Como Faye Dunaway chegou a ser considerada “a pior pessoa de Hollywood”

A atriz, tão talentosa como controversa, retorna com um papel em ‘O homem que desenhou Deus’, um filme que já era notícia por significar o regresso ao cinema de Kevin Spacey após receber várias acusações de assédio sexual

Faye Dunaway na festa posterior à premiação do Oscar organizada em 2005 pela revista Vanity Fair em Los Angeles, Califórnia.
Faye Dunaway na festa posterior à premiação do Oscar organizada em 2005 pela revista Vanity Fair em Los Angeles, Califórnia.J. Merritt / FilmMagic

Mais informações

Na semana passada foi anunciada a participação de Faye Dunaway (Flórida, 80 anos) em The Man Who Drew God (O Homem que Desenhou Deus), o filme em que Kevin Spacey retorna ao cinema quatro anos depois de receber várias acusações por assédio sexual (algumas delas foram indeferidas). É sobre um pintor cego, capaz de desenhar as pessoas de acordo com o som de sua voz, que é injustamente acusado de abusos sexuais a menores.

Após décadas de manchetes sobre os caprichos e a agressividade de Dunaway —que são quase tão célebres como suas obras-primas: Uma Rajada de Balas, Chinatown e Rede de Intrigas—, dessa vez se fala de Dunaway por um filme. Mesmo sendo polêmico. Porque, como ela disse uma vez: “Sim, sou uma pessoa difícil, mas pelo menos assim vocês prestam atenção em mim”.

Faye Dunaway cresceu em Bascom, um povoado na fronteira da Flórida com o Alabama cujas ruas não eram asfaltadas. Uma tarde Dunaway encontrou a estrela de cinema Gene Tierney, a protagonista do clássico do cinema noir Laura (Otto Preminger, 1944), e compreendeu seu destino. “Minha mãe tinha uma ambição para mim: que fosse a melhor”, contou a atriz à revista Vanity Fair. “Tudo se centrava em mim, de modo que eu queria ser perfeita, o que me fez intensa e motivada”.

“Ninguém gostava de Faye”, afirmou Estelle Parsons (colega de elenco em seu terceiro filme, Uma Rajada de Balas, lançado em 1967) ao jornal Telegraph. “Sempre que estávamos prontos para filmar uma cena ela exigia que a penteassem novamente. Claro que não quero imaginar como uma mulher nessa situação se sente”. Essa situação era levar o peso do filme interpretando a foragida chic Bonnie Parker após emagrecer 12 quilos. Um ano antes, o diretor Arthur Penn havia recusado Dunaway para Perseguição Impiedosa porque o produtor a considerava feia (escolheu Jane Fonda). Dessa vez, Penn precisava convencer Warren Beatty, que preferia Natalie Wood, Sue Lyon e sua própria irmã, Shirley MacLaine. Para demonstrar que ele estava errado, a atriz parou de comer, consumiu remédios para emagrecer e passou várias semanas com pesos nos pulsos e tornozelos.

“Bonnie é o personagem mais próximo a mim em muitos sentidos: uma garota de cidade pequena que veio do nada, faminta e desejando prosperar, desejando fazer algo importante, desejando fazer sucesso”, disse a atriz à revista Esquire. Dunaway renunciou à metade de seu salário em troca do seu nome aparecer nos créditos, como o de Beatty, antes do título do filme.

Uma Rajada de Balas se transformou em um desses fenômenos triplos que quase nunca acontecem: sucesso de crítica, triunfo comercial e referência cultural. Na semana seguinte de sua estreia, a venda de boinas estilo beret aumentou 1.300%. Era inaugurado, dessa forma, o Novo Hollywood, um movimento cinematográfico sexy, violento e sofisticado que aplicava o estilo da Nouvelle Vague à mitologia norte-americana. E Faye Dunaway era sua musa: em O Grande Mestre do Crime, Três Dias do Condor e Chinatown interpretava, mais do que personagens, veículos de ostentação para uma estrela de cinema.

Retrato publicitário da atriz Faye Dunaway na década de sessenta.
Retrato publicitário da atriz Faye Dunaway na década de sessenta. Hulton Archive / Getty Images

Mas as histórias da filmagem de Chinatown imprimiram uma lenda negativa sobre ela. Pelas histórias comprovadas —como o dia em que o diretor Roman Polanski arrancou um cabelo seu que flutuava contra a luz porque distrairia o espectador e ela exigiu que fosse demitido— e as mais rocambolescas —como a noite em que Polanski não a deixava ir ao banheiro, de modo que ela urinou em um copo plástico e o jogou em seu rosto—, a imagem pública de Dunaway jamais se desassociaria do termo “atriz difícil”.

