Música

Como Mbé, Luan Correia apresenta ao Brasil os sons de um país visto do morro

Negro, nascido e criado na favela, o produtor marca lugar de originalidade na música experimental carioca com o álbum ‘Rocinha’, feito a partir de colagens que incluem cantos indígenas, falas de ativistas como Lélia Gonzalez e versos de Jean-Paul Sartre

Luan Correia, músico que assina como Mbé, com a Rocinha ao fundo.
Luan Correia, músico que assina como Mbé, com a Rocinha ao fundo.Vitor Granete

Mais informações

A história começa como milhões de outras do Brasil: negro, nascido e criado na Rocinha (maior favela do Brasil, com sua população estimada em 120.000 habitantes), Luan Correia mirava ser jogador de futebol. Porém, num desvio das expectativas impostas pelas estatísticas e pelo racismo, ele se entranhou na reduzidíssima cena de música experimental carioca e acabou se tornando Mbé, nome com o qual assina o recém-lançado disco Rocinha (Selo QTV). Um trabalho que, em pouco mais de 23 minutos (e sete faixas), traça um ensaio histórico-político-estético sobre o negro brasileiro, a partir de colagens sonoras. Os samples (fragmentos de gravações) que utiliza no álbum incluem cantos de indígenas do Xingu e de pigmeus da África Central; falas de ativistas do feminismo negro como Lélia Gonzalez e Maria Beatriz Nascimento; o free jazz do baterista holandês Han Bennink ; a voz de Clementina de Jesus; acordeons do interior de Pernambuco gravados por Mário de Andrade; a arte sonora vanguardista do japonês Rie Nakajima; os tambores do candomblé mineiro. Tudo amarrado numa arquitetura tão orgânica e inventiva quanto a da favela que o batiza.

“A Rocinha é muito densa, tem muita informação. O disco também é assim. Na Rocinha tudo corre muito rápido, o disco também tem essa coisa de ser curto, rápido. Você tem na Rocinha a cultura urbana do Rio mas também tem a cultura nordestina, tudo muito misturado. Cresci ouvindo forró eletrônico em meio ao pagode e ao funk”, explica o artista de 25 anos, notando que o nome do disco surgiu quando ele já estava quase pronto: “Vi que tudo que coloquei ali foi pensado a partir da minha vivência na Rocinha” (ele morou na favela até os 22 anos).

O caminho que levou o projeto de jogador a se tornar artista, pesquisador, produtor e engenheiro de som, ainda mais dentro de um nicho musical tão branco, foi determinado tanto por sua aptidão pessoal como pela geopolítica morro-asfalto do Rio —que ao mesmo tempo que permite pontos de contato entre diferentes realidades sociais, reafirma a diferença ao evidenciar o caráter de exceção. Numa realidade diversa de seus colegas da Rocinha, Luan teve sua primeira formação musical (para além do funk, do pagode e do forró) num ambiente de classe média.

“Minha mãe não ouvia rádio, tinha poucos CDs em casa. Mas eu ouvia muita música na casa dos meus padrinhos, em São Conrado [a mãe de Luan os conhecera ao trabalhar como babá de um dos filhos do casal]. Convivi muito com eles, desde que nasci. Passava muitos fins de semana e férias lá. Meu padrinho me apresentou Beatles, Van Halen, Pink Floyd, Queen, Tears for Fears… Rock clássico em geral, incluindo coisas nacionais, como Barão Vermelho”, conta.

Por volta dos 15 anos, Luan adquiriu seu primeiro MP3 player e começou a baixar a discografia de bandas como Arctic Monkeys e Stereophonics. Na mesma época, começou a fazer amizades com músicos de bandas do circuito indie carioca. “Conheci Tomé (Lavigne), do Os Azuis, Gabriel Guerra, do Dorgas, Guilherme Lírio, do Exército de Bebês... Eles estudavam na Escola Parque, com os filhos dos meus padrinhos”, diz o artista, expondo outro desdobramento em sua história dessa relação da Zona Sul carioca entre morro e asfalto. Não que aquele ambiente não fosse dele, porque era —assim como a Rocinha.

“O filho do meu padrinho é um dos meus melhores amigos, e sempre convivi com aquela galera. Mas a hora da volta pra casa é sempre uma marca. A galera ia pro condomínio, e eu ia subir o morro”, lembra. Da mesma forma, quando já pensava em fazer música, tinha dificuldade de se projetar naquele lugar do artista: “Todas as bandas de rock que eu ouvia eram de pessoas brancas. Por mais que eu curtisse, realmente não me via fazendo parte daquilo. Eu sempre estava meio deslocado. Recentemente, me toquei que tinha um sentimento que me confortava lá no fundo e batia como uma esperança: Jimi Hendrix, o melhor de todos os tempos na guitarra, esse instrumento tão simbólico do rock, era um cara preto”.

