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Um gol suspeito vira assunto de Estado na Colômbia

O presidente Iván Duque qualifica o gol como ‘uma vergonha nacional’ em um jogo da segunda divisão que traz à tona o fantasma da manipulação de resultados

El momento en el que Unión Magdalena anota el segundo gol ante Llaneros (1-2) en un partido de la segunda división del fútbol colombiano
O momento em que o Unión Magdalena marca o segundo gol contra o Llaneros (1x2) em partida da segunda divisão do futebol colombiano, no sábado, 4 de dezembro de 2021.

Uma onda de indignação não para de crescer no futebol colombiano desde sábado, quando, no último suspiro de uma partida decisiva da segunda divisão, os zagueiros do Llaneros ficaram plantados em campo enquanto o Unión Magdalena marcava aos 45 minutos do segundo tempo o gol com o qual selou uma suspeita reviravolta que valia a subida para a primeira divisão. A Associação Colombiana de Futebolistas Profissionais pediu uma investigação, jogadores da seleção nacional demonstraram indignação e até o presidente Iván Duque considerou o fato “uma vergonha nacional”.

O Llaneros, time que nunca jogou na primeira divisão, recebeu neste sábado em seu estádio na cidade de Villavicencio o Unión Magdalena, uma equipe tradicional do futebol colombiano, e vencia por 1 a 0 aos 40 minutos do segundo tempo. Então, os visitantes anotaram em duas ocasiões nos minutos finais.

O grande prejudicado foi o Fortaleza, outra equipe pequena que era a favorita para o acesso à Primeira Divisão, mas que perdeu por 2 a 1 em casa, no mesmo dia, para o Bogotá FC, e por isso se viu superado pelo Unión Magdalena. O terremoto inflamou o debate público e abalou as bases da Divisão Principal do Futebol Colombiano, a Dimayor, entidade encarregada de administrar os torneios de futebol profissional.

A jogada do gol final, marcado por Jonathan Segura perante uma passividade incomum dos rivais, é inaudita. As imagens não demoraram a se tornar virais e as suspeitas não se fizeram esperar. “Fala sério, que falta de respeito esse gol do Unión”, tuitou Juan Guillermo Cuadrado, que joga na Juventus e é um dos pesos pesados da seleção colombiana. Outro que atua no exterior, Matheus Uribe, do Porto, respondeu que era “uma vergonha para o futebol colombiano”. Nelson Flórez, o técnico do Fortaleza, irrompeu em pranto na coletiva de imprensa depois do jogo. “Não tenho vergonha de chorar porque me sinto roubado”, declarou. O clube anunciou que vai pedir a anulação do jogo. “Consideramos que esta situação não é uma simples questão de jogo, tem um pano de fundo mais amplo que certamente as autoridades disciplinares e os jogadores envolvidos irão confirmar, respeitando o devido processo aplicável a este tipo de caso”, afirmou em um comunicado.

O escândalo transcendeu jogadores, treinadores, dirigentes e torcedores. A indignação foi subindo de autoridade em autoridade, de local para nacional, até chegar ao presidente da República. “Os eventos que ocorreram no jogo de hoje não nos representam como llaneros nem aos atletas da região. É importante que sejam esclarecidos logo”, declarou no mesmo sábado o prefeito de Villavicencio, Felipe Harman. O Llaneros é a única equipe profissional do departamento de Meta, nas planícies orientais da Colômbia. “A raiva e a dor que ainda sinto como torcedor, depois de presenciar o encerramento da partida, me leva a exigir que seja esclarecido o que vimos ontem”, destacou o governador do Departamento, Juan Guillermo Zuluaga. Os dirigentes das equipes envolvidas têm procurado minimizar o ocorrido, como uma ação própria do jogo, com jogadores “desmoralizados” depois de terem sofrido um gol de empate que julgavam que estava impedido.

Essas explicações não conseguiram aplacar a controvérsia. “O que nós colombianos presenciamos não pode ser menos que ultrajante, é uma vergonha nacional e internacional, e é um fato que nos preocupa muito e que reflete algo em que devemos agir e tem que ser resolvido bem rápido”, disse o ministro do Esporte, Guillermo Herrera, que solicitou ao Ministério Público que investigue se houve atos de corrupção por trás do episódio. “O que aconteceu no jogo de acesso à Primeira Divisão é uma vergonha nacional. O esporte exige transparência, honestidade e tolerância zero diante de qualquer situação que deslegitime a ética esportiva”, destacou neste domingo o presidente Iván Duque.

Embora o desenlace ainda pareça imprevisível, a Dimayor convocou uma reunião para discutir o assunto e não descarta a suspensão da promoção do Unión Magdalena. “A ideia é chegar às últimas consequências para que isso não pare por aí como acontece com um monte de coisas. Queremos chegar ao fundo para ver se é uma atitude individual de alguns jogadores ou se há algo muito mais sério por trás disso”, disse Fernando Jaramillo, presidente da Dimayor, em declarações ao jornal El Tiempo.

O futebol colombiano esteve atolado em todo tipo de escândalos nos últimos anos. Sem ir muito longe, Luis Bedoya, ex-presidente da Federação Colombiana de Futebol (FCF), admitiu as acusações nos Estados Unidos como um dos implicados no escândalo mundial conhecido como FIFA Gate, relacionado com mais de 20 anos de suborno de dirigentes do futebol em troca de direitos televisivos e patrocínio das principais competições da América. Outro escândalo notório, sobre a venda de ingressos para os jogos da seleção nacional nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia, também abalou a FCF. Para arrematar, a polêmica atual surge em um momento em que a Superintendência da Indústria e Comércio (SIC) investiga um acordo ilegal entre os presidentes de 16 clubes e a Dimayor para vetar determinados jogadores de futebol. A conjuntura da partida suspeita que definiria a subida de divisão provocou a reação das autoridades. “Com isto e as denúncias sobre a gestão dos direitos esportivos dos jogadores, exigimos que a Dimayor e FCF apresentem garantias de uma gestão transparente”, declarou Herrera, o ministro do Esporte.

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