Quarentena em São Paulo

Doria adota toque de recolher em São Paulo e restringe igrejas, praias e parques

Estado de São Paulo já apresenta colapso hospitalar em 53 municípios e ocupação geral dos leitos de UTI chegou a 87,6%. Não se deverá circular entre 20h e 5h, salvo em casos de necessidade absoluta

João Doria, governador de São Paulo, e Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde, em coletiva no Palácio dos Bandeirantes.
João Doria, governador de São Paulo, e Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde, em coletiva no Palácio dos Bandeirantes.Governo de São Paulo

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O governador de São Paulo, João Doria, anunciou nesta quinta-feira (11) o endurecimento da quarentena em todo o Estado. A partir de segunda-feira (15), todas as regiões estarão sob medidas mais restritivas por 15 dias, tempo necessário, segundo o Governo, para que as medidas comecem a surtir efeito. Haverá toque de recolher entre 20h e 5h, restrições para igrejas, incluídas recentemente no rol de atividades essenciais do Estado, e de atividades esportivas, e a proibição do uso de praias e parques. A estimativa é que 4,5 milhões de pessoas deixem de circular na região metropolitana de São Paulo.

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Na nova fase, terão restrição completa os serviços de retirada em todos o setores, como o de alimentos —só drive-thrus poderão funcionar, não se poderá mais retirar no próprio local. Lojas de material de construção, celebrações religiosas coletivas, e atividades esportivas coletivas também estão vetadas. Haverá tele-trabalho obrigatório para atividades administrativas não essenciais, incluindo escritórios privados e órgãos públicos. Também se recomenda o uso de máscaras tanto em ambientes externos como os internos, incluindo em pequenos encontros dentro de residências. Entre 20h e 5h, só se deverá circular em caso de necessidade absoluta, e aglomerações ficam proibidas. Escolas da rede estadual só permanecerão abertas para alimentação e distribuição de materiais, com agendamento prévio. A recomendação também foi dada para a rede privada, que é independente para tomar sua própria decisão. A rede estadual também terá antecipados os recessos de abril e outubro para 15 a 28 de março. “Se necessário, vamos adiantar as férias também”, declarou o secretário de Educação, Rossieli Soares.

O Governo ainda recomendou horários de entrada de trabalhadores no transporte público com o objetivo de evitar aglomerações. A sugestão é para que trabalhadores de indústria usem o serviço das 5h às 7h; os de serviços vão das 7h às 9h; e os do comércio utilizem das 9h às 11h. “Não podemos só ampliar leitos. Estamos fazendo e vamos ampliar mais, mas todos fazem parte e são responsáveis”, justificou o secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn. “A situação continuou piorando após a fase vermelha e são necessárias novas medidas restritivas. Não buscamos cercear a vida, buscamos proteger. E a ciência tem mostrado como se faz isso”, acrescentou Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência.

A medida foi anunciada um dia depois de o Governo afirmar que 32 municípios paulistas estão com seus sistemas de saúde colapsados, com 100% dos leitos ocupados. Os dados faziam referência a um retrato da última segunda-feira. Nesta quinta-feira, segundo o Governo, este número aumentou para 53. Na coletiva em que anunciou as medidas, Doria iniciou sua fala mostrando um vídeo, que aponta diversas unidades de saúde do Estado em que a ocupação dos leitos já chega a 100%. “Não há mais profissionais para abrir mais leitos”, afirmou ele, que relutou a adotar medidas restritivas antes, mesmo sob os apelos de especialistas. Agora, ele afirmou que as medidas adotadas são necessárias, “mesmo que isso custe a popularidade” dele.

Jean Gorinchteyn, secretário da Saúde, apontou que 2.046 pessoas aguardam na fila por um leito no Estado e há uma média de 150 novas internações em UTI por dia no Estado, que tem atualmente 9.144 pacientes internados. A taxa de ocupação das UTIs no Estado atualmente é de 87,6% e de 86,7% na Grande São Paulo. A média diária de hospitalizações nesta semana está em 2.379 (9,8% a mais que na semana passada), enquanto a média diária de óbitos é 12,3% maior que na semana anterior: 319. Desde o início da pandemia, São Paulo soma 2.164.066 casos e 63.010 mortes pelo novo coronavírus. “A velocidade da pandemia está muito mais rápida, acometendo um maior número de pessoas num curto espaço de tempo, vários de nossos hospitais já estão comprometidos”, disse ele. “É a maior crise sanitária de todos os tempos”, complementou.

Antes da coletiva, João Doria antecipou que anunciria medidas mais restritivas em vídeo divulgado nas suas redes sociais. “O Brasil está colapsando e, se nós não frearmos o vírus, não será diferente em São Paulo. Teremos que adotar medidas mais restritivas. É a única forma, neste momento, para conter a aceleração de mortes”, disse. “Nenhum governante gosta de parar as atividades econômicas”, admitiu.

Especialistas que integram o Centro de Contingência do Estado já vinham pressionando há semanas por medidas restritivas mais duras, mas só no início deste mês o governador cedeu e colocou todo o Estado na fase vermelha, com permissão apenas para o funcionamento de atividades essenciais, como por exemplo supermercados, transporte coletivo e farmácias. No entanto, escolas, igrejas e esportes, que fecharam na primeira vez que o Governo estabeleceu a fase vermelha, estavam abertas. O decreto com estas normas teria validade até o dia 20 de março, mas as medidas foram consideradas insuficientes, já que as taxas de hospitalização e de novos casos de covid-19 seguiram altas.

As novas restrições implicam na paralisação do campeonato paulista de futebol, o maior torneio estadual da categoria no país. O Paulistão, como é conhecido, teve três rodadas disputadas desde quando voltou em 27 de fevereiro, e tem previsão de acabar em maio. No ano passado, a competição foi interrompida em 16 de março e só retornou mais de quatro meses depois. Nesta quarta, o Palmeiras enfrenta o São Caetano no Allianz Parque, em São Paulo, às 19h (horário de Brasília). E, no próximo fim de semana, está programada toda a quarta rodada do torneio, uma vez que a paralisação começa na segunda (15). Federação Paulista de Futebol (FPF) e clubes ensaiaram uma queda de braço com o Governo ao defender que o protocolo sanitário do futebol seria seguro, mas Doria optou por ceder à pressão dos especialistas do Centro de Contingência.

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