Coronavírus de Wuhan

Bolsas mundiais mergulham em perdas por medo do coronavírus e OMS eleva alerta

O Ibovespa, que vinha batendo recordes nas últimas semanas, sofreu queda de 3,29%. Organização Mundial da Saúde passa a classificar risco internacional de contaminação como “elevado”

Turistas chineses usam máscaras de proteção em Colombo, no Sri Lanka.
Turistas chineses usam máscaras de proteção em Colombo, no Sri Lanka.CHAMILA KARUNARATHNE / EFE

Os efeitos do coronavírus infectaram as Bolsas de valores pelo mundo, que despertaram nesta segunda-feira com quedas decorrentes do medo do avanço do 2019-nCoV, ou vírus de Wuhan ―como também foi batizado, em referência à cidade chinesa onde o micro-organismo passou pela primeira vez de um animal para um ser humano―. Nesta segunda-feira, o medo do avanço da doença, que já infectou mais de 4.000 pessoas e matou 106, saltou plenamente para os mercados financeiros: o principal índice de referência da bolsa espanhola, o Ibex 35, fechou o dia com uma queda de 2%, alguns décimos abaixo de seus parceiros europeus, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa de São Paulo, caiu 3,29%. O CAC40 em Paris, o Dax alemão e o London FTSE sofreram quedas de mais de 2,2%. As bolsas chinesas evitaram o impacto ao permanecerem fechadas para o feriado do ano-novo lunar, mas o Nikkei, do Japão, também caiu mais de 2%.

Um dos setores mais diretamente afetados foi o do turismo. O grupo de companhias aéreas IAG (que inclui a British Airways, a Iberia, a Vueling e a Air Lingus, entre outras) registrou perdas nesta segunda-feira de 5%, enquanto a agência de viagens online eDreams ultrapassou 7%. O setor hoteleiro não se livrou do pânico dos investidores: a Meliá Hotéis caiu cerca de 5% e a Amadeus, provedora de soluções de tecnologia para empresas de turismo, perdeu mais de 6%. A cor vermelha se repetiu em outras empresas europeias do setor: a Easyjet e a AirFrance sofreram perdas semelhantes às do IAG. A Lufthansa, de mais de 4,5%. O medo do vírus provoca a redução da movimentação de viajantes que têm a China como origem ou destino, o que se traduz em menor venda de passagens e até o potencial cancelamento de voos.

O barril de petróleo Brent, referência na Europa, caiu quase 3% somente nesta segunda-feira e registrou seu menor preço em três meses, abaixo de 59 dólares (248 reais), quando há uma semana era vendido a quase 65 dólares (274 reais). O abalo sentido pelo mercado de petróleo também afeta as moedas de alguns países produtores, como Rússia e México.

O ministro da Energia da Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, atribuiu o colapso a "fatores psicológicos", em declarações a meios de comunicação, e lembrou que o surto de SARS, em 2003, no final das contas "não causou uma redução significativa na demanda por petróleo". No entanto, as pressões de baixa no mercado de petróleo foram suficientemente fortes para compensar o aumento da incerteza no Oriente Médio (após o ataque à embaixada dos EUA em Bagdá), um fator que costuma provocar aumentos nos preços dos barris do Texas e do Brent.

O surto de coronavírus se originou na cidade onde estão os principais produtores chineses de automóveis e aço, duas indústrias-chave da segunda maior potência econômica do mundo. A cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei (no centro do gigante asiático), também conta com mais de 300 multinacionais, por isso o temor se espalhou à medida que surgiam mais informações sobre a infecção. Enquanto isso, os investidores permanecem atentos à reunião da próxima quarta-feira do Federal Reserve, dos Estados Unidos, e a do Banco da Inglaterra na quinta-feira –um dia antes da saída do Reino Unido da UE. A compra de tradicionais ativos de refúgio, como o ouro e o iene, disparou.

Muitos países já começaram a tomar medidas diretas para frear a expansão do coronavírus, já que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a classificar risco internacional de contaminação como “elevado”. As operadoras de viagens russas pararam de vender voos para a China na manhã desta segunda-feira, disse o vice-presidente da Associação de Operadores de Turismo da Rússia, Dimitry Gorin, seguindo as recomendações do órgão regulador do país. Somente estavam mantidas as vendas de passagens de volta.

Outros países adotaram medidas ainda mais radicais: a Mongólia anunciou no domingo o fechamento de todas as suas passagens de fronteira com a China, enquanto o Governo chinês começou a impor o estado de quarentena nas principais cidades com a doença, o que afeta mais de 50 milhões de pessoas. O Comitê de Segurança da Saúde da União Europeia se reuniu nesta segunda-feira para decidir seu âmbito de atuação, depois que três casos foram diagnosticados na França. A comissária de Saúde da União Europeia, Stella Kyriakides, disse antes da reunião que o bloco estava “pronto para agir e intensificar nossa resposta, se for necessário”.

“É muito cedo para quantificar o impacto econômico do coronavírus, mas, na hora de lidar com choques inesperados como este, a abordagem mais razoável parece ser a de avaliar os precedentes", explicou em um comunicado o analista financeiro Gilles Moëc, da AXA Investment, que recordou o episódio do SARS em 2003, um vírus da mesma família que também se originou no gigante asiático. “A crise ocasionada pelo SARS reduziu o PIB da China em 1,1% e o de Hong Kong em 2,5%, mas resultou em um impacto de apenas 0,1% no PIB dos EUA”, diz o economista da AXA. Os cálculos preliminares da Standard & Poor’s coincidem com essa avaliação: a agência de classificação de riscos sugere que uma queda de 10% nos setores afetados reduziria o crescimento do PIB do país asiático em 1,2%.

Mas o analista da AXA Investment lembra que o peso da China na economia mundial aumentou significativamente, de modo que o contágio na economia mundial provavelmente deve ser maio agora. “Embora seja necessário enfatizar que, neste momento, ainda é muito cedo para saber se o SARS e seus efeitos econômicos constituem o precedente correto para avaliar o impacto do coronavírus.” Moëc enfatizou que “os contatos entre a China e o restante do mundo dispararam nos últimos 15 anos e o surgimento de fontes de contágio em larga escala, para além da região da Grande China. obviamente mudaria a equação”.

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