Hollywood

Ódio sem freio: a história de oito grandes inimizades de Hollywood

Todo mundo já teve algum atrito com um colega de trabalho, mas nada parecido com o que acontece entre as estrelas

Roman Polanski dirige Faye Dunaway e Jack Nicholson em 'Chinatown' (1974). Diretor e atriz trocaram farpas na gravação.
Roman Polanski dirige Faye Dunaway e Jack Nicholson em 'Chinatown' (1974). Diretor e atriz trocaram farpas na gravação.

Quem não se dá bem com alguém no trabalho? Em Hollywood tudo é maior do que no mundo real: as emoções, os salários e as brigas. Agora as estrelas fazem comentários venenosos nas redes sociais e o público as incentiva por meio de curtidas, mas as inimizades entre celebridades existem desde que a própria fama existe.

A seguir, oito exemplos de que o star system também gosta de um bafafá.


1. Bette Davis versus Joan Crawford: o ódio é isto

Primeiro assalto. Bette Davis se apaixonou por Franchot Tone, seu parceiro em Perigosa (1935), e Joan Crawford se envolveu com ele durante as filmagens. “Nunca a perdoei e nunca o farei”, disse Davis 50 anos depois. “Ela o roubou de mim com frieza, deliberadamente e sem piedade”. Crawford se defendeu esclarecendo que Tone admirava Davis como atriz, mas nunca a viu como “uma mulher”. Desde então a rivalidade entre ambas se solidificou nessa competição entre a beleza de Crawford (mais estrela) e o prestígio de Davis (mais atriz).

Segundo assalto. Davis perdeu as estribeiras (“Joan dormiu com todas as estrelas masculinas da Metro Goldwyn Mayer, exceto com Lassie [a cadela]”, “eu não urinaria sobre ela nem que estivesse em chamas”), mas quando Crawford explodia era mais incendiária: colocou pedras nos bolsos para que Davis tivesse mais dificuldade em arrastá-la em uma cena de O Que terá acontecido a Baby Jane? (1962) e assim complicasse seus problemas nas costas, foi receber o Oscar em nome de Anne Bancroft para protagonizar a derrota de Davis (indicada no mesmo ano) e abandonou a rodagem do filme seguinte que fariam juntas, Com a maldade na alma, depois de uma semana por medo de que Davis conspirasse novamente contra ela e lhe roubasse os holofotes.

Nocaute. Como se trata da rivalidade mais lendária de Hollywood, é difícil separar os fatos da mitologia. Davis dizia por aí que Crawford sentia atração sexual por ela (Joan confessou a um amigo íntimo: “Eu não me importaria em transar com ela se me pegasse num dia bom”). Também não está confirmado que Davis realmente pronunciou a frase que pôs fim à rivalidade (no dia da morte de Crawford: “Nunca se deve falar mal dos mortos, somente bem... Joan Crawford está morta. Bem”), mas faz parte do show. E isso é algo que ambas faziam muito bem.

2. Tommy Lee Jones versus Jim Carrey: tudo explodiu em Batman Eternamente

Primeiro assalto. Tommy Lee Jones decidiu amortizar seu Oscar por O Fugitivo (1993), assim como Jack Nicholson e Danny De Vito haviam feito antes, levando prestígio à saga de Batman e se firmando como a estrela do show. Mas não esperava que a maior estrela do momento, Jim Carrey, lhe roubasse Batman eternamente (1995) diante de seu nariz. Então reagiu não falando com ele durante as filmagens.

Segundo assalto. Carrey não se rendeu e foi cumprimentar Jones quando se encontraram casualmente em um restaurante. Jones se aproximou com o rosto injetado de sangue, deu um abraço em Carrey e sussurrou: “Eu te odeio. Eu realmente não gosto de você”. Quando Jim perguntou a ele qual era o seu problema e cometeu o erro de ameaçar pegar uma cadeira para se sentar ao lado dele, Tommy Lee explodiu: “Não posso tolerar sua palhaçada!”, lembrou Carrey há dois anos no podcast de Norm MacDonald.

