Merkel deixa o Brexit para trás para oferecer ao Reino Unido um “novo capítulo” em sua relação bilateral

Em sua última visita oficial a Boris Johnson, a chanceler alemã defende uma solução pragmática para o conflito entre Londres e Bruxelas sobre o Protocolo da Irlanda do Norte

Boris Johnson recebeu nesta semana Angela Merkel na residência oficial de Chequers.
Boris Johnson recebeu nesta semana Angela Merkel na residência oficial de Chequers.David Rose/Daily Telegraph / GTRES

Angela Merkel conheceu vários primeiros-ministros britânicos em seu longo mandato como chanceler da Alemanha. Nada indica que Boris Johnson seja um de seus favoritos. Embora isso não tenha impedido a veterana política de demonstrar mais uma vez, em sua vigésima-segunda visita ao Reino Unido, o pragmatismo silencioso que exibiu nos últimos 16 anos. Convencida de que é preciso deixar para trás o bloqueio de anos de tensão em torno do Brexit, Merkel apostou claramente em abrir uma linha de cooperação bilateral com Londres: “Agora que o Reino Unido saiu da UE, é uma boa oportunidade para iniciar um novo capítulo na nossa relação”, disse nesta sexta-feira.

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Johnson era o primeiro interessado em extrair da visita a mensagem de que seu país não se tornou um pária internacional, obrigado a passar pelo guichê de Bruxelas sempre que necessitava algo da Europa. Recebeu Merkel, com todas as honras, na residência de descanso dos primeiros-ministros britânicos, em Chequers, e organizou uma conferência virtual da chanceler com todos os membros de seu Gabinete. Foi a primeira vez em 24 anos que tal deferência foi oferecida a um dignitário estrangeiro, depois do ex-presidente norte-americano Bill Clinton. “Durante todo esse tempo, você manteve seu compromisso com a relação germano-britânica. Como você disse uma vez, compartilhamos os mesmos valores. E muito mais do que isso”, disse Johnson a sua convidada na coletiva de imprensa conjunta.

O primeiro-ministro encarregou-se de lembrar que a Alemanha é o segundo parceiro comercial do Reino Unido; que três quartos de milhão de britânicos trabalham para empresas alemãs e vice-versa; e que um em cada cinco motoristas britânicos senta-se ao volante de um carro alemão todos os dias. Johnson sendo Johnson, não pôde evitar, no início de sua intervenção, mencionar a derrota da seleção alemã para a inglesa nas oitavas de final da Eurocopa, na terça-feira. “Obviamente, não foi uma oferta voluntária para facilitar esta reunião”, disse a chanceler, continuando a brincadeira, “mas agora desejo o melhor para a seleção inglesa na próxima fase”.

Os dois dirigentes anunciaram o lançamento, a partir de 2022, de uma reunião anual conjunta de seus respectivos Gabinetes.

Mesmo no assunto mais delicado na relação entre Londres e Bruxelas, o Protocolo da Irlanda do Norte, Merkel mostrou seu lado mais conciliador. Defendeu a necessidade de manter o acordo internacional alcançado depois de duras negociações, mas também expressou sua convicção de que “podem ser encontradas soluções pragmáticas que sejam aceitáveis para ambas as partes e respeitem a integridade do mercado interno da UE”.

Dois dias antes da reunião entre Johnson e Merkel, os ministros das Relações Exteriores de ambos os países assinaram uma declaração conjunta de cooperação em política externa e segurança de enorme importância. O primeiro sinal de uma nova bilateralidade entre Londres e Berlim, que dividem preocupações e objetivos comuns em questões como a ameaça da China, a mudança climática ou a necessidade de compartilhar respostas a novas crises humanitárias. “Precisamos fortalecer nossa cooperação em áreas como energia, tecnologia e cultura. E estou preocupada que as relações entre os jovens alemães e britânicos possam se perder depois do desaparecimento de um programa tão relevante como o Erasmus”, anunciou Merkel.

Bruxelas e Londres concordaram esta semana em estender por mais três meses a prorrogação do prazo para ajustar os controles alfandegários de determinados produtos que viajam da Grã-Bretanha para a Irlanda do Norte. A tensão em torno dessa questão, que chegou a contaminar a cúpula do G-7 na Cornualha em meados do mês passado, azedou ainda mais a relação entre os dois blocos, a ponto de uma guerra comercial parecer iminente. Se naquela cúpula Johnson usou um tom desafiador e insolente ao dizer que “teria de colocar na cabeça dos europeus que a Irlanda do Norte pertence ao Reino Unido”, o primeiro-ministro usou um tom muito mais conciliador na presença de Merkel. Não pôde evitar, em todo caso, seus habituais gracejos e lançou mão das bratwurst alemãs para explicar o problema que os tabloides britânicos apelidaram de “guerra das salsichas” (um dos produtos ameaçados com tarifas era a carne congelada): “Imaginem que as bratwurst não pudessem ser levadas de Dortmund para Düsseldorf devido à jurisdição de um tribunal internacional. Isso lhes pareceria algo extraordinário”, disse. “Mas tenho certeza, como Angela disse, que com paciência e boa vontade poderemos resolver isso.”

A mensagem que a chanceler queria transmitir naquela que seria sua última visita ao Reino Unido ficou clara. Às perguntas de jornalistas alemães, que a lembraram que o interlocutor mais indicado para Londres deveria ser a Comissão Europeia, Merkel insistiu na vocação comunitária da Alemanha e na necessidade de que os 27 parceiros permaneçam unidos com uma só voz. Mas ao mesmo tempo deixou claro que o Brexit abriu um novo tempo, para o qual será necessário buscar novas soluções e usar o bom senso. “A Alemanha sempre fará parte da UE”, disse a chanceler, “mas é natural que, depois do Brexit, as relações entre os dois países sejam fortalecidas”.

Downing Street evitou levar a brincadeira ao extremo, oferecendo a Merkel um menu de torta inglesa de aspargos, filé de vitela Oxfordshire e torta de creme assada. Nada de salsichas. A chanceler concluiu sua visita com um encontro privado no castelo de Windsor com a rainha Elizabeth II.

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