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EUA, Japão e Índia elevam a pressão sobre a OPEP para conter a alta do petróleo

Importadores querem que o cartel reabra as torneiras para estabilizar o mercado após o forte aumento dos preços dos hidrocarbonetos ao longo do ano, mas enfrentam recusa por parte da Arábia Saudita e de seus parceiros

Ignacio Fariza
Homem trabalha no rio Shatt al-Arab, no Iraque, em julho do ano passado.
Homem trabalha no rio Shatt al-Arab, no Iraque, em julho do ano passado.ESSAM AL-SUDANI (Reuters)

O cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) demonstra ter as costas largas, mas seus ombros suportam mais peso do que nunca. Estados Unidos, Japão e Índia, três dos maiores importadores de petróleo do planeta, pressionaram nos últimos dias para que a OPEP aumente as exportações. O objetivo: conter uma escalada de preços que está dificultando a vida dos consumidores e que, juntamente com os preços do gás, contribui para levar a inflação a patamares que começam a ser difíceis de digerir para os bancos centrais.

“A ideia de que a Arábia Saudita [líder de facto do grupo de exportadores], a Rússia e outros grandes produtores deixem de bombear mais para que as pessoas possam ir e voltar do trabalho não é correta”, afirmou o presidente norte-americano, Joe Biden, durante a reunião do G20 realizada no último fim de semana em Roma. Pouco depois, foi a vez de sua secretária de Energia, Jennifer Granholm: “O preço da gasolina depende do que acontece no mercado petroleiro mundial. E esse mercado é controlado por um cartel: a OPEP. Portanto, esse cartel tem mais a dizer [que eu] sobre o que está acontecendo.” A demanda global de petróleo retornou a patamares pré-pandemia, disse a Secretária, mas a oferta ainda não seguiu o mesmo caminho.

Na mesma linha se expressaram, nos últimos dias, o ministro indiano do Petróleo e Gás Natural, Hardeep Singh Puri, e o ministro japonês de Comércio e Indústria, Koichi Hagiuda. Mas a União Europeia e o maior importador de petróleo do mundo, a China, mantêm silêncio. A insistência dos EUA em que a OPEP suba o teto de produção responde, fundamentalmente, ao maior custo que seus motoristas enfrentam toda vez que precisam abastecer: cerca de 40% de aumento em relação ao início do ano. Como na Espanha e em outros países europeus, do outro lado do Atlântico o preço da gasolina chegou ao nível máximo dos últimos sete anos, favorecendo o aumento da inflação geral.

O cartel se mantém firme

A OPEP, que bombeia quase quatro de cada 10 barris consumidos no mundo —cinco em cada 10 quando se leva em conta a produção da Rússia, país com o qual o grupo coordena suas decisões—, esquivou-se da pressão em sua reunião desta quinta-feira e não alterou em nada o plano traçado no verão. Aumentará seu fornecimento em 400.000 barris diários (exatamente o que foi acordado em agosto, quando o petróleo ainda era cotado na faixa dos 65 dólares, quase 20 a menos que atualmente), mas essa cifra está muito distante das pretensões dos importadores e das necessidades de um mercado em que a demanda é maior que a oferta.

Segundo cálculos da consultoria Eurasia, a capacidade ociosa dos países do cartel está entre quatro e cinco milhões de barris diários acima do fornecimento atual. Mas a Arábia Saudita argumenta que a demanda ainda é afetada pela pandemia e que não é hora de injetar mais petróleo no mercado.

Alta da demanda

O recente encarecimento do petróleo responde à recuperação econômica global, à proximidade do inverno no hemisfério norte e a dois fatores do novo ano: os altíssimos preços do gás natural (o valor quadruplicou este ano até agora), que favoreceram sua substituição por derivados do petróleo nos setores em que isso é possível, e a reativação dos voos comerciais, o que incrementou o consumo de querosene após o verão. A demanda sazonal, por sua vez, continuará aumentando nas próximas semanas no hemisfério norte. “O consumo de petróleo se manterá relativamente forte durante o resto do ano e no primeiro trimestre de 2022″, dizem técnicos da consultoria Eurasia em recente comunicado para os clientes.

Enquanto isso, nos últimos meses a oferta petroleira global se reduziu não apenas devido aos limites autoimpostos pelo cartel dos exportadores, mas também a fatores exógenos, como os danos causados pelo furacão Ida em diversas plataformas petrolíferas no golfo do México.

Frente às previsões de outros bancos de investimento, como o Goldman Sachs, que não descartam que o barril do Brent (a referência europeia) atinja 100 dólares no médio prazo, o Bank of America prevê, em relatório publicado nesta semana, que o preço ficará em torno de 85 dólares no ano que vem e cairá para 75 em 2023. Num prazo mais longo, poderia chegar à faixa entre 50 e 75 dólares se a COP26, realizada neste momento em Glasgow, não vislumbrar novos compromissos de descarbonização.

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