Nocaute. Os dois atores nunca mais se falaram, mas Carrey não guarda rancor. “Eu era a estrela do filme e isso era um problema, mas ele é um ator fenomenal e gosto dele. Talvez ele se sentisse desconfortável fazendo esse tipo de filme, não é o estilo dele”, disse Carrey no espaço de MacDonald. O diretor de Batman eternamente, Joel Schumacher, concorda que o motivo da rivalidade era pelo centro das atenções. “Tommy é, e digo isso com muito respeito, um rouba-cenas. Bem, de Jim Carrey não se pode roubar a cena. É impossível. E isso irritou Tommy”, disse ao portal Vulture.

3. Roman Polanski versus Faye Dunaway: “Esse filho da puta arrancou meu cabelo!”

Primeiro assalto. Já nos testes de maquiagem de Chinatown (1974), Roman Polanski (diretor do filme) irritou Faye Dunaway quando maquiou o rosto dela de maneira agressiva. “Esse pedaço de merda nunca queria falar comigo sobre minha personagem”, reclamou mais tarde a atriz. “Sua motivação é o seu salário, leia a porra das frases”, respondia-lhe o diretor, segundo contou o The New York Times.

Segundo assalto. Durante a gravação de uma cena, um fio de cabelo de Dunaway saía do lugar e por mais que o cabeleireiro tentasse domá-lo, voltava a sair do lugar, então Polanski se aproximou por trás e, sem avisá-la, o arrancou. “Esse filho da puta arrancou meu cabelo!”, berrou enquanto saía da filmagem. Ambos pediram o afastamento do outro, mas o produtor convocou uma reunião de emergência. Assim contou a revista Rolling Stone: “Questionaria meus próprios métodos se você não tivesse tido confrontos semelhantes com todos os seus diretores”, atacou Polanski. “E quem te disse isso? Otto Preminger? Não importa, você é um idiota”, retrucou Dunaway.

Nocaute. No livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, Peter Biskind conta a história (relatada pelo diretor de fotografia de Chinatown, John A. Alonzo) do dia em que a atriz passou horas dentro de um carro esperando para rodar. Polanski ignorou todos os seus pedidos de intervalo para ir ao banheiro e, quando se aproximou do carro para dar instruções, ela abaixou o vidro e jogou um copo de plástico cheio de líquido no rosto dele. “Filha da puta, é xixi!”, gritou o diretor. “Isso mesmo, inútil”, respondeu a atriz. Ela negou essa história que, no entanto, a perseguirá até o túmulo: alguns meses atrás foi despedida de uma peça poucos dias depois da estreia porque um membro da equipe a denunciou por supostos maus-tratos físicos e psicológicos enquanto tentava colocar uma peruca nela. É claro que o cabelo é uma zona de conflito para Dunaway.

4. Will Smith versus Janet Hubert: 25 anos brigando

Primeiro assalto. Em 1993, no final da terceira temporada de Um Maluco no Pedaço, Janet Hubert (intérprete da tia Viv) foi substituída por outra atriz. Falou-se em “diferenças criativas”, como sempre, mas Will Smith explicou que Hubert não suportava que toda a série girasse em torno dele (um rapper de 22 anos) quando ela passara a vida toda trabalhando. Alfonso Ribeiro, o ator que interpretava Carlton, ficou do lado de Smith e disse que Hubert enlouqueceu e tratava todo mundo muito mal, tornando as filmagens da série uma tortura para todos.

