Pandemia de coronavírus

Fed zera juros e injeta bilhões para ativar economia, mas bolsas globais operam em queda expressiva

Banco Central dos EUA anuncia a compra de 700 bilhões de dólares em ativos para garantir a liquidez dos mercados, mas mercados mundiais não reagem. BC anuncia medidas para mitigar crise no Brasil

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em 9 de março.
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em 9 de março.

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Em política monetária, como a Grande Recessão ensinou ao mundo, as medidas de choque são feitas no domingo à noite. Com o terremoto da semana passada nas Bolsas de Valores, a cúpula dos bancos centrais ―EUA, União Europeia, Japão, Reino Unido, Canadá e Suíça― resolveu agir neste domingo à noite para tentar reduzir a tensão à qual o coronavírus (Covid-19) está submetendo a economia com ações coordenadas para garantir algo tão básico ao funcionamento normal dos mercados como a liquidez. Chegou a hora: paralelamente e depois de duas tímidas ações anteriores, o Federal Reserve (Fed) colocou sobre a mesa o maior pacote de estímulos desde a crise financeira internacional para conter o flagelo da pandemia. Será duplo, com uma poderosa queda nas taxas de juros para um intervalo compreendido entre 0 e 0,25% ―antes estavam entre 1% e 1,25%― e uma rodada de compras de ativos no valor de 700 bilhões de dólares.

Donald Trump, habitualmente muito crítico com o Fed e seu presidente, Jerome Powell, declarou-se “muito feliz” assim que a decisão foi divulgada. Mas nem mesmo com esse choque elétrico as Bolsas de Valores reagiram: depois de um pesadelo na semana passada, os principais mercados europeus vivem uma segunda-feira pouco animadora, após as perdas na Ásia e na Oceania. Wall Street se prepara para abrir também com um golpe. Mesmo após o anúncio, os papeis futuros do Dow Jones caíram 4,6%; a da S&P, a outra grande referência em Wall Street, teve queda de 4,8%.

Na Europa, o espanhol Ibex 35 caia mais de 10% duas horas após a abertura. O índice francês CAC 40 perdia 9% no inicio do pregão, com retrações seguidas pelas Bolsas de Londres (FTSE, -7,6%) e Frankfurt ( DAX, -7,8%). Milão, o epicentro da crise de coronavírus na Itália, perdia 7,6%. Horas antes, os mercados da Ásia-Pacífico já apontavam para um declínio geral: o mercado de ações australiano caiu quase 10% no primeiro dia da semana; Hong Kong perto de 4% e Xangai e Shenzen, pouco mais de 3% afetados pela queda nos com juros da dívida dos EUA ― o ativo refúgio por excelência em tempos de angústia.

A ação coordenada dos bancos centrais é um bom primeiro passo, mas os investidores esperam mais em uma situação crítica e com a recessão já na porta, pelo menos na Europa. No espírito dos investidores, aparentemente, novas medidas restritivas para tentar retardar o crescimento do coronavírus superam os estímulos monetários.

Onde a ação do Fed pareceu dar um pouco mais de resultado, pelo menos num primeiro momento, foi no câmbio. Pouco depois da divulgação do pacote dos EUA, o dólar perdeu valor, especialmente frente ao euro e as moedas dos países emergentes. Um sinal de que as águas baixam um pouco mais calmas nesse flanco, mas só para os Estados Unidos. No Brasil, por outro lado, isto é um prenúncio de nova alta na moeda norte-americana, que às 9h14 avançava 2,12%, cotado a 4,9 reais.

Mas o Banco Central (BC) brasileiro já reagiu e anunciou a primeira ferramenta para a enfrentar os efeitos adversos do Covid-19. Na manhã desta segunda-feira, após uma reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional (CMN), foram aprovadas duas medidas. A primeira tem como objetivo facilitar “a renegociação de operações de créditos de empresas e de famílias que possuem boa capacidade financeira e mantêm operações de crédito regulares e adimplentes em curso". Essa ação dispensa os bancos de aumentarem o provisionamento no caso de necessidade de terem que renegociar operações de crédito em caso de calote. A segunda medida “expande a capacidade de utilização de capital dos bancos a fim de que estes tenham melhores condições para realizar as eventuais renegociações no âmbito da primeira medida e de manter o fluxo de concessão de crédito”.

A ameaça da crise de credibilidade

Existe algo que um banco central não pode se permitir sob nenhuma hipótese: perder a credibilidade. É seu atributo básico, indispensável, e estava começando a diminuir: os investidores não respondiam mais como antes à retórica e à ação do Fed e do Banco Central Europeu (BCE). Ao contrário do que se poderia esperar, nas últimas semanas responderam às ações individuais dos credores em última instância com perdas e mais perdas. Tinham de fazer algo e não esperaram sequer a reabertura dos mercados hoje para dar o passo: um domingo à noite, sem aviso prévio de nenhum tipo, como nos anos da Grande Crise.

Coordenação é a palavra-chave da jogada. Assediados por uma avalanche de notícias negativas e com os grandes países europeus em quarentena coletiva por conta do vírus, o Fed e o BCE somaram à sua cruzada neste domingo seus pares de outras latitudes para deixar claro que, desta vez, estão falando sério e vão juntos. Os mercados e as principais casas de análise reclamavam uma mensagem desde o início da turbulência financeira causada pelo coronavírus e da guerra de preços no setor de petróleo. Diante das ameaças como as que a economia mundial enfrenta, as ações individuais ―do Fed, dupla nas últimas duas semanas, com queda nas taxas e injeção maciça de liquidez; do BCE, com uma ação tímida que surpreendeu todo mundo na semana passada―, que simplesmente não foram suficientes. Resta saber agora o que será suficiente e até onde as economias liberais irão para acalmar o pânico dos mercados.

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