Capa de 'Rocinha', a foto 3x4 da mãe de Luan Correia, extraída de sua Carteira de Trabalho.
Capa de 'Rocinha', a foto 3x4 da mãe de Luan Correia, extraída de sua Carteira de Trabalho.Divulgação

Palco aberto para uma fervente nova cena carioca ligada sobretudo ao experimental (e recebendo artistas de fora do Rio com o mesmo compromisso com o novo), a Audio Rebel (misto de estúdio e casa de shows) se firmava como referência na cidade. Era natural, portanto, que o caminho de Luan o levasse até lá. “Quando vi meu primeiro show lá, aos 17 anos, decidi que queria trabalhar com música. Mandei um e-mail para eles dizendo que gostava de música, não sabia nada tecnicamente, mas gostaria de aprender e trabalhar lá”. Pedro Azevedo, dono do espaço, respondeu que não estavam precisando de funcionários, mas que ele podia ir lá conhecer a casa.

“No dia marcado fui, mas foi na semana que rolou o incêndio na boate Kiss [a tragédia, em 2013, provocou a mudança de legislação e a necessidade de adaptação das casas noturnas em todo o Brasil]. Ou seja, dei com a cara na porta. Mas voltei alguns dias depois e encontrei Pedro construindo um espaço para a técnica, nos fundos. Acabou que meu primeiro trabalho na Rebel foi quebrar uma parede.”

Começava ali a formação que duraria até 2020 e desembocaria em Mbé (palavra em iorubá que significa “ser” e “existir”). Na Audio Rebel, Luan pôde assistir a shows de artistas dos mais diversos (alguns presentes em Rocinha, como Juçara Marçal, Orlando Costa e Luizinho do Jêje), aprendeu sobre som e equipamentos, além de estabelecer uma rede de trocas fundamental para o caminho que iria traçar —artistas como José Mekler, com quem montou o duo Ó Só (de free noise, gênero marcado pela incorporação radical do ruído), e wellNinja, com quem colabora no coletivo de rap Justa Causa, da Baixada Fluminense.

Foi lá também que conheceu Bernardo Oliveira, que assina com ele a produção de Rocinha. “Bernardo me ajudou demais com minha pesquisa sobre o movimento negro brasileiro. Através dele, conheci Abdias Nascimento [o ator, dramaturgo e ativista], Lélia Gonzalez, o MNU [Movimento Negro Unificado], a história de Zumbi de maneira mais profunda... Tudo isso se ligava com as pesquisas musicais que eu vinha fazendo”, conta Luan. “Nas várias vezes em que tentei formar bandas de rock, eu quase nunca estava inteiro. Não era meu lugar. Já com essas pesquisas, era tudo muito natural. Eu estava fazendo uma música minha. Música preta de favela.”

Luan, apesar de tocar bateria, desenvolveu sua linguagem a partir dos samples. A pesquisa, portanto, é parte central de seu processo criativo. Suas primeiras experiências foram na tentativa de criar ritmo a partir de trechos de fala. Aos meus, faixa que abre Rocinha, é fruto desse procedimento. Ali, os cacos de fala “oportunidade pra cor escura” e “eles não dão” se repetem, entremeados por sons que simulam tiros. Um verso de Jean-Paul Sartre, na voz de Antônio Abujamra, atravessa seco: “O que vocês esperavam que acontecesse quando tiraram a mordaça que tapava essas bocas negras?.”

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Sua investigação se moveu também para o terreno da música eletroacústica (da vanguarda clássica), que acabou levando-o à etnomusicologia, onde ele descobriu as gravações de campo —o que se tornaria o norte de seu trabalho como Mbé. “Comecei a buscar muita coisa de música africana e brasileira. E, nessas gravações, gostava muito das sujeiras, do barulho das aldeias. Porque os microfones nunca eram os melhores, então vazava muita coisa do ambiente: criança, galinha, conversas… Isso tem o poder de te transportar para aquelas situações, eu queria isso com a minha música: criar situações, ambientes, que jogam luz sobre nossa história”. Situações de real inventado, como na faixa Celebração do Xingu ao Congo, na qual imagina um encontro que, naqueles moldes, nunca aconteceu entre povos indígenas e africanos. “É muito doloroso pensar porque esse encontro nunca se deu”, diz.

“Essas gravações de campo misturadas com artistas de jazz, tudo se mistura de uma maneira muito orgânica, nesse nosso passado negro amefricano, pra usar o conceito de Lélia Gonzalez”, avalia o produtor. Um passado presente, como retrata o disco. “Quando você conhece a história de Palmares, vê que as reivindicações são as mesmas até hoje”, nota Luan, que reflete sobre o tom de serenidade que predomina em Rocinha, a despeito de sua contundência: “É como ver um grupo tocando tambor. Tem a beleza ali, mas tem um lugar que está sempre marcado pelo respeito à luta.”

Passado presente, beleza e respeito à luta são sintetizados na capa de Rocinha: a foto 3x4 da mãe de Luan, extraída de sua Carteira de Trabalho. “Ela veio pro Rio com 15 anos, saída de Feira de Santana, chegou na Rocinha com 19. Isso continua acontecendo até hoje. Ali na foto dela está a Rocinha, está a minha casa, meu quarto onde processei as ideias do disco”. Mbé sabe, como Luan sabia depois de sair com os amigos dos condomínios de classe média, que a identidade se define sobretudo no ato de voltar pra casa.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50