Segundo assalto. Há 25 anos Hubert ameaça contar “toda a verdade” sobre Smith e vai soltando detalhes em vídeos em suas redes sociais. Ela conta que pediu a ele que usasse seu poder para conseguir melhores salários para o resto do elenco (“meu contrato é coisa minha e o seu é coisa sua”, respondeu ele, sempre de acordo com Hubert), que Smith e Ribeiro riam de que sua cor de pele fosse a mais escura do elenco (“tão negra que quando olha para os sapatos pensa que está se olhando no espelho”, novamente de acordo com a versão da atriz), ou que Smith tentou eliminar uma cena em que ela aparecia dançando para que ninguém o eclipsasse. Hubert diz que sua carreira nunca se recuperou da demissão porque ficou com fama de louca, ninguém saiu em sua defesa e os executivos temiam sofrer represálias de Smith se a contratassem. E tudo começou, segundo ela, porque uma pesquisa de opinião mostrou que a personagem mais querida da série era a tia Viv.

Nocaute. Hubert continua atacando Smith (e a mulher dele) à menor oportunidade. Não escondeu seus problemas financeiros e chegou a postar um texto no Facebook no qual acusava Will Smith de destruir sua vida com suas mentiras. “Você ganhou, meu filho está no hospital. #tentativadesuicídio”, terminava a mensagem que apagou em minutos depois. Smith se recusa a falar sobre o assunto, limitando-se a elogiar o talento de Hubert.

5. Sarah Jessica Parker contra Kim Cattrall: “Suas contínuas mensagens são uma lembrança dolorosa do quão cruel você foi”

Primeiro assalto. Quando, em 1999, Sarah Jessica Parker (Carrie na série) conseguiu um aumento salarial (e um crédito como produtora-executiva) na segunda temporada de Sex and the City, Kim Cattrall começou a exigir mais dinheiro, em consonância com a enorme popularidade de seu personagem, Samantha. Essas tensões distanciaram as duas atrizes, enquanto suas colegas Cynthia Nixon e Kristin Davis ficaram do lado de Parker: elas se sentavam juntas no refeitório, nas cerimônias de prêmios e nos eventos, enquanto Cattrall aparecia sempre sozinha. “Somos as melhores amigas? Não, somos profissionais. Temos vidas separadas”, explicou Cattrall ao The Telegraph.

Segundo assalto. O resto dos atores coadjuvantes da série começou a mostrar animosidade contra Cattrall, cujas exigências financeiras complicaram a produção dos dois filmes derivados da série Sex and the City e acabaram cancelando o terceiro.

Nocaute. Depois da morte do irmão de Cattrall, Parker postou uma mensagem no Instagram dando-lhe as condolências. Kim Cattrall respondeu na mesma rede social: “Minha mãe me perguntou hoje: ‘Quando é que essa hipócrita da Sarah Jessica Parker vai te deixar em paz?’. Suas contínuas mensagens são uma lembrança dolorosa do quão cruel você foi na época e continua sendo agora. Vou deixar isso MUITO claro (se é que já não o fiz): você não é minha família. Não é minha amiga. Então, estou escrevendo pela última vez para parar de explorar nossa tragédia para reinstalar sua imagem de garota simpática”. Parker chegou a declarar que pensou que a conta de Cattrall tivesse sido invadida, mas depois de verificar que não era o caso preferiu não comentar o assunto.

6. Nick Nolte versus Julia Roberts: gélidas cenas românticas

Primeiro assalto. Desde o primeiro dia de filmagem de Adoro Problemas (1994), Julia Roberts não gostou dos constantes comentários machistas de seu colega, Nick Nolte, a ponto de terem se recusado a filmar juntos. Como era uma comédia romântica, essa situação levou o diretor a montar a maioria de suas cenas em plano/contraplano usando dublês de costas.

Segundo assalto. Durante a promoção do filme, a atriz não escondeu sua relação ruim com Nolte, descrevendo-o ao The New York Times como “às vezes completamente encantador e agradável, mas também completamente repugnante; parece se esforçar para repelir as pessoas”.

Nocaute. Nolte simplesmente respondeu: “Julia não é uma pessoa agradável. Todo mundo sabe disso”.

