistas em 1979. Poucos meses antes da queda, Somoza viajou a Washington para realizar exames médicos. Nas ruas de Manágua, circularam rumores sobre sua saúde similares aos que agora vemos sobre Ortega nas redes sociais. O escritor García Márquez registrou a frase do ditador Somoza que a foto me fez lembrar: “Que não se equivoque quem especula sobre minha saúde. A de outros é pior.”

Uma segunda tentativa de negociações entre o Governo orteguista e a chamada Aliança Cívica fracassou na Nicarágua. Ortega se negou a antecipar eleições e a investigar os crimes cometidos por suas forças de segurança. A outra parte decidiu abandonar a mesa. Na verdade, não tinha outra opção.

A Aliança Cívica é um falso constructo. Nela se incluem, mas não somente, os representantes dos estudantes e das organizações sociais e cidadãs, setores que desde o início dos protestos, há um ano, contribuíram com a luta, a tomada das ruas, os mortos e os presos políticos. São os exilados, os que perderam seu emprego ou suas terras, os que ainda sofrem, diariamente, o assédio de policiais e paramilitares nos arredores de suas casas. Mas também se sentam, do mesmo lado da mesa, os representantes das associações de empresas privadas, que, ao contrário das anteriores, têm na agenda uma saída da crise de forma organizada e sobretudo tranquila, que lhes permita voltar à economia estável e aos negócios. Não há nada de ruim nisso (e ressalto: nisso), mas é evidente que seus interesses e condições são diferentes dos apresentados pelos estudantes e organizações da sociedade civil.

Ortega é uma raposa da política, como mostram suas décadas conspirando para exercer o poder. Ainda conserva, sobretudo fora da Nicarágua, a aura do caudilho revolucionário que resistiu ao imperialismo ianque na década de oitenta, quando Ronald Reagan armou e financiou um exército contrarrevolucionário para acabar com o sandinismo.

O comandante sequestrou as bandeiras e o discurso sandinistas. Também controla o exército, o aparato burocrático, a polícia, o Tribunal Eleitoral e os três poderes do Estado. Pouco resta, em seu exercício do poder, da revolução que inspirou os movimentos revolucionários de toda a América Latina. Nada mais distante do “novo homem” que este homem velho, ancorado num poder corrupto e repressivo, de sistema econômico neoliberal assistido pela Venezuela e cúmplice de grandes empresários vorazes e corruptos, que durante a última década ditaram as políticas econômicas e se tornaram mais ricos num dos países mais pobres do continente. 

Uma negociação entre uma Aliança dessa natureza e um Governo centralizado numa raposa velha já havia fracassado antes de começar. Os cursos básicos de negociação ensinam as condições para se sentar à mesa: saber quem precisa mais de um acordo (isto é, a posição de poder) e chegar com uma noção clara de qual é o teto (o máximo que a pessoa aspira conseguir e que está disposta a ceder) e o piso para alcançar um acordo.

O comandante já aceitou libertar os presos políticos —mais de 300, segundo as organizações de direitos humanos— e se comprometeu a respeitar o direito de protesto. Como sinal de boa-fé, ordenou soltar alguns prisioneiros, o que não representa nenhum custo. Não há entre eles um líder político capaz de se transformar em bandeira da oposição ou de convocar as massas ao sair da prisão. Os presos foram concebidos como moedas de troca do regime. Ortega os encarcerou para transformá-los depois numa concessão. A rua é outra coisa. Tem sido o principal desafio ao seu poder, ao seu controle territorial. Os manifestantes paralisaram o país e desestabilizaram seu Governo entre abril e junho do ano passado. As perdas econômicas foram grandes. A rua fez os opositores pensarem que estavam empreendendo sua própria revolução desarmada. Ortega nunca esteve tão fraco como naquela época. E, enquanto puder, evitará que isso volte a acontecer. Semana passada, apenas 24 horas depois de seu compromisso, pistoleiros dispararam contra o primeiro protesto em Manágua.

No entanto, o que estão negociando?

Ortega não aceitará eleições antecipadas nem observadores internacionais. Tampouco investigações das matanças, qualificadas por uma comissão de especialistas independentes nomeada pela OEA como crimes de lesa-humanidade. Não fará isso enquanto não tiver motivos: ou seja, enquanto encontrar outras saídas que não sejam negociar sua rendição.

Não há oposição política a Ortega; esta foi desmantelada graças às corruptelas dos liberais, à cooptação do órgão eleitoral, à repressão e à falta de novas lideranças. A verdadeira oposição está nas forças sociais: os movimentos camponeses e estudantis, hoje debelados pela repressão e quase todos escondidos, assassinados, presos ou no exílio. Desorganizados, enfraquecidos, desarmados e sem rua, sua força moral é suficiente para fazer Ortega sentar e negociar, mas insuficiente para fazê-lo ceder. Não têm tanto jogo de cintura, e seu teto e seu piso são um só: a saída de Ortega. No mais puro exercício pragmático: o que acontecerá se Ortega não aceitar essa condição? Por que então teria que aceitá-la?

O único membro da Aliança com poder real são as empresas privadas. Com elas Ortega negocia. Afetados pela crise econômica, os grandes empresários pediram essas negociações. Ao contrário de um ano atrás, agora, com 400 mortos e dezenas de milhares de exilados, eles não podem voltar aos dias dourados anteriores ao 18 de abril de 2018, ao modelo do qual tanto se orgulharam: o âmbito político e o social nas mãos do comandante, mas a economia decidida pelas empresas. Assim eles caminharam juntos por uma década. Empresários que nunca foram democráticos hoje sentam-se à mesa de negociações com um discurso democrático.

Querem tranquilidade e ordem para seus negócios, com ou sem Ortega. Com ou sem democracia. Sabem que o projeto não é sustentável, mas não estão dispostos a empurrar o final. Eles o atrasaram durante um ano inteiro: inventam pretextos para não comparecer à greve geral, alimentam mesas de negociações, brincam com deus e com o diabo. Politicamente, esperam alguma alternativa a Ortega. Mas ainda não a veem. Sua posição vantajosa está na economia: sem o apoio venezuelano e com as perdas da crise, Ortega está ficando sem recursos. Essa é a maior fratura do regime, assim como a condenação internacional.

Os estudantes e as organizações da sociedade civil estão na pior das condições: não têm outra posição de poder a não ser sua credibilidade, sua mobilização maciça (com os riscos que envolve) e sua comprovada disposição para chegar às consequências necessárias. Seu drama paradoxal é que não podem fazer essa transição com os empresários, mas tampouco sem eles. Sabem que não haverá uma nova Nicarágua sem o fim da repressão, a saída de Ortega e a convocação de eleições livres e antecipadas. Mas Daniel Ortega tem outros planos.

Volto à foto de “El Coma-andante”: o segundo ponto que me chamou a atenção é que, ao redor de Ortega, dois guarda-costas vestidos de civis vigiam. Em estado de alerta. Na cabeça, exibem um gorro vermelho e a seguinte frase: DANIEL 2021. Outros, como pensará Ortega, têm a saúde ainda pior.