‘Zoombombing’

Sequestro machista de videoconferências tenta calar as mulheres na política brasileira

‘Zoombombing’, invasão de eventos virtuais, se tornou comum desde o início da pandemia de covid-19, com xingamentos e veiculação de imagens pornográficas. Zoom e especialistas dizem que, apesar do aumento de casos, plataforma é segura

O momento em que um homem invadiu uma videoconferência da dentista Giovana Mondardo (ao centro) e começou a dançar sem roupa. Invasões visam criar constrangimento.
O momento em que um homem invadiu uma videoconferência da dentista Giovana Mondardo (ao centro) e começou a dançar sem roupa. Invasões visam criar constrangimento.Reprodução
Isadora Rupp

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Uma nova estratégia de silenciamento contra as mulheres políticas e especialistas no tema se tornou recorrente desde o início da pandemia do novo coronavírus, tanto no Brasil quanto em outros países do mundo. Forçadas pelo isolamento social, as videoconferências se tornaram onipresentes na vida de pesquisadoras que se dedicam a estudar e ensinar sobre política na academia. Mas as invasões a esses eventos também se tornaram triviais, atrapalhando falas, forçando o encerramento das reuniões, deixando as participantes constrangidas com os xingamentos, sempre ligados às questões de gênero.

O ataque cibernético na plataforma mais usada neste período, o Zoom, se tornou tão comum que até o FBI, a polícia federal dos EUA, alertou para os perigos do zoombombing: quando as reuniões on-line são “sequestradas” por hackers, que veiculam imagens e vídeos pornográficos e assumem o controle da tela.

“Acontece o tempo todo”, diz a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luciana Panke, autora de livros como Campanhas eleitorais para mulheres e Lula: do sindicalismo à reeleição. Pós-doutora em Comunicação Política pela Universidad Autónoma Metropolitana, a pesquisadora é referência na América Latina quando o assunto é política e mulheres. Logo, participar de eventos virtuais sobre o tema faz parte do seu dia a dia. Desde março, ela conta que ao menos uma vez por mês sofre ou presencia um ataque, seja em eventos brasileiros ou latino-americanos. Uma das invasões mais violentas foi em junho, quando a professora brasileira debatia no foro virtual La Política es Cosa de Mujeres, promovido por organizações como o Conselho Nacional Eleitoral do Equador. Logo no início da sua fala, ela percebeu que a tela saiu do seu controle. Foram veiculados vídeos e desenhos pornográficos. “Fiquei desnorteada, não sabia o que estava acontecendo. É como se alguém gritasse e te jogasse para fora do palco” descreve.

O impacto é diferente de quando o constrangimento é presencial, garante a pesquisadora, que já esteve em pelo menos 15 países palestrando sobre participação de mulheres na política. “Percebo pela reação facial e corporal de quem olha com deboche, ou entende a fala como mimimi”. Observações sobre o seu comportamento no palco é outra situação recorrente na vida acadêmica de Luciana. “Aquilo virou um motivador de que eu preciso mesmo seguir pesquisando esse tema”, observa.

Para quem presencia o ataque enquanto ouvinte, a sensação, além do constrangimento, é da insegurança em relação aos dados pessoais, relata uma das participantes do evento, a professora de jornalismo Simone Hubert, da PUC-PR. “Você se sente invadida e não sabe se alguém teve acesso aos seus dados, seu perfil. Fora que os xingamentos são sempre relacionados ao gênero. Há um machismo nesse espaço de fala”.

Desabafo no twitter

Momento em que a conferência realizada pela dentista Giovana Mondardo foi invadida, num claro exemplo de 'zoombombing'.

Pré-candidata a vereadora na cidade de Criciúma (SC) pelo PCdoB, a dentista e mestranda em Saúde Coletiva Giovana Mondardo usa ativamente as redes sociais para viabilizar a sua campanha. Criou um encontro virtual, o Fala Criciúma, que realiza via Google Meet. Por mais que a plataforma solicite ao organizador permissão para a entrada de participantes, Giovana acabou aceitando algumas pessoas que abriram o microfone e passaram a interrompe-la. “Tentei banir, mas não consegui”. Logo na sequência, um homem começou a dançar com uma música muito alta, tapando a cabeça com uma camiseta.

Fora as intervenções na reunião, a dentista relata inúmeros abusos via inbox nas redes sociais, com fotos e vídeos obscenos ―a pré-candidata registrou boletim de ocorrência sobre um dos casos. Ofensas são frequentes: recebe comentários a chamando de “poste”, “fraquinha” e de ela não se elegerá “nem para síndica”. “Lógico que na hora que acontece me impacta e causa constrangimento. Mas não me causa estranheza dado o momento que estamos passando no Brasil. Mostra como é ser mulher na política”.

O fenômeno das interrupções converge, frisa Luciana Panke, para a violência política de gênero que boicota as formas de manifestação da mulher na vida pública, tornando o seu posicionamento menos importante, invisível. “Desde não participar de cargos diretivos, não receber indicação dos partidos, ser só candidata laranja, não ter treinamento em campanha porque os partidos não querem pagar”, enumera.

Na análise da cientista política colombiana e coordenadora do Red Innovacion (entidade que facilita o intercâmbio de experiências políticas e sociais na América Latina), Andrea Fernández Jimenez, é possível ter duas visões sobre a participação política das mulheres on-line. “A internet sem dúvida foi fundamental para dar voz a grupos marginalizados. No entanto, o mundo digital também se tornou muitas vezes um fórum de desinformação, incitação ao ódio e, claro, assédio”. Ela acredita que a consequência é que o ambiente hostil pode fazer com que as mulheres se autocensurem, permaneçam em silêncio ou se retirem do discurso político.

Segurança de dados

Perito em crimes digitais, Wanderson Castilho pontua que não há uma vulnerabilidade “extremamente crítica”do ponto de vista de coleta de dados dos usuários quando há invasões no Zoom. Segundo ele, o fato de a plataforma ser nova e ter crescido muito em pouco tempo faz com que a empresa aprimore as regras de segurança no decorrer do uso. “Saem as notícias e parece que a plataforma é insegura, mas não. Ela agora está sendo alvo justamente por ser a mais usada. Com a experiência, o Zoom vai aprendendo. O WhatsApp demorou três anos para ter criptografia”compara.

Diretor internacional do Zoom, David Diaz disse que a empresa está “profundamente chateada” sobre esse tipo de incidente, e que a empresa “condena veementemente” o comportamento. Controles de segurança em reuniões, incluindo o compartilhamento de tela, remoção e bloqueio são algumas das medidas de segurança adicionadas. “Levamos as interrupções de reuniões muito a sério. Encorajamos os usuários a relatar quaisquer incidentes desse tipo ao Zoom e às autoridades policiais para que as medidas adequadas sejam tomadas contra infratores”, afirmou ao EL PAÍS, por e-mail.

Diaz destaca ainda que o Zoom vem instruindo os usuários sobre práticas de segurança como a de evitar compartilhar o link e senhas de reuniões privadas publicamente em sites e redes sociais. “Incentivamos qualquer pessoa que hospede eventos públicos ou de grande escala a usar a solução Webinar do Zoom”.

Já o Google, por meio da assessoria de imprensa, informou que o aceite do anfitrião nas reuniões do Google Meet já é uma das medidas de segurança da plataforma, e que também sugere a solução seminários online para eventos públicos.

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