Coronavírus

Local da quarentena de repatriados, Anápolis se preocupa mais com dengue que com coronavírus

Assintomáticos, os 58 brasileiros e seus familiares desembarcam neste domingo na cidade goiana, onde ficarão 18 dias isolados

Nas ruas de Anápolis, a população se divide entre a apreensão e a torcida pela chegada de 58 repatriados brasileiros, que desembarcam neste domingo no Brasil vindos da China por causa da epidemia do novo coronavírus. Enquanto moradores de áreas próximas à base aérea onde o grupo ficará em quarentena manifestam receio, nos estabelecimentos de saúde os profissionais estão mais preocupados com a proliferação da dengue, que no primeiro mês de 2020 registrou um aumento de 71% dos casos em comparação com janeiro de 2019. “A mídia só fala em coronavírus, e eu só vejo os casos de dengue crescerem no meu dia a dia”, afirmou o enfermeiro Alessandro Silva, que atua em uma das unidades da cidade.

Anápolis está localizada no coração do Centro-Oeste, a região do Brasil que, proporcionalmente, registrou mais casos de dengue do país: 32,5 casos para cada grupo de 100.000 habitantes. A média do país é de 14,64. Enquanto isso, o coronavírus teve 8 casos suspeitos no Brasil, nenhum confirmado, e 34.000 confirmações no mundo, com 723 mortes. Todos os óbitos ocorreram em território chinês.

No bairro Santos Dumont, vizinho da base aérea de Anápolis, onde os brasileiros desembarcarão e permanecerão 18 dias em isolamento, há quem tema a proliferação da doença, como a dona de casa Cleusa Fátima da Silva, de 60 anos, e a auxiliar de serviços gerais Delcilane Patrícia Ramos, de 42. “Estamos muito perto do local da quