Pandemia de coronavírus

Voluntários da vacina Oxford-AstraZeneca cobram quebra de sigilo de estudo para poder se imunizar

Participantes de ensaio clínico no Rio e em Salvador, muitos da linha de frente do combate à covid-19, não sabem se tomaram placebo ou foram vacinados e temem ficar sem Coronavac. “Pensei muito e resolvi tomar”, diz fisioterapeuta de UTI

Leonardo Costa foi voluntário nos testes da vacina de Oxford, mas não sabe se tomou placebo ou vacina.
Leonardo Costa foi voluntário nos testes da vacina de Oxford, mas não sabe se tomou placebo ou vacina.FABIO MOTTA

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Quatro mil voluntários da vacina Oxford-AstraZeneca no Brasil, todos profissionais de saúde do Rio e de Salvador, não puderam ainda ser imunizados pela vacina chinesa Coronavac, a primeira disponibilizada para grupo prioritários no país, porque ainda não receberam a informação se tomaram vacina ou placebo no ensaio clínico de que participaram ―metade dos voluntários recebeu a vacina e a outra, placebo. O responsável pelo estudo na vacina de Oxford-AstraZeneca nas duas capitais é o Instituto D´Or de Pesquisa e Ensino (ID´Or), da rede de medicina privada D´Or, que recomendou a todos os participantes não receberem imunização de outro fabricante. A situação atinge 1.500 profissionais da saúde no Rio e 2.500 na capital baiana. São médicos, enfermeiros e fisioterapeutas. Muitos atuam na linha de frente da covid-19 e, diante da pouca disponibilidade de vacinas, a falta da quebra do sigilo da pesquisa tem gerado muita angústia.

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Voluntário da vacina Orxford-AstraZeneca, Leonardo Costa, de 41 anos, é fisioterapeuta de UTI e trabalha como coordenador assistencial no Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio. Atua ainda no Hospital Municipal Souza Aguiar, na região central da cidade, diretamente no tratamento de pacientes graves infectados pelos vírus. Costa decidiu tomar a Coronavac na quinta-feira mesmo sem saber se havia tomado placebo ou a vacina de Oxford-AstraZeneca. O fisioterapeuta é um profissional essencial na UTI de covid-19 porque é quem faz os ajustes de oxigênio no paciente intubado.

“Tive disponível a Coronavac nos dois hospitais que trabalho, pensei muito e resolvi tomar, optando por tomar no Hospital de Bonsucesso, onde sou concursado”, conta o fisioterapeuta. “Fiquei com medo de esperar muito tempo e ficar doente”, segue ele. Costa diz que não teve medo de sofrer uma eventual interação das duas vacinas. “Li bastante sobre interação. Havia propostas de a segunda dose ser de uma outra vacina, tem uma colaboração entre a AstraZeneca e a Sputnik. Eu não fiquei com medo por isso. Fiquei com mais medo de ficar de ficar exposto ao vírus do que da eventual interação entre elas”, diz.

O fisioterapeuta tomou as doses do estudo em agosto e setembro, fez todos os exames requeridos na pesquisa, mas agora se diz arrependido. “É um sentimento de muita angústia. Agora, olhando depois, eu me arrependi de ter sido voluntário pela falta de respeito. Sabemos que em outros estudos já abriram o envelope, já tinha um plano para resolver o problema. Me arrependi pela falta de planejamento”, contou. Integrante do membro do Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital de Bonsucesso, Costa ressaltou que a segurança do voluntário é o que mais pesa na avaliação de um trabalho científico, o que, na sua avaliação, foi desconsiderado na pesquisa em que participou como voluntário. O fisioterapeuta disse que a decisão de se voluntariar ocorreu por dois motivos: o primeiro é que, se não houver voluntário, não tem vacina; o segundo é que havia a chance de 50% de ficar imunizado.

