Bolsonaro põe à prova o código de honra sobre a vacina da covid-19 que a ONU exige aos líderes

Presidente, que oficialmente não está imunizado, viaja neste domingo a Nova York e na terça será o primeiro orador na sessão inaugural

O presidente Bolsonaro no dia 15, no Palácio do Planalto..
O presidente Bolsonaro no dia 15, no Palácio do Planalto..Eraldo Peres (AP)
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O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é um dos líderes mundiais que decidiu viajar a Nova York para participar da assembleia geral das Nações Unidas na próxima semana, apesar da pandemia. Mas, ao contrário da grande maioria de seus congêneres ao redor do mundo, o brasileiro despreza a eficácia das vacinas. Bolsonaro, que teve covid-19 sem efeitos graves, novamente proclamou na terça-feira passada a seus seguidores que não havia sido vacinado. A ONU exige que todos os convidados para o grande evento anual da diplomacia mundial sejam vacinados, mas não pedirá certificado. Confia num código de honra, a palavra de cada presidente.

Nem o ultradireitista nem sua equipe explicaram como resolverão o aparente conflito com os regulamentos impostos por ocasião da pandemia. Será vacinado mesmo que não o tenha admitido? Vai se vacinar antes de viajar para Nova York? O que se sabe é que Bolsonaro será o primeiro orador. Como é tradição, o discurso do presidente do Brasil abrirá a sessão solene, privilégio que o país conquistou por sua tradição de não alinhado. “Viajo no domingo, faço o discurso de abertura na terça e depois volto”, ele proclamou nesta quinta-feira em seu discurso semanal no Facebook e no YouTube, onde suas intervenções são geralmente feitas sob medida para seus incondicionais seguidores.

Ainda que Bolsonaro tenha promovido medicamentos ineficazes e um discurso antivacinas durante toda a pandemia, os brasileiros confiam nos imunizantes e estão se vacinando a um ritmo muito bom. 37% dos adultos receberam ambas as doses; e 69% já têm a primeira, apesar da letargia do governo federal ter pesado no início da campanha. A pandemia causou sérios danos ao Brasil, o segundo país com mais mortes atrás dos Estados Unidos e o oitavo em mortes per capita. O coronavírus já matou quase 600.000 pessoas e 10% dos 210 milhões de habitantes foram infectados.

Bolsonaro não está oficialmente vacinado. O assunto é polêmico, entre outros motivos, porque o chefe de Estado impôs cem anos de sigilo oficial sobre seu registro de vacinação há muitos meses. A pressão dentro do gabinete era tão intensa que um de seus ministros foi se imunizar secretamente. E uma das declarações de Bolsonaro - “se você virar jacaré [se for vacinado], é problema seu”, disse ele no final do ano passado. A frase alimentou milhares de memes e é a piada mais repetida nesta pandemia. Muitos foram se vacinar disfarçados de répteis.

O líder de extrema direita avisou nesta quinta-feira que em seu discurso vai explicar “as verdades do Brasil”, mas sem elaborar muito mais. Ele apenas adiantou que vai citar o julgamento do marco temporal, que nas últimas semanas vem sendo debatido pelo Supremo Tribunal Federal e que afeta plenamente o direito dos indígenas de reivindicar as terras que seus ancestrais habitavam e, consequentemente, o potencial de expansão agrícola, muito lucrativa para o bilionário setor agrário. Bolsonaro defende a priorização da produção da agricultura sobre os direitos dos descendentes dos indígenas e sua eficácia na proteção do meio ambiente e na mitigação da crise climática. O Brasil de Bolsonaro se tornou um vilão ambiental devido ao aumento do desmatamento na Amazônia e à proliferação de queimadas para expansão do pasto.

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