Reino Unido

Governo de Boris Johnson barrará imigrantes não qualificados e que não falem inglês

Nova política imigratória gera os protestos de empresários e da oposição trabalhista

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, visita obras ferroviárias em Birmingham.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, visita obras ferroviárias em Birmingham.Eddie Keogh/PA Wire/dpa / Eddie Keogh/PA Wire/dpa

O rechaço ao imigrante sempre esteve por trás do Brexit, algo que Governo do Boris Johnson não tardou em confirmar. A ministra do Interior, Priti Patel, apresentará nesta quarta-feira a nova norma que regulará o acesso de estrangeiros ao mercado trabalhista do Reino Unido a partir de janeiro de 2021, e seu departamento já publicou as linhas básicas. Os trabalhadores não qualificados e os que não falem inglês passarão a ser barrados, numa reviravolta da política migratória que irritou o setor empresarial. Acabou-se a mão de obra barata e eficaz no setor hoteleiro, na indústria e na construção civil.

O Governo direitista de Johnson não abandona a retórica antieuropeia dos últimos anos e anuncia a recuperação do “controle pleno” das fronteiras do Reino Unido, pondo fim à “distorção” causada, segundo a versão oficial, pela livre movimentação de pessoas na União Europeia.

O documento que estabelece as linhas da nova política migratória ocupa 10 páginas e representa uma revolução. Veda por completo as fronteiras do Reino Unido aos trabalhadores não qualificados. Exige o conhecimento do inglês como requisito quase fundamental para ter acesso ao mercado de trabalho britânico. E impõe um contrato prévio, cujo salário deverá ser de pelo menos 25.600 libras (144.800 reais) por ano para quem quiser trabalhar em seu território. O limite cai para 20.480 libras (115.830 reais) no caso de profissionais especialmente necessitados, como enfermeiros.

Acabou-se a aventura de muitos europeus jovens, e não tão jovens, que iam ao Reino Unido em busca de oportunidades.

A publicação da nova política migratória causou indignação e protestos da oposição trabalhista e dos setores empresariais que dependem da mão de obra estrangeira. A economia britânica se nutriu até agora de pessoal da UE para postos como garçons, funcionários de hotéis, trabalhadores agrícolas, operários de fábricas alimentícias e trabalhadores da indústria pesqueira.

“Os empregos que o Governo considera de ‘baixa qualificação’ são vitais para o crescimento e a estabilidade das empresas. Com esta medida fica ameaçado o fornecimento de todo o pessoal de que precisamos para oferecer serviços dos quais a população depende”, disse Tom Hadley, diretor da Confederação do Emprego e Recrutamento, uma organização setorial sem fins lucrativos.

A Confederação da Indústria Britânica, entidade patronal mais importante do país, se mostrou mais prudente em suas críticas às medidas anunciadas pelo Governo, mas advertiu para os problemas que podem ocasionar em determinados setores. Sua presidenta, Carolyn Fairbairn, elogiou a ampliação do limite legal ao número de trabalhadores altamente qualificados que poderão ser admitidos, mas alertou para “as dificuldades que algumas empresas terão para contratar o pessoal do qual necessitam para continuarem ativas”.

A porta-voz de Emprego da oposição trabalhista, Diane Abbot, acusou o cinismo que, segundo ela, cerca o anúncio governamental. “A maioria das pessoas que vêm ao Reino Unido hoje já fala inglês. Vamos realmente vetar gênios da matemática porque seu nível de inglês não é aceitável? É uma medida desumana e nociva”, declarou.

O Executivo quer apresentar suas propostas como um modo de forçar as empresas a investirem mais na formação de seu pessoal e em seu desenvolvimento tecnológico. “É importante que os empregadores britânicos deixem de depender da política migratória do país como alternativa à necessidade de investir na retenção de seus empregados, em sua produtividade, e em um maior avanço em tecnologia e automatização”, diz o documento do Governo.

O Governo de Johnson contempla a exceção dos trabalhadores temporários para temporadas específicas na safra agrícola, mas é tímido nessas cifras. Estabelece uma cota de 10.000 trabalhadores temporários, muito abaixo dos 70.000 solicitados pelo Sindicato Nacional de Agricultores para a safra de 2021.

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