Costa relatou que, até o momento, o Instituto D´Or não informou a data da abertura do chamado “cegamento” da pesquisa, a revelação de quem de fato recebeu o imunizante. Apenas informam que “estamos esperando Oxford decidir” e que o prazo máximo para quem recebeu o placebo ser vacinado é de dois meses e meio. “É muito tempo. Imagina a última pessoa da fila que poderia ter tomado a Coronavac e ficou esperando e que corre o risco de pegar covid-19 nesse período? A gente correu risco até agora, mas depois da vacina pronta, não pode deixar a pessoa sem tomar em prol do estudo”.

De acordo com Costa, o único contato que o Instituto D´Or fez sobre o assunto ocorreu na quarta-feira, pedindo para aguardar o contato para o agendamento da liberação do dados de forma presencial. “Hoje [sexta-feira, 22] acaba a imunização no Hospital de Bonsucesso. Ainda bem que eu tomei ontem, pois eu iria ficar sem. Eu saí convocando todo mundo para tomar porque tem poucas doses. Não faria sentido eu não tomar. Temos direito.”

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Ao tomar a Coronavac, o fisioterapeuta disse que vai comunicar ao ID´Or porque, se ele tomou placebo, sobrará uma dose para quem precisar. “Se eu tomei a vacina, foi uma dose a menos disponível. O que eles deveriam ter feito era não submeter a gente a risco com essa demora. Eu poderia ter esperado para ter essa possibilidade de passar essa dose para outro, mas e a minha vida? Se eu não tomei, eu estou correndo risco”, completou.

Ao EL PAÍS, o ID´Or informou que só foi possível pedir à Anvisa a liberação dos dados do estudo após a aprovação do uso emergencial da vacina, no dia 20. Disse ainda que 640 voluntários, dentro do universo de 4.000 que participaram do estudo, já fora avisados ―os que tomaram placebo desse conjunto que já recebeu a informação já foram imunizados. As doses para quem tomou placebo serão oferecidas em até dois meses e meio, mas o instituto informou que “buscará encurtar ao máximo este tempo, na medida em que receber o imunizante” ―as primeiras doses chegaram da Índia nesta sexta-feira. O instituto também informou que os voluntários que optarem por tomar outra vacina continuarão sob acompanhamento do estudo. instituto

Medo de ficar sem vacina

Uma outra fisioterapeuta que trabalha no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, na zona norte carioca, também na linha de frente da covid-19, vive situação semelhante. Ela já foi à sede do ID´Or duas vezes nesta semana para saber a data da quebra do sigilo da pesquisa, mas não recebeu nenhuma informação precisa. Muito angustiada, não tomou a vacina que lhe foi oferecida no hospital. “Tenho uma dose com o meu nome e não posso tomar porque não sei se tomei placebo ou vacina. Vou continuar exposta na linha de frente sem saber se estou imunizada. Só Deus sabe quando vou ser chamada para saber”, disse.

Ela considera o prazo de até dois meses e meio para quem recebeu o placebo muito longo. “É muito tempo, são dez plantões semanais de 24 horas dentro do CTI-covid sem estar imunizada. São 240 horas sem estar imunizada podendo estar imunizada. É um absurdo”, afirmou. Indignada, não sabe que fazer. “Há poucas vacinas. Hoje, tem vacina no Hospital Ronaldo Gazolla, mas, se eu ficar esperando para saber se tomei placebo da Oxford, não sei se vai ter Coronavac na semana que vem porque vieram pouquíssimas”, lamentou a profissional de saúde na quinta-feira.

Também na quinta-feira, o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Segunda Região (Crefito- 2) enviou um ofício ao Instituto D´Or pedindo a pronta a abertura das informações aos voluntários e afirmando que “chegou ao conhecimento dos profissionais voluntários que, no Estado de São Paulo, outros voluntários já receberam a informação”. “Trata-se de informação fundamental, porquanto há recomendação deste próprio Instituto no sentido de orientar os profissionais que participaram dos testes da vacina de Oxford não receberem imunização de outro fabricante, valendo notar que já foi iniciada a vacinação de grupo prioritário”, afirma trecho do ofício assinado pelo presidente do conselho profissional, Wilen Heil e Silva.

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