Pandemia de coronavírus

Brasil tem recorde diário de casos de Covid-19, e Saúde rechaça recuo em medidas de isolamento

Em 24 horas, país teve 1.222 novas confirmações da doença, elevando para 10.278 o número de casos no país, que registra 432 mortes. País ainda enfrenta gargalo de testes

O secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, neste sábado.
O secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, neste sábado.Marcello Casal JrAgência Brasil / Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O Brasil registrou nesse sábado recorde de alta diária nos novos casos de coronavírus. Entre sexta e sábado, foram 1.222 novas confirmações, o que elevou a 10.278 o número de pessoas infectadas no território nacional. No mesmo período foram 72 mortes, totalizando 432. O crescimento foi de 20% no total de óbitos e de 13,5% no de infectados. A expectativa, conforme o Ministério da Saúde, é que o país passe a registrar recordes diários seguidos, até que a situação se normalize e a maior parte da população tenha tido contato com a doença. E a medida que o país consiga testar um número maior de pessoas, superando o gargalo de testagem atual. Essa é uma das características da pandemia, que desde fevereiro teve casos registrados no Brasil. “Provavelmente, todos os dias os números de casos vão bater o recorde do dia anterior”, afirmou o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo dos Reis. A estabilização viria depois que a maior parte da população passe a ter contato com o vírus, ou seja, se contamine, ainda que não apresente os sintomas da doença.

O aumento de casos ocorre em um momento em que cinco unidades da federação estão na iminência de entrar na fase mais dura da pandemia: a de “aceleração descontrolada” da doença, denominação usada pelo Ministério da Saúde para explicar existência de uma espiral de casos e uma grande sobrecarga do sistema de saúde. São elas: São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Amazonas e Distrito Federal. “Já prevíamos desde o princípio. [Nesses Estados] há uma relação de viagens internacionais maior do que nos outros”. O desafio nessas localidades é frear o ritmo de contágio para que não haja uma sobrecarga no sistema de saúde que impossibilite o atendimento dos casos mais graves em que seja necessário o uso de leitos em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs).

A taxa de letalidade no país não registrou aumento substancial, gira em torno de 4,2%. Apesar do recorde no aumento de casos e óbitos, a esperança dos técnicos da Saúde é que ela caia conforme um maior número de pessoas passe a ser testada. Nos próximos dias, assim que chegarem, devem começar a ser aplicados os 410.000 testes rápidos adquiridos pelo Governo. Além disso, serão submetidos a analises 500.000 testes que foram doados pela mineradora Vale. O público alvo da primeira fase de aplicação dos testes são os profissionais de saúde. A ideia é que os que já tenham tido a doença e que, portanto, já apresentam anticorpos, possam sair de seus isolamentos para reforçar o atendimento em hospitais e clínicas pelo país. Pessoas que já contraíram o vírus, mesmo que tenham novamente contato com ele, já apresentam uma resposta do organismo que impede a proliferação do vírus —é o mesmo efeito das vacinas, que ainda estão em desenvolvimento.

O governo trabalha com a estimativa de que 86% das pessoas que se contaminarem não apresentarão sintomas. E que a maior parte da população acabará se infectando. “É inevitável, todo mundo vai ter contato com vírus. O que a gente precisa é ter tempo para que consigamos lidar com isso”, disse, em referência à necessidade de estruturar o serviço de saúde.

Só a partir desse momento, em que o sistema estivesse bem estruturado, é que se poderia se iniciar uma discussão sobre o afrouxamento das medidas de distanciamento social que têm sido aplicadas por Estados e municípios. É uma proposta que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defende, mas que os técnicos da Saúde estão reticentes em encampá-la. “A situação poderia ser muito pior se Rio e São Paulo não tivessem adotado medidas de distanciamento social”, afirmou o secretário-executivo. Essa é a mesma conclusão de uma nota técnica, publicada na manhã deste sábado pelo ministério, que afirma que em São Paulo a taxa de transmissibilidade do vírus caiu, após medidas como o fechamento do comércio e de parques.

Na avaliação de Gabbardo dos Reis, o debate sobre o momento de reduzir ou aumentar as regras de isolamento depende não do tamanho das cidades, como diz Bolsonaro, mas da incidência da doença na localidade. Segundo ele, se um município que não registrou nenhum caso se fechar por um longo período, inevitavelmente, quando ele se abrir, um número elevado da população vai se contagiar e acabará sobrecarregando o sistema de saúde. “Esse movimento de fechar e abrir não é definitivo. Alguém fechou agora, e depois vai abrir. Teremos de calibrar. Abre, depois fecha, consegue diminuir o número de casos. Esse é o desejável, não o que chegue no crescimento exponencial e fiquemos sem capacidade de atender”, ressaltou o número dois do ministério.

De toda maneira, para ele está claro que não é o período de se reduzir as medidas restritivas de circulação de pessoas porque ainda é preciso fortalecer o sistema de atendimento. Para as próximas semanas está prevista a entrega de 32.000 novos respiradores que serão instalados em UTIs e CTIs para atendimento dos casos mais graves. Desse total, 15.000 foram comprados da China e outros 17.000 negociados com indústrias brasileiras. A distribuição desses equipamentos será feita conforme a demanda aumentar em cada Estado. Não será mais como previsto inicialmente pelo ministério, que era destinar uma quantidade maior para as regiões mais populosas.

No trabalho de mitigar os efeitos da doença, o ministério ainda enfrentou um empecilho. Segundo Gabbardo, 1.000 respiradores que seriam destinados para UTIs para tratar de casos graves de coronavírus acabaram bloqueados na Argentina. A empresa que venceu a licitação para fornecer os respiradores despachou o maquinário para o Brasil, mas ele foi barrado na fronteira entre os dois países. “A Argentina fez o mesmo que estávamos fazendo”, afirmou o secretário. No mês passado, o governo brasileiro proibiu a importação de equipamentos que poderiam ser usados no combate à doença.

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