“Jamais vi semelhante nível de loucura”, afirmou Polanski, que criticava Dunaway por sair correndo para retocar a maquilagem e o penteado sempre que gritava “corta”. “Isso é parte do trabalho”, esclareceria ela, evocando aquela frase de Joan Crawford: “Se querem ver a garota da porta ao lado, que toquem na porta ao lado”. “Roman considera que é preciso infligir dor para fazer algo bom. Seu sadismo ia do físico ao emocional. Não fosse pelo cabelo, era pela incessante crueldade, o constante sarcasmo, a infinita necessidade de me humilhar”, se lamentou Dunaway ao The New York Times. Entre os diretores que defenderam seu profissionalismo estão Sidney Lumet e Elia Kazan.

“Meu perfeccionismo surge porque meu trabalho consiste em conquistar algo maravilhoso e utilizo toda a minha inventividade, minha coragem e minha mente para tentar que seja especial. Para isso as pessoas vão ao cinema, para ver algo especial”, se defendeu ela.

Seu marido, o cantor de rock Peter Wolf, a alertou de que o personagem de Rede de Intrigas, relato clássico sobre a podridão na televisão sensacionalista, poderia perpetuar sua imagem de mulher calculista, ambiciosa e sem escrúpulos. “Por que fez esse personagem como uma mulher? Se fala como um homem e se comporta como um homem”, a atriz perguntou ao roteirista Paddy Chayefksy. “Porque precisava de uma história de amor”, respondeu ele.

Peter Finch e Faye Dunaway em 'Rede de Intrigas', a sátira televisiva de Sidney Lumet pela que Dunaway ganhou o Oscar de melhor atriz.
Peter Finch e Faye Dunaway em 'Rede de Intrigas', a sátira televisiva de Sidney Lumet pela que Dunaway ganhou o Oscar de melhor atriz.FilmPublicityArchive / FilmPublicityArchive/United Arch

Rede de Intrigas deu a ela o Oscar de melhor atriz. “Nunca esquecerei o momento de escutar meu nome e o que senti. Foi, sem dúvida alguma, uma das noites mais maravilhosas da minha vida. O Oscar representava o epítome do que eu havia sonhado e pelo que eu sofri desde que era uma garota. Era o símbolo de tudo o que eu pensava que queria como atriz”, escreveu em suas memórias.

Mas o auge de sua carreira não é exatamente aquela noite de 1977, e sim a foto que horas mais tarde tirou seu marido à época, o fotógrafo Terry O’Neill. A fotografia conhecida como A manhã seguinte mostra Dunaway entre o esgotamento e o sono, com o Oscar dominando a fotografia e com dúzias de jornais com seu nome espalhados pelo chão. A foto é simbólica porque condensa em que consiste exatamente a celebridade. Receber uma quantidade desproporcional de atenção e, entretanto, estar sozinha ao voltar para casa. Parecer alguém importante, mas conquistar triunfos frívolos. Conquistar um sonho e imediatamente se perguntar: “E agora, o que?”.

E agora, nada

Quando interpretou Joan Crawford em Mamãezinha Querida, adaptação do livro que a filha de Crawford escreveu para se vingar por décadas de humilhações, o The New York Times deu quase como certo um segundo Oscar para Dunaway cinco anos depois do primeiro. No dia da estreia, ela levou seus pais a Times Square para ver as filas de pessoas que lotavam os cinemas. A própria Dunaway admitiu sua identificação com Crawford: “Ela era uma garota pobre e sem estudos do Meio Oeste. E se transformou em Joan Crawford. Ela criou a si mesma. Às vezes achava que estava de volta a Oklahoma. Uma vez desmaiou porque o vento no set a lembrou de Oklahoma”.

Faye Dunaway e seu marido, Terry O'Neil, em um teatro em Nova York em 1982 em que ela interpretava 'The Curse of the Aching Heart'
Faye Dunaway e seu marido, Terry O'Neil, em um teatro em Nova York em 1982 em que ela interpretava 'The Curse of the Aching Heart'Bettmann / Bettmann Archive

O produtor e o diretor asseguraram a ela que seria um estudo de personagem e uma reflexão sobre o poder insidioso da fama, não de uma recriação sensacionalista. Mas a atriz explicou (em uma das poucas ocasiões que concordou em falar sobre o filme) que depois levaram a história à comédia sem que ela percebesse. Ganhou o Razzie de pior atriz na primeira edição dessa premiação e, com o filme ainda em cartaz, a campanha promocional mudou de “drama de prestígio” a “comédia involuntária” com a esperança de atrair grupos de amigos bêbados nas sessões da madrugada. “Após Mamãezinha Querida minha própria personalidade e a lembrança de meus outros personagens se perderam na cabeça do público e de muitas pessoas de Hollywood. Foi uma interpretação. Nada mais. Mas as pessoas acreditaram que eu era como ela”, lamentaria em suas memórias.

