Eleições Brasil 2020

Bruno Covas chega à eleição com folga na liderança em São Paulo e mantendo distância de Doria e Bolsonaro

O prefeito tucano jogou duro contra a pandemia e a doença com a qual luta. Mas também soube manobrar de forma habilidosa o jogo de xadrez político para atingir o favoritismo nas pesquisas

O prefeito Bruno Covas durante café da manhã com apoiadores em 12 de novembro, na zona sul de São Paulo
O prefeito Bruno Covas durante café da manhã com apoiadores em 12 de novembro, na zona sul de São PauloLela Beltrão

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Pouco mais de uma centena de pessoas aguardava a chegada do prefeito e candidato à reeleição Bruno Covas (PSDB) na praça Joaniza, no bairro Cidade Ademar, zona sul de São Paulo. Este seria um de seus últimos eventos de campanha do primeiro turno, na quinta-feira (12), e a militância tinha muito o que comemorar. Líder nas pesquisas de intenção de voto, o tucano chega ao dia D da eleição municipal, neste domingo, com ampla margem ante os adversários e com um lugar praticamente garantido no segundo turno —e alguma chance de levar ainda no primeiro. Talvez por isso Covas possa se dar ao luxo de dar o cano nos correligionários: por volta das 11h30, chega a notícia de que sua participação naquela agenda de campanha foi cancelada devido a outros compromissos mais urgentes. Horas antes, ele havia tomado café da manhã com empresários ligados ao mercado financeiro no bairro do Itaim Bibi.

Alguns apoiadores que aguardavam o prefeito na praça lamentaram sua ausência e se dispersaram, enquanto outros ficaram indiferentes, como Rosângela Soares da Silva Pereira, 54. Vestida com um colete azul e portando bandeira com propaganda do prefeito e de um vereador aliado, ela faz bico de cabo eleitoral em eventos de rua por 800 reais ao mês. “Se eu estou triste que ele não veio? Claro que não. Fica ruim para ele, mostra bem como são os políticos”, diz. Desempregada, deixou a filha portadora de necessidades especiais em casa com uma irmã e veio engrossar o caldo tucano. Indagada se já sabe em quem irá votar, ela balança negativamente a cabeça, e diz não saber citar “nenhuma obra” do atual prefeito.

O desconhecimento de Rosângela com relação aos feitos de Covas não parece ser um ponto fora da curva. Apesar do bom desempenho nas pesquisas, os pouco mais de dois anos e meio do mandatário no cargo não foram marcados por grandes vitrines eleitorais. A maior delas foi a revitalização do Vale do Anhangabaú, uma obra cara e criticada por urbanistas por descaracterizar o local. No total, o prefeito cumpriu pouco mais de 30 das 71 metas estipuladas por seu Governo.

Saída pelo centro

Mas o que pode ter faltado a Covas em termos de obras sobrou no quesito habilidade política, como comprova a liderança nas sondagens ―no Datafolha deste sábado (véspera da eleição), ele aparece com 37% das intenções de votos válidos, frente aos 17% de Guilherme Boulos (PSOL), 14% Márcio França (PSB) e 13% de Celso Russomanno (Republicanos), seus rivais mais diretos.

Para navegar até a liderança da campanha, Covas soube se distanciar dos dois polos antagonistas que dominaram o cenário político recente: Jair Bolsonaro e João Doria, seu padrinho na prefeitura que foi posteriormente escondido em suas propagandas eleitorais, devido à baixa popularidade. Com o país vivendo um momento de ressaca das divisões e do radicalismo que culminou com a eleição do presidente em 2018, Covas soube se firmar como um nome de centro ―como ele próprio costuma se rotular― sem discursos agressivos ou polêmicos. “Para a esquerda eu sou de direita, para a direita eu sou de esquerda”, afirmou, em entrevista ao EL PAÍS. Aliás, ele não está sozinho nesse caminho, digamos, centrista. Segundo especialistas, a tendência é que os moderados ganhem espaço nesta eleição.

O distanciamento ante o presidente começou cedo. Além de ser próximo a Doria, possível rival de Bolsonaro em 2022, o prefeito criticou diversas declarações de Bolsonaro nas quais ele exaltava a ditadura militar. Neto de Mário Covas, político histórico do PSDB que teve seu mandato de deputado federal cassado e os direitos políticos suspensos durante o regime dos generais, o prefeito rebateu mais de uma vez os arroubos do ex-capitão do Exército. “Absurdo, inaceitável, incompatível com a República democrática. O presidente precisa falar menos e governar mais”, afirmou o tucano em julho de 2019, quando Bolsonaro difamou Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, uma vítima da ditadura e pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.

