Partida entre Brasil e Argentina é interrompida por agentes da Anvisa

Agência sanitária informou na manhã deste domingo que quatro jogadores argentinos mentiram sobre origem para entrar no país sem passar por quarentena e que deveriam ser deportados. Jogo foi suspenso

Agentes da Anvisa em campo com Neymar e Messi.
Agentes da Anvisa em campo com Neymar e Messi.Sebastiao Moreira (EFE)
Rodolfo Borges
São Paulo -
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Fiscais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) entraram literalmente em campo neste domingo para interromper a partida disputada entre as seleções de Brasil e Argentina pelas Eliminatórias da Copa do Mundo do Catar na Neo Química Arena, em São Paulo. Na manhã deste domingo, a Anvisa havia informado por meio de nota que quatro dos jogadores argentinos “descumpriram regra para entrada de viajantes em solo brasileiro”. Emiliano Martinez, Giovani Lo Celso, Cristian Romero e Emiliano Buendía estiveram no Reino Unido nos últimos 14 dias, pois jogam em times da Premier League. De acordo com as normas brasileiras, eles deveriam ter respeitado uma quarentena por conta da pandemia de covid-19 ao chegar ao Brasil, assim como viajantes provenientes de África do Sul, Irlanda do Norte ou Índia. Como não o fizeram, a Anvisa acionou a Polícia Federal, pois esses atletas “estão impedidos de participar de qualquer atividade e devem ser impedidos de permanecer em território brasileiro”.

Informações extraoficiais dão conta de que a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) mediou um acordo com o Governo federal brasileiro para permitir a realização da partida. A seleção argentina entrou em campo às 16h com três dos quatro jogadores identificados pela Anvisa —apenas Emiliano Buendía ficou de fora, inclusive do banco de reservas—, certa de que as autoridades brasileiras estavam conformadas com o desfecho. Claramente não estavam, e os agentes da Anvisa entraram no gramado por volta dos cinco minutos de jogo e pressionaram os argentinos até que a partida fosse interrompida. O time argentino deixou o gramado, enquanto a equipe brasileira guardava sua posição, para não correr o risco de que a organização do torneio considerasse que havia abandonado o jogo.

Cerca de uma hora depois da interrupção da partida, a Conmebol divulgou uma nota para dizer que “por decisão do árbitro da partida, o encontro organizado pela FIFA entre Brasil e Argentina pelas Eliminatórias da Copa do Mundo está suspenso”. “O árbitro e o comitê de jogo enviarão relatório ao Comitê Disciplinar da FIFA, que determinará as etapas a serem seguidas. Esses procedimentos obedecem estritamente às regulamentações locais”, segue o informativo. “As eliminatórias da Copa do Mundo são uma competição da FIFA. Todas as decisões relativas à sua organização e desenvolvimento são da competência exclusiva daquela instituição”, finaliza a manifestação da Conmebol.

Em nota, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lamentou “profundamente os fatos ocorridos e que acabaram por provocar a suspensão da partida”. A confederação garante defender “a implementação dos mais rigorosos protocolos sanitários”, e diz cumpri-los, para, em seguida, destacar que “ficou absolutamente surpresa com o momento em que a ação da Agência Nacional da Vigilância Sanitária ocorreu, com a partida já tendo sido iniciada, visto que a Anvisa poderia ter exercido sua atividade de forma muito mais adequada nos vários momentos e dias anteriores ao jogo”. A CBF faz questão de ressaltar que não interferiu “em qualquer ponto relativo ao protocolo sanitário estabelecido pelas autoridades brasileiras para a entrada de pessoas no país” e diz aguardar a decisão da Conmebol e da Fifa sobre a partida.

Em entrevista ao canal Sportv, mais cedo, o presidente em exercício da CBF, Ednaldo Rodrigues, lamentou o ocorrido. “Todos levaram um susto. É lamentável um episódio desse tipo, em um jogo Brasil e Argentina, que desperta o interesse de todo o mundo”. Segundo ele, “em momento algum a CBF teve qualquer participação” na tentativa de viabilizar o jogo. “Há três dias, pelo que temos conhecimento, a Anvisa já estava acompanhando a [seleção da] Argentina”, comentou, acrescentando que a ação “causou estranheza, já que a Anvisa deixou para depois do início do jogo” para agir.

O presidente da Associação de Futebol Argentina (AFA), Claudio Tapia, disse que “não se pode falar de nenhuma mentira aqui, porque existe uma legislação sanitária que rege todos os torneios sul-americanos”. “As autoridades sanitárias de cada país aprovaram um protocolo que temos cumprido ao máximo”., declarou, em manifestação divulgada pelo perfil de Twitter da seleção argentina. “O que aconteceu hoje é lamentável para o futebol, é uma imagem muito ruim. Quatro pessoas entraram para interromper o jogo, para fazer uma notificação, e a Conmebol pediu aos jogadores que fossem para o vestiário.”

O treinador argentino, Lionel Scaloni, disse torcer para que se descubra o que de fato ocorreu. “Fico muito triste. Não procuro culpado. Se algo aconteceu ou não aconteceu, não era o momento de intervir”, reclamou.. “Deveria ter sido uma festa para todos, para desfrutar dos melhores jogadores do mundo. Gostaria que o povo argentino entendesse que, como treinador, tenho que defender os meus jogadores.” Segundo Scaloni, “em nenhum momento fomos avisados de que [os quatro jogadores] não podiam jogar. Queríamos jogar, os futebolistas brasileiros também”, comentou.

A Anvisa também se manifestou após a confusão, para dizer que desde a tarde de sábado “em reunião ocorrida com a participação de representantes da CONMEBOL, CBF e da delegação argentina recomendou a quarentena dos quatro jogadores argentinos, ante a confirmação de que os jogadores prestaram informações falsas e descumpriram, inequivocamente, a Portaria Interministerial nº 655, de 2021, a qual estabelece que viajantes estrangeiros que tenham passagem, nos últimos 14 dias, pelo Reino Unido, África do Sul, Irlanda do Norte e Índia, estão impedidos de ingressar no Brasil”. A agência diz que tomou conhecimento da situação irregular dos jogadores no mesmo dia de sua chegada ao Brasil, e por isso agendou a reunião de sábado. Ainda segundo nota divulgada, as tentativas de fazer os jogadores argentinos cumprirem as normas brasileiras neste domingo “foram frustradas, desde a saída da delegação do hotel, e mesmo em tempo considerável antes do início do jogo, quando a Anvisa teve sua atuação protelada já nas instalações da arena de Itaquera”.

Política

A partida contava com apenas 1.500 pessoas no público, uma audiência composta por convidados da CBF, da Federação Paulista de Futebol (FPF) e da Conmebol. Em termos esportivos, não valia tanto quanto a final da última Copa América, vencida pela argentina em território nacional. Tanto Brasil quanto Argentina estão folgados na tabela de classificação, em primeiro e segundo lugar, respectivamente, e não devem ter problemas para se classificar para o próximo mundial. Os efeitos políticos para as autoridades sanitárias brasileiras são muito mais relevante, e é o que torna histórico o desfecho precoce dessa partida.

As reações do mundo político falam por si. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Pandemia, disse que vai enviar requerimento à CBF para solicitar uma resposta sobre “com quais autoridades o Governo Brasileiro fez ‘acordo’ para burlar as regras sanitárias da Anvisa?”. “Se estivéssemos em um momento de plena normalidade da vida nacional, com cada autoridade cumprindo suas funções com competência e agilidade, não teria ocorrido o vexame do jogo Brasil x Argentina”, criticou o ex-governador do Ceará e aspirante ao Palácio do Planalto Ciro Gomes, em seu perfil no Twitter. Já o deputado Rodrigo Maia (sem partido-RJ), ex-presidente da Câmara, comentou: “Vamos esperar que a Anvisa tenha a mesma firmeza em relação às regras sanitárias nos eventos promovidos pelo presidente, sem máscara e vacina”.

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