“Bom dia, pai. Como vai o senhor? Hoje já faz mais de um mês que você nos deixou...”

"Ser grande e ser simples, este é seu verdadeiro legado", escreve Ciro Castro em carta ao pai, um médico goianiense que não resistiu à covid-19 após meses na linha de frente contra a pandemia

Ciro Ricardo Pires de Castro Júnior, filho do médico Ciro Ricardo, segura livro com foto do pai.
Ciro Ricardo Pires de Castro Júnior, filho do médico Ciro Ricardo, segura livro com foto do pai.Camila Svenson
Ciro Ricardo Júnior (filho do médico Ciro Ricardo)

Por 50 anos, o médico Ciro Ricardo Pires de Castro se viu imerso na rotina frenética dos corredores de hospitais e ambulatórios em várias cidades do Brasil. Morava com a esposa Núbia em Goiânia. Com ela, teve três filhos e seis netos. Ao longo da vida, Ciro Ricardo interpretou como um chamado as missões que abraçou para trabalhar com indígenas no Xingu e em várias cidades do interior do país. Nelas, entendeu que precisava aprender a observar o mundo pela escuta. Era este seu exercício diário para compreender e respeitar quem era diferente. Seus ouvidos estavam sempre atentos no exercício da medicina ―ele participou da criação de hospitais, tratou tantas doenças e atuou para frear epidemias. “O paciente é nossa maior razão de existir”, repetia. É por essa postura que há pelo menos uma dezena de crianças que vieram ao mundo pelas suas mãos e agora levam seu nome como homenagem. Ciro Ricardo até deixou de trabalhar no início da pandemia do coronavírus, quando se ocupou cozinhando bolos e pães para a família, mas logo decidiu voltar. Viu que muita gente precisava de cuidado e que seus colegas estavam sobrecarregados demais para que se eximisse de mais essa missão, conta o filho dele, que também carrega seu nome, à repórter Beatriz Jucá. O médico morreu em junho de 2020, aos 75 anos, em Goiás. Pouco mais de um mês depois, seu filho lhe homenageia em uma carta.

“São Paulo, 31 de julho de 2020

Bom dia, pai. Como vai o senhor? Hoje já faz mais de um mês que você nos deixou. Engraçado que o tempo parece passar diferente quando perdemos alguém que nos é tão querido. Acho que deve ser a sua ausência no dia a dia que teima em não ficar comum. Lembro que em nossas últimas conversas via WhatsApp você me disse da sua preocupação com a pandemia, e que havia atendido uma moça que havia testado positivo para covid-19. Pedi para você se cuidar bem, e quem sabe até parar de atender, pois era grupo de risco, mas como exigir isso de um médico sempre dedicado aos pacientes que você sempre foi?

Morando em cidades diferentes e com a quarentena, estávamos afastados fisicamente deste o Natal. Sua história de vida sempre será seu maior legado. Como está registrado no livro Médicos do Brasil, o senhor foi “de médico desbravador da Amazônia à diretor-geral do maior hospital de urgências de Goiás”. Que bela trajetória que agora tenho orgulho de relembrar e compartilhar.

O senhor se mudou jovem para Curitiba para estudar para o vestibular e depois cursar medicina. Trabalhou depois em vários hospitais de São Paulo. Levava uma rotina corrida e estressante que logo desgastaria sua mente. Parado em um grande engarrafamento, você se encantou com um anúncio que contratava médicos para trabalhar na Transamazônica. Para o espanto e preocupação de meus avós, lá foi você viver coisas novas que seu coração estava chamando.

Começou a atender trabalhadores, topógrafos e índios da região às margens do rio Xingu e Tapajós no desmatamento para construção da estrada entre Altamira e Itaituba. Ficou encantado com a cultura dos índios Tucanos que, segundo você, “foi uma coisa prazerosa, em primeiro lugar porque foi o primeiro contato que eu tive mas eu sempre fui maravilhado com a cultura, e tão respeitador disso, que eu preferia ouvir mais, dar minha opinião, não impor nada como sendo verdade, porque essa verdade nossa é muito mentirosa em muitos aspectos”. E esse traço de sua personalidade foi muito marcante em toda sua vida: saber ouvir e aprender com todos, e assim respeitar a todos.

Após este período no Norte do país você, por sugestão de um laboratório farmacêutico, foi conhecer a cidade de São Miguel do Araguaia em Goiás e, claro, era mais próxima a sua cidade Goiânia. Ao chegar à cidade, em 1971, alugou junto com seu sócio um barracão de três cômodos e ali montaram o Hospital e Maternidade São Jorge, seu primeiro hospitalzinho. Foram muitos atendimentos de pediatria, varíola, sarampo, febre amarela... mulheres em trabalho de parto, acidentes agrícolas e também casos de violência. Em suas palavras você registra este período: “O que mais me cativou foi a gentileza e a educação do sertanejo”, e ainda complementa “nessa missão de ser médico generalista do interior a nossa norma pessoal era nunca deixar de prestar assistência médica, e não perguntar se o paciente tinha condições de pagar pelo procedimento”. Baita exemplo, meu pai!

Ainda em São Miguel você conhece uma bela enfermeira gaúcha que foi à cidade devido ao Projeto Rondon e por ela se apaixonou e após apenas uma semana de namoro e um mês de noivado, casou com dona Núbia, minha amada mãe, gerando bela família com três filhos (Andrea, Daniela e Ciro) e seis netos, ficando juntos por mais de 45 anos.

Mas sabe, pai, apesar desta história tão rica e linda que poderia ser até um enredo de algum filme, o que mais nos orgulha e traz belas memórias é o sujeito simples e carinhoso que você sempre foi. Coisas bobas da vida, como comprar todos os picolés do carrinho só para deixar o rapaz feliz e amenizar sua rotina. Ou ir ao Serra Dourada sentir a arquibancada, comer amendoim e torcer muito pelo Goiás. Ao mesmo tempo ser uma pessoa muito culta que era exímio pianista, colecionador de milhares de discos de vinil e restaurador de livros. Ainda sobrava tempo para cozinhar aos finais de semana e cuidar de sua horta. Ser grande e ser simples, este é seu verdadeiro legado que está marcado em nosso coração. Parece até mentira, mas você era tudo isso, um ser ímpar.

De todos reconhecimentos e medalhas que recebeu em vida, você mesmo lembra que a mais emblemática aconteceu em São Miguel do Araguaia: “Reuniram 12 Ciro Ricardo. Por quê? Por que eu fazia muito parto. Então eles puseram [meu nome] nos meninos”. O que mais preciso falar, pai? Sou o décimo terceiro Ciro Ricardo que muito se orgulha em ter o seu nome.

Fique com Deus, logo logo nos reuniremos mais uma vez.

Ciro Ricardo Pires de Castro Júnior, seu filho”

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