Mas foi a pandemia do novo coronavírus que selou a animosidade entre ambos. À época o prefeito logo marcou posição oposta à do presidente ao apostar na ciência e dando à crise sanitária o devido peso. Com Doria, restringiu atividades comerciais e adotou um “lockdown light”, fortalecendo também a rede de atendimento com hospitais de campanha. Apesar de estar lado a lado com o governador em entrevistas coletivas sobre medidas contra a covid-19, as pesquisas logo mostraram a Covas que as chances de uma vitória eleitoral este ano poderiam ser turvadas caso seu nome e imagem fossem associados ao de Doria. Um levantamento do Instituto Datafolha apontou que 60% dos paulistanos não votariam em hipótese alguma em um candidato indicado pelo governador. Boa parte da população da capital não o perdoa por ter abandonado a prefeitura para disputar o Estado apesar de ter se comprometido a completar o mandato. Cientes desta âncora eleitoral que poderia desidratar a campanha de Covas, os demais candidatos tentaram, por enquanto sem sucesso, colar seu nome ao do governador.

A habilidade política de Covas também se traduziu em um amplo arco de alianças partidárias. No total a coligação Todos por São Paulo conta com 11 legendas, dentre elas o MDB e o DEM. Com isso o tucano teve a seu dispor 3 minutos e 29 segundos de tempo para a propaganda eleitoral da TV (calculado com base no tamanho das bancadas na Câmara), o maior deste pleito. Além disso, a diversidade de partidos ajudou com que ele avançasse sobre diversos eleitorados, como o evangélico, por exemplo: dos 11 vereadores evangélicos da Câmara Municipal oito fazem parte da bancada de apoio ao tucano, como mostra reportagem de Aiuri Rebello.

Com uma postura centrista e alianças partidárias amplas, Covas conseguiu ganhar popularidade entre diversas fatias do eleitorado. Por exemplo, abocanhou 41% dos eleitores menos escolarizados, 34% no estrato de menor renda e 32% entre evangélicos, de acordo com o Datafolha publicado na quinta-feira, 12 de novembro. Entre a população com 60 anos ou mais, ele conta com a preferência de 47%. Já o seu ponto fraco parece ser com entre os jovens entre 16 e 24 anos. Nesse segmento, o tucano não tem bom desempenho: apenas 17% de intenções de voto.

Solidariedade

Além da pandemia, a própria saúde de Covas se tornou um fator de relevo na campanha. “O Bruno lidou bem com o problema do coronavírus, mesmo em um momento no qual ele mesmo estava enfrentando uma doença grave”, afirma Roberto da Mata, 50, um dos apoiadores que levou cano do prefeito na Cidade Ademar. Covas precisou travar, desde outubro de 2019, uma luta contra um câncer na cárdia, tecido localizado entre o estômago e o esôfago. A doença o obrigou a realizar diversas sessões de quimioterapia, que fizeram com que os tumores regredissem mas não desaparecessem por completo. Em pleno tratamento e no período mais crítico da pandemia, passou a morar na sede da prefeitura por 70 dias, para poder continuar despachando sem precisar se expor ao vírus. Apesar dos cuidados, contraiu a covid-19 em junho, mas logo se recuperou.

A postura combativa do prefeito frente à doença e à pandemia atraiu a empatia de boa parte da população e até de quase todos os rivais no pleito municipal: apenas Celso Russomanno (Republicanos) usou a questão para tentar atacar Covas. Ele insinuou que mesmo eleito, talvez o prefeito não governasse em função da doença, o que colocaria a capital no colo de seu vice, o emedebista Ricardo Nunes.

A escolha de Nunes como companheiro de chapa também foi alvo de críticas. Em um momento no qual se defende a maior participação de mulheres, negros e indígenas na política, o tucano escolheu um representante da chamada velha política. Além disso, Nunes, que até então ocupava uma vaga na Câmara municipal, teria relações financeiras com uma entidade gestora de creches que teria utilizado recursos públicos municipais em pagamentos feitos a empresas investigadas na máfia das creches, de acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo. Nada, no entanto, que pareça abalar o favoritismo de Covas - pelo menos durante o primeiro turno dessa eleição.

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