Mamãezinha Querida gerou um efeito metanarrativo: uma diva ególatra interpretando uma diva ególatra em um filme que consegue ridicularizar as duas e arruinar para sempre suas reputações. Quando Joan Crawford morreu em 1977, sua inimiga íntima Bette Davis disse: “Se não tem nada de bom para dizer de alguém não diga nada”. Mas não aplicou essa máxima com Dunaway. “Você pode colocar qualquer pessoa nessa cadeira e te dirá que Faye Dunaway é absolutamente impossível”, disse no programa de Johnny Carson diante de 20 milhões de espectadores quando este perguntou a ela quem era a pior pessoa de Hollywood.

Incapaz de lidar com a humilhação pública, Dunaway se mudou para Londres com Terry O’Neill e seu filho e ficou por lá durante quase toda a década de oitenta. Quando decidiu voltar e retomar seu estrelato, acordava cedo todas as manhãs para fazer os exercícios do vídeo de Jane Fonda. Um jornalista da Vanity Fair descreveu em uma reportagem a decadência de sua sala, projetada por Charles Gwathmey nos anos setenta, cujo sofá estava cheio de queimaduras de cigarros. “A verdade é que vive tão isolada que não é preciso conhecê-la para querer consolá-la”, disse o repórter.

Faye Dunaway estava obcecada em ser uma estrela como as de antes, como as que sequer existiam quando ela chegou a Hollywood. Talvez por isso tenha interpretado personagens que exploravam o conceito da celebridade: Crawford, Eva Perón, Norma Desmond, Maria Callas e Katherine Hepburn. Mas quase todos esses projetos acabaram prejudicando sua reputação. Andrew Lloyd Weber a retirou de Sunset Boulevard poucos dias antes de substituir Glenn Close na Broadway. Callas iria ser sua estreia como diretora, e chegou a rodar metade do filme ao longo de cinco anos, mas abandonou o projeto em 2014 porque ficou sem financiamento. E há dois anos foi demitida da obra Tea at Five, onde interpretava Hepburn, após várias semanas de brigas relatadas por vários de seus colegas afetados ao The New York Post: chegava horas atrasada, proibia que a olhassem (incluindo o diretor e o dramaturgo) e exigia que ninguém usasse roupa branca. Utilizava escovas, espelhos e caixas de grampos como armas projéteis. Jogava as refeições no chão quando não gostava. Esbofeteou uma mulher que tentava colocar sua peruca. Ordenava que limpassem seu camarim de joelhos. E seu assistente a denunciou por abusos emocionais e insultos como “pequeno homossexual”.

Em 2011, o senhorio de seu apartamento em Nova York a despejou e o processo expôs as condições em que vivia: pagava 5.300 reais por mês em um pequeno estúdio no Upper East Side. Mas ela esclareceu que não estava sendo despejada, era ela que saía porque estava infestado de bichos. “É um senhorio de barracos, não tem classe, espero que tenha uma vida horrível”, declarou a atriz ao The New York Times.

Faye Dunaway e Warren Beatty, durante o famoso momento do Oscar com o envelope que continha o título de melhor filme e não era 'La La Land'
Faye Dunaway e Warren Beatty, durante o famoso momento do Oscar com o envelope que continha o título de melhor filme e não era 'La La Land'CORDON PRESS

Durante um voo, Dunaway encontrou Warren Beatty, que saiu de seu lugar na primeira classe para se sentar e conversar com ela na classe econômica. E justamente com Beatty protagonizou um dos episódios mais bizarros da Hollywood recente: o Oscar acidentalmente concedido a La La Land durante dois minutos e 19 segundos. “Faye nos mostrava em seu celular uma foto do cartão que deram a ela, temia que as pessoas culpassem sua idade pelo erro”, contou uma pessoa que estava na cerimônia. “Uma vez Warren disse que eu tinha classe”, lembrou Dunaway anos atrás. “E esse é o elogio que mais significou para mim”.

Se uma das grandes regras de uma diva do espetáculo é nunca se desculpar e justificar a si mesma, Dunaway a desobedeceu. Algumas vezes, como em uma conversa com o Los Angeles Times, lançou ao público algo parecido a uma mea culpa. “A tragédia de Hollywood, do cinema e das estrelas, é que você vive uma realidade intensificada em que experimenta o melhor de tudo [...] E quando se vive dentro de uma ilusão e a tiram, você não pode aceitar, porque a realidade te golpeia e te quebra. Te quebra”.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50