Sylvester Stallone, a ressurreição do grande perdedor de Hollywood

Criador de ‘Rocky’ e ‘Rambo’, que acaba de completar 75 anos, foi marginalizado pela indústria do cinema inclusive quando era o ator de maior bilheteria do mundo. Esta é a sua trajetória

Sylvester Stallone no filme ‘Rocky’ de 1976.
Sylvester Stallone no filme ‘Rocky’ de 1976.Cordon Press

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Quando era pequeno, Sylvester Stallone tinha tão poucos amigos que roubava dinheiro do pai para convidar os colegas para tomar Coca-Cola. Seu ídolo era o Superman e passava as tardes assistindo ao seriado estrelado por George Reeves. Como tantos garotos antes e depois dele, uma tarde colocou uma capa e pulou do telhado de sua casa. Ao cair no chão, quebrou a clavícula. O pai lhe deu um conselho que mais tarde incluiria no roteiro de Rocky: “Você nasceu sem muito cérebro, então é melhor começar a usar seu corpo”. Então Sylvester começou a levantar pesos com uma vassoura e dois blocos de cimento. As crianças riam de sua cara (o lábio torto é resultado de um fórceps mal aplicado durante o parto), de sua forma de falar arrastando as vogais e de seu nome. Durante a adolescência, se fazia chamar Mike, comprou um dicionário para aprender palavras novas e carregava o tempo todo um gravador no qual recitava poemas de Walt Whitman para melhorar a dicção. Stallone, que completou 75 anos no dia 6 de julho, nunca deixou de se sentir um marginalizado. Nem mesmo quando era a maior estrela do cinema em todo o mundo.

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“Meu pai me tratava como havia sido educado, com punho de ferro. E se comunicava dando bofetadas na boca”, explicou. Sua mãe, Jackie Stallone, definiu o ex-marido como “o homem mais sádico que Deus já permitiu nesta Terra” e afirmou que “açoitava Sylvester com um chicote de polo até sangrar”.

Aos 30 anos escreveu e estrelou Rocky, um melodrama sobre um boxeador que viajava das ruas para a glória graças à sua capacidade de resistir aos golpes. A campanha promocional apresentou Rocky como um alter ego de Stallone e anos depois, quando o ator ia filmar nas aldeias mais remotas da Tailândia, as crianças, as prostitutas e os leprosos se aproximavam dele como se fosse uma aparição. “Quando os espectadores aplaudem Rocky”, disse ele, “estão aplaudindo a si mesmos”.

Stallone durante a cerimônia do Oscar de 1977, na qual não ganhou nada.
Stallone durante a cerimônia do Oscar de 1977, na qual não ganhou nada. Getty

Diante das 10 indicações de Rocky, Stallone mandou fazer uma vitrine de veludo roxo para colocar seu hipotético prêmio Oscar. Não ganhou nenhum dos dois aos quais fora indicado (ator e roteirista), mas isso só contribuiu para alimentar a narrativa de que Sylvester Stallone, assim como Rocky, era o perdedor mais glorioso dos Estados Unidos. “Stallone se tornou rapidamente uma figura quase mitológica que representa uma fantasia de sucesso repentino”, disse na época a revista Variety. “Entrei em Hollywood pela porta de serviço”, explicaria ele depois. “Quando fui ao Oscar, minha gravata-borboleta se soltou e as pessoas disseram que era uma falta de respeito. Sempre pensaram que era um estúpido, embora tenha escrito todos os filmes de Rocky. Insultavam-me por causa dos personagens que interpretava”. Assim que alcançou a fama, a crítica o batizou de “o Orson Welles dos estúpidos” e uma produtora pornô relançou um filme erótico que Stallone fizera quando era tão pobre que teve de vender Butkus, seu cão. As estrelas e executivos de Hollywood organizavam sessões privadas para ver o filme, rebatizado de O Garanhão Italiano em homenagem ao apelido de Rocky Balboa.

Stallone pediu ao Sunday Times que o mostrasse lendo Shakespeare em sua foto de capa. Em seguida anunciou que faria todo o possível para estrelar Superman (o escolhido acabou sendo Christopher Reeve) e que estava trabalhando em um roteiro sobre Edgar Allan Poe. Depois de chegar à fama como perdedor, agora queria interpretar personagens que fossem “líderes dos homens”.

Mas em 1982 criou outro mito contemporâneo, o ex-boina verde traumatizado pela Guerra do Vietnã John Rambo, em Rambo – Programado para Matar, e foi adotado pelo presidente Ronald Reagan como símbolo do novo império norte-americano. Antes de ordenar o bombardeio da Líbia contra Kadafi, Reagan declarou: “Assisti Rambo, sei o que fazer”. Quando reformou os impostos, proclamou que “no espírito de Rambo, eu sei que vamos ganhar”.

Stallone representava uma virilidade tão hiperbólica que a crítica cinematográfica o tratou como uma piada (“Todos os seus filmes giram em torno de seu torso”; “é a estrela perfeita para aqueles que acreditam que o feminismo foi uma aberração”; “seu sucesso é tão inexplicável quanto a morte súbita de um bebê”) e ele mesmo acabou convertido em sua própria caricatura.