7. R2D2 versus C3PO: casados em ‘Star Wars’

Primeiro assalto. A amizade entre R2D2 (Kenny Baker) e C3PO (Anthony Daniels), com suas constantes discussões quase dignas de briga de casal, é a verdadeira espinha dorsal da saga Star Wars: eles são os únicos que aparecem nos nove filmes. “A verdade é que nunca interagimos”, disse Daniels ao Express. “Ele estava em uma caixa, ele não podia me ouvir, não podia falar. George Lucas só gritava para nós: ‘Olhem para a esquerda’ ou ‘Olhem para a direita’. E tive de trabalhar muito para acreditar que aquele objeto era meu melhor amigo. Era como conversar com um balde.” A verdade é que os atores quase não estiveram juntos nas filmagens: Daniels demorava uma hora para vestir a roupa dourada de C3PO e Baker colocava a de R2D2 em cinco minutos.

Segundo assalto. Baker disse que Daniels não se relacionava nem se dava bem com ninguém nas filmagens (“se você perguntar, ninguém terá nada de bom a dizer sobre ele”, afirmou), mas que ainda assim tentou convencê-lo a participarem juntos das convenções de fãs. “Se ele relaxasse e socializasse com os outros, poderíamos ter ganhado bastante dinheiro participando de convenções. Pedi isso a ele quatro vezes, mas respondeu que não fazia essas coisas e terminou com: ‘Me deixe em paz, anão’. Foi degradante. Ele é mal-educado com todos, inclusive com os fãs”, disse Baker em uma entrevista ao Metro em 2009.

Nocaute. Quando Daniels finalmente concordou em participar de um evento de fãs de Star Wars, Baker disse que “se sua alteza das bolas douradas” comparecesse, ele não iria. Baker reconheceu que nunca entendeu qual era o problema de Daniels: “A única explicação que encontro é que ele se considera a melhor coisa que aconteceu com George Lucas enquanto eu sou um zé ninguém que opera os controles de um robô, mas não acrescenta nada em termos de interpretação”. Em 2015, por ocasião da estreia de O Despertar da Força, Daniels disse que Baker não participava mais das rodagens porque o R2D2 era manipulado por controle remoto, mas continuava aparecendo nos créditos por cortesia e como um talismã que trazia sorte à franquia. Baker morreu um ano depois, aos 81 anos, e Daniels tuitou “Estou triste pela morte de Kenny”.

8. Sylvester Stallone versus Richard Gere: às cotoveladas

Primeiro assalto. Em 1974, os dois então desconhecidos atores ensaiavam Os Lordes de Flatbush quando Stallone se abrigou do frio do Brooklyn em um Toyota para comer um cachorro-quente. Então Gere entrou no carro com um frango coberto de mostarda. “Você vai manchar tudo”, avisou Stallone, mas Gere o ignorou. “Se manchar minhas calças você vai ver”, insistiu Stallone. Quando Gere mordeu o frango e a mostarda espirrou nas calças de Stallone, este lhe deu uma cotovelada na cabeça e o colocou para fora do carro. Assim contou o próprio Stallone no programa Ain’t It Cool News.

Segundo assalto. “Nunca nos damos bem”, confirmou Stallone em Ain’t It Cool News. “Richard se pavoneava com sua jaqueta e sua motocicleta desproporcionalmente grande. Se comportava como um metido”, acrescentou. O diretor acabou optando por substituir Gere por Perry King para acabar com os problemas.

Nocaute. Em uma reviravolta delirante dos acontecimentos, Stallone continua dizendo que, mais de 40 anos depois, Gere ainda está convencido de que foi ele quem criou uma das lendas urbanas mais grotescas de Hollywood: “Hoje continuo lhe caindo muito mal. Inclusive acredita que sou responsável por espalhar o boato de que tiraram um hamster vivo do ânus dele. Não é verdade. Mas o boato diz que sim”.


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