Ioga mental para lidar com as mudanças

O que nos ajuda a avançar? Identificar um objetivo futuro, um sonho e uma situação que nos motive e ser proativos, mas com um objetivo concreto

mikel jaso / EPS

Quantas vezes tentamos sem sucesso perder peso, economizar dinheiro e lidar com as coisas com mais calma? As mudanças não são fáceis. Só conseguimos, calcula-se, materializar 12% das promessas que fazemos no começo do ano. O motivo é simples: a mudança é custosa, ainda que vivamos imersos nela. Quando somos nós mesmos que impulsionamos uma transformação como um novo projeto e uma nova casa, a esperança ajuda para que não surjam muitas resistências. O problema está em outro tipo de mudanças mais difíceis: aquelas que somos obrigados a fazer por circunstâncias externas.

Uma doença, um fracasso, uma demissão e um término são motivos para começar uma nova etapa. Nesse momento desperta o grande fantasma do medo e pode começar a dança das queixas. Repito: a mudança nos é custosa, mas, também devemos reconhecer, a história do ser humano é um exemplo de adaptação e de superação. Se refletirmos sobre aquilo que nos ajudou a enfrentar situações complicadas, é provável que encontremos determinadas estratégias, algumas inconscientes, que nos fizeram passar por essa etapa de um modo mais fácil.

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Há mais de uma década embarquei na análise do que nos ajuda a superar a mudança. Encontrei certos padrões entre os depoimentos compilados, o que nos serve para entender os desafios de uma maneira mais gentil. A ter uma mentalidade à mudança (change mindset, em inglês). Isso não significa que o medo desaparece diante do desconhecido, e sim que ele não nos paralisará para construir assim melhores pontes ao futuro.

Um padrão habitual consiste em identificar um objetivo futuro, um sonho e uma situação que nos motive. Pode ser um projeto de grande envergadura, como montar uma empresa, e algo simples, como aproveitar mais de nosso tempo livre. Em momentos de incerteza vale a pena se perguntar o que nos dá esperança e o que gostaríamos de conseguir. Especialmente após o tsunami que a covid-19 provocou em nossa vida.

O medo que nasce diante de uma mudança surge pelo apego com aquilo que temos e não queremos perder. Mas nos dar permissão para sonhar, para imaginar como gostaríamos de nos enxergar, é mais poderoso para nos mobilizar do que lembrar de tudo o que deixamos para trás. Para emagrecer, por exemplo, é mais eficaz colocar uma foto da geladeira de si mesmo em forma do que uma imagem em que aparecemos com sobrepeso. E quando estamos em momentos complicados, nos dá mais energia colocar uma foto de uma viagem futura e notas em casa com citações inspiradoras que nos motivam, como várias pesquisas demonstram.

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Um exercício saudável para treinar a mentalidade da mudança consiste em realizar uma lista de tudo aquilo que gostaríamos de conseguir e que realmente nos traz esperança, por menor que seja. Outro aspecto que caracteriza as pessoas que vivenciam a mudança com melhor predisposição é a flexibilidade mental para contemplar a realidade de diferentes perspectivas. Do mesmo modo que podemos realizar esporte e ioga para ficarmos melhor, nosso cérebro também precisa de suas próprias doses de esporte e, em outras palavras, precisa de ioga mental. A flexibilidade em nossos pensamentos e o olhar mais amplo nos ajuda a ser mais empáticos e, principalmente, a contemplar oportunidades diante dos problemas.

Uma maneira de praticar a ioga mental é nos cercar de pessoas diferentes de nós, por idade, seu modo de pensar e suas ideias políticas. Dessa forma se desperta curiosidade e não só repúdio. Outra fórmula é aprender coisas que pertencem a um âmbito diferente do que nos movemos. Dessa maneira nos questionaremos e evitaremos a chamada consolidação cognitiva, que nos deixa mais lentos para crescer em entornos de incerteza. Em outras palavras, para treinar a ioga mental é preciso ter um pé fora de nosso mundo habitual e conhecido.

Por último, outro traço comum das pessoas com mentalidade de mudança é a proatividade. Os temores são difusos e ambíguos. O medo habita em nossa mente, mas se dissipa com uma ação com sentido. Não significa cair no fazer por fazer e na síndrome do hamster, que corre sem objetivo em uma roda que dá voltas no mesmo lugar repetidamente. A proatividade que nos ajuda é aquela que se orienta em uma direção, seja um sonho e um projeto, e se centra no que está em nossas mãos. Esse comportamento não dedica energia ao que nos escapa, como o fim da pandemia e mudar o chefe e o companheiro ou companheira, e sim no que nós podemos fazer para transformar as coisas. E não é pouco.

Pilar Jericó é coordenadora do blog Laboratório de felicidade do EL PAÍS.

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