Os inimigos de Rocky nos episódios seguintes começaram a ser gente como Mr. T ou Hulk Hogan. Assim que aterrissava no Vietnã, em Rambo 2 – A Missão, Stallone era cercado por uma cobra que estrangulava sem nem mesmo olhar para ela. Mas quanto mais crescia a autoparódia, mais crescia a bilheteria: Rambo 2 e Rocky IV foram o segundo e o terceiro filmes de maior sucesso de 1985, ano em que Reagan foi reeleito na maior vitória eleitoral dos Estados Unidos nos últimos 85 anos. O ator terminou o ano casando-se com Brigitte Nielsen, uma dinamarquesa de 1,85 metro (oito centímetros mais alta do que ele), cuja primeira coisa que disse ao conhecê-lo foi que aquele era o sonho de sua vida.

Mas depois de 548 dias, divorciou-se de Nielsen porque viu À Meia-Luz e identificou-se com Ingrid Bergman. De repente percebeu que o mundo parecia se alegrar com esse fracasso, assim como os milionários se gabavam cada vez que o venciam em um leilão de arte ou em uma partida de polo. E então começaram as lendas urbanas em torno de Stallone: que ele injetava células de ovelha para permanecer jovem, que proibia as pessoas de assobiar perto dele (seu pai costumava assobiar antes de açoitá-lo), que tinha uma válvula hidráulica instalada no pênis e só tinha ereção movendo a axila.

“Nunca li tantas insinuações sexuais em torno de um divórcio como no meu”, denunciou o ator a respeito das piadas da imprensa. As declarações de Nielsen (“Às vezes é difícil se calar, mas não vou falar sobre a natureza de minhas relações íntimas com Sylvester por respeito a ele”) só deram combustível para a especulação. “Reconheço que tenho tendências masoquistas, tenho um limiar de dor muito alto”, confessou o ator como resultado dos anos de maus-tratos que sofreu quando criança.

Sylvester Stallone no festival de Cannes.
Sylvester Stallone no festival de Cannes.cordonpress

Depois de 10 anos em Hollywood, Stallone estava no auge do sucesso e mais longe do que nunca de conquistar respeito. Com exceção de Cobra, que se vangloriava de ter escrito em 16 dias, todas as suas tentativas fora das sagas Rocky e Rambo (Rhinestone – Um Brilho na Noite, uma comédia com Dolly Parton; Falcão – O Campeão dos Campeões, uma espécie de Rocky, mas com pulsos; ou Tango & Cash – Os Vingadores, uma cópia de Máquina Mortífera) eram ignorados, quando não ridicularizados, por um público que simplesmente assumiu que ele também era uma massa de músculos descerebrada.

Com a chegada dos anos noventa, anunciou sua aposentadoria oficial do cinema de ação, trocou as camisetas de lycra por ternos Versace e apostou em comédias familiares como Oscar – Minha Filha Quer Casar, ou Pare! Senão Mamãe Atira. Afinal, a transição para o humor de seu inimigo íntimo Arnold Schwarzenegger estava funcionando (Schwarzenegger contaria, anos depois, que lhe ofereceram Pare! Senão Mamãe Atira e o roteiro lhe pareceu tão horrível que fingiu interesse apenas para que Stallone se empenhasse em “roubar-lhe” o papel). Naquela época, ia a todos os lugares de óculos: queria se apresentar como um Clark Kent de si mesmo.

Aqueles foram os anos das festas grotescas em Hollywood (em uma delas Mickey Rourke acabou banhando-se na praia com duas lhamas), do estábulo com 30 pôneis e das coleções de arte. Para fazer parte do jet set, encheu sua mansão com 200 obras de artistas como Botero, Rodin, Monet, Chagall, Dali, Basquiat, Warhol e Bacon. Nas prateleiras, edições originais de Melville conviviam com Na Arena, de Richard Nixon, ou a autobiografia de Mr. T. E a única foto de casal que havia em sua sala era dele com seu pônei Uzi. Em uma entrevista à Vanity Fair preferiu falar sobre seus sentimentos em relação aos pôneis em vez de sobre as ex-esposas: “Uzi...” suspirava, “era um cavalo incrível. Emprestei-o a alguém e voltou incontrolável. Era hipersensível a quem o montava”.

Ele mesmo começou a pintar quadros de heróis (Hércules, Superman ou Errol Flynn) com os quais passava o tempo. “Recuso-me a acabar como James Brown, fazendo acrobacias aos 60”, proclamou. Mas em 1993, depois do retumbante fracasso de suas duas comédias, anunciou seu retorno aos filmes de ação com outra capa da Vanity Fair. Desta vez, emulava O Pensador de Rodin: não apenas exibia sua musculatura como a elevava à categoria de obra de arte.

Sylvester Stallone posa com a esposa e as filhas com seu Globo de Ouro em 2019.
Sylvester Stallone posa com a esposa e as filhas com seu Globo de Ouro em 2019. Steve Granitz

“Estou resignado a fazer filmes que se ajustem à minha imagem pública em vez de lutar contra ela”, disse. “Às vezes minhas aspirações excederam minhas habilidades. Eu gostaria de interpretar Edgar Allan Poe, mas ninguém poderia me aceitar como um frágil poeta que abordava a vida a partir da intelectualidade. As pessoas não aceitariam. Só esperariam que eu dissesse “Ei, você, Poe!”. Stallone admitiu que odiava levantar pesos três vezes por dia, mas sentia que se parasse de fazê-lo seria “como uma daquelas chatices tipo Dorian Gray” e que “em menos de uma semana pareceria o guardião da cripta”. “Não sei se me sinto assim por causa de uma tremenda insegurança ou por causa de um vazio insondável da minha infância que nunca vou satisfazer, mas sinto que estou incompleto”, confessou.

O sucesso de Risco Total e O Demolidor devolveu-o ao topo, mas acabou sendo uma miragem: O Especialista, Assassinos, O Juiz e Daylight não só fracassaram nas bilheterias como também evidenciaram que o público via Stallone como relíquia de um cinema, de um patriotismo e de uma virilidade rançosos que os anos noventa desejavam deixar para trás. E ele era o maior e mais risível expoente daquele passado.

Durante as filmagens de Daylight, Stallone percebeu que procurava havia vários anos sentir dor em suas cenas de risco, então voltou a pendurar os halteres e aceitou engordar para o drama Cop Land – A Cidade dos Tiras. O ator expressava sua frustração depois de duas décadas fazendo um tipo de cinema que o destruía fisicamente, o “castrava” (interpretava tipos durões, mas na verdade era um elemento decorativo em meio aos efeitos digitais) e o tinha transformado em “um estereótipo” do qual já não podia escapar e que também despertava zombaria no público e na indústria. Em 2000 ganhou um prêmio Razzie honorário de pior ator do século. E em 2002, depois dos fracassos de O Implacável, Driven e D-Tox, sua agência de representação (CAA, a mais poderosa de Hollywood) o despediu. Tinha 56 anos.

“Um artista morre duas vezes e a segunda [a morte física] é a mais fácil. Morte artística, o fato de você não ser mais relevante, é uma informação muito, muito difícil de assimilar. Aqueles da minha geração sentem que ainda têm muito a dar, mas ninguém lhes oferece oportunidade. São considerados obsoletos”, lamentou na época.

Stallone ficou quatro anos sem trabalhar, durante os quais percebeu que Rocky e Rambo eram “os únicos amigos” que lhe restavam em Hollywood. Rocky Balboa em 2006 e Rambo IV em 2008, escritos e dirigidos por ele, seduziram a crítica e, mais importante, atraíram as pessoas aos cinemas. Stallone ficou surpreso ao descobrir que a maioria dos espectadores estava na casa dos 30 anos: uma geração inteira havia crescido assistindo aos seus filmes na televisão e sentia uma admiração por ele livre de preconceito ou elitismo. Com esse impulso, Stallone decidiu aproveitar sua popularidade reciclada para lançar uma nova franquia. E desta vez ele não interpretaria um perdedor. Desta vez seria um líder dos homens: daria trabalho a todos os seus companheiros.

Stallone como John Rambo.
Stallone como John Rambo.

O título em português de Os Mercenários trai o meta-comentário do original (The Expendables, “os descartáveis”) porque nesse projeto Stallone, mais uma vez diretor e roteirista, convocou as outras estrelas do cinema de ação dos anos oitenta e noventa que Hollywood descartara quando deixaram de ser rentáveis sem lhes dar a chance de construir uma carreira madura (Rourke, Lundgren). Este tipo de “asilo das bofetadas” acolheria novos residentes em cada continuação: Willis, Schwarzenegger, Norris, Van Damme, Snipes, Banderas, Gibson. E depois de terminar a trilogia, Stallone recebeu as melhores críticas de sua carreira por voltar a interpretar Rocky Balboa em Creed: Nascido para Lutar.

Ao subir no palco para receber seu Globo de Ouro, voltou-se e ficou visivelmente surpreso ao encontrar a sala inteira de pé. Segundo o produtor da saga Rocky, Irwin Winkler, ver gente como Steven Spielberg ou Tom Hanks de pé foi especialmente gratificante: “Seria um grande momento para qualquer ator e com certeza o foi para Syl. Não acho que lhe tenham demonstrado respeito em 40 anos”. Mas três semanas depois perderia o Oscar. E mais uma vez Stallone foi o perdedor mais glorioso da noite. “Estou acostumado, assim como o Rocky, a me guiar pela mentalidade de não desistir”, explicou. “Ele entrou pela porta de serviço. Jantou com os trabalhadores, jantou com reis, mas no final da noite pagou a conta e saiu pela porta do serviço”. Por enquanto, continua dentro da festa: este ano aparecerá em O Esquadrão Suicida e em Samaritan, a história de um menino que descobre que seu ídolo, um super-herói que deram por morto há 20 anos, continua vivo. E está com seus poderes intactos.

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