Pandemia de Covid-19

O romance que antecipou a pandemia de coronavírus

Lawrence Wright, que ganhou o Pulitzer por seu livro sobre a Al-Qaeda, publica uma ficção sobre um vírus parecido com a Covid-19. Quando a crise começou, ele ficou impressionado: sabia que Trump havia acabado com o comitê que deveria estar tomando decisões

Peregrinos com máscara em Meca, em 28 de fevereiro.
Peregrinos com máscara em Meca, em 28 de fevereiro.ABDEL GHANI BASHIR/AFP/Getty Images / AFP via Getty Images

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Quando leu A Estrada, Ridley Scott fez a mesma pergunta que a maioria dos leitores deste romance de 2006: O que fez a humanidade chegar a um mundo tão pós-apocalíptico quanto o que Cormac McCarthy desenha? O que poderia causar tal devastação de nossa civilização? O diretor de cinema britânico passou a pergunta ao jornalista, escritor e roteirista Lawrence Wright (Oklahoma, 1947). Queria que com essa ideia na cabeça preparasse o embrião de próximo filme. Wright, que em 2007 ganhou o prêmio Pulitzer por seu fino retrato do nascimento da Al-Qaeda até o ataque às Torres Gêmeas (O vulto das torres: a Al-Qaeda e o caminho até o 11/09), reconhecido como o livro que melhor contou os porquês daquele dia fatídico, chegou à única conclusão possível: “Ou uma catástrofe nuclear ou, mais certamente, uma pandemia”.

Escreveu o roteiro, mas nunca viu a luz, então decidiu dar-lhe forma de romance. Wright se documentou e entrevistou epidemiologistas, veterinários e até dentistas para anotar todas as possibilidades no caso de que houvesse uma pandemia real, como se estivesse preparando um livro de não-ficção. Quando o coronavírus começou a golpear Wuhan, Wright ficou impressionado. Ele já sabia o que muitos norte-americanos ignoravam: meses antes, Donald Trump havia acabado com o comitê do Governo encarregado de tomar as decisões em caso de pandemia. Acabara de entrevistá-los enquanto se documentava para o livro. “Este grupo de pessoas, que estava sob o comando do oficial Timothy Ziemer, teria estado no comando se não tivesse sido demitido”, diz com ira. “Ziemer conseguiu reduzir as mortes por malária na África em 6 milhões de pessoas em comparação com o que era esperado, sabe do que está falando. Mas Trump eliminou aqueles que mais sabiam sobre esse assunto, um dos tantos erros colossais do presidente dos Estados Unidos.”

A resposta internacional, na opinião dele, foi terrivelmente inadequada. Afirma que o Governo dos Estados Unidos estava ciente de que uma pandemia poderia um dia atingir o país. A saúde pública, ressalta, vem fazendo simulações há anos, traçando estratégias para enfrentá-la, porque sabiam que aconteceria. Tinham calculado quantos hospitais seriam necessários, quantas máscaras... “Os números estavam aí. Eu os usei para o meu romance. Mas nossas autoridades não acreditavam que algo assim pudesse acontecer em nossos tempos, estavam como que em transe.”

No próximo dia 28 de abril verá a luz nos Estados Unidos The End of October, que conta o périplo de um epidemiologista da OMS na luta para encontrar uma cura para um vírus mortal antes que acabe com a civilização. “Perguntei como seria se algo assim acontecesse em um mundo como o de hoje, onde as viagens são instantâneas, com cidades densamente povoadas”. Em uma pandemia antiga, levaria um ano para se espalhar. Hoje, imaginou o escritor radicado em Austin, Texas, seria instantâneo. E é chocante ver que está sendo assim. “Temos muito pouco tempo para resolver o problema.”

Semelhanças entre o vírus real e o imaginado

A doença que Wright imagina é semelhante à gripe, assim como o coronavírus. E muitos pacientes sofrem pneumonias virulentas, como na triste realidade. “É o grande assassino do planeta”, diz o escritor. Em seu livro, as vítimas não são os idosos, como acontece com o coronavírus, mas as pessoas mais saudáveis, como aconteceu durante a gripe de 1918. “Seu sistema imunológico era tão robusto que sobrecarregava o corpo e acabavam se afogando em seus próprios fluidos”, conta por telefone o jornalista, que é uma das assinaturas da revista The New Yorker.

The End of October começa com o relato da morte “surpreendente’” de 47 jovens internos de um campo de refugiados para homossexuais localizado no oeste da Ilha de Java, na Indonésia. Logo o vírus se espalha e força a cidade de Meca, abarrotada de 3 milhões de fiéis, a ficar em quarentena. “Sinceramente, nunca imaginei uma quarentena com tantos habitantes”, diz Wright. “70 milhões de pessoas somente na região de Hubei! Subestimei o número de pessoas que podem ser confinadas. Embora tampouco imaginei que muita gente desobedeceria às regras de confinamento, como aconteceu na realidade.” No romance são narrados momentos de ocultação de informações para não provocar o pânico dos cidadãos, o protagonista incentiva sua mulher a comprar comida suficiente para dois meses e se ouvem frases que são dolorosamente reais: “Toda vez que tentamos confinar o vírus fazendo quarentenas, ele sempre encontra uma maneira de escapar”.

Existe algo mais atraente para um escritor ou roteirista do que uma boa pandemia? Os clássicos nos trazem diferentes eventualidades. Em A Peste, Albert Camus conta que, em situações desesperadoras, surge o pior da sociedade: o egoísmo, a irracionalidade, o medo. A Morte em Veneza, de Thomas Mann, mostra o perigo de resistir a seguir as indicações para evitar o contágio. Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago desmascara “uma sociedade podre e desfigurada”. Mais recente é Guerra Mundial Z, infestada por zumbis e com o objetivo de atingir o grande público, em que Brad Pitt interpreta um ex-funcionário da ONU em busca de uma vacina tremendamente necessária. Em Contágio, com Matt Damon e Gwyneth Paltrow, era divertido ver a rapidez com que os aviões facilitaram a propagação da pandemia, embora agora provoque arrepios. Existem tantas obras sobre as consequências de algum tipo de vírus que fica difícil aceitar a falta de previsão que comprovamos estupefatos quando a ameaça se tornou real.

No romance, o texano especula sobre os problemas sócio-políticos que podem surgir por culpar outros países pela pandemia. Alguns senadores norte-americanos afirmam que o coronavírus é uma criação da China, observa. “Quando não temos evidências de que alguém, exceto a natureza, o tenha manipulado, é terrivelmente perigoso procurar culpados.” No romance de Wright, o vírus ainda leva a uma guerra biológica. “Não é inconcebível que o coronavírus realmente leve a algum tipo de guerra. Estamos em um ponto muito complicado em nossas relações políticas. Se alguém cometer um erro, somos capazes de uma infinidade de erros como seres humanos.”

Wright termina a entrevista confessando dois temores que tem em relação à democracia no Ocidente por causa do coronavírus: por um lado, pode causar rupturas nas próximas eleições (“como pode haver convenções, comícios, voto...?”). Por outro, está preocupado que sociedades autocráticas como a China tenham conseguido controlar melhor a pandemia do que sociedades intrinsecamente livres, o que significa um grande desafio para o Ocidente: “Veremos aonde essas diferenças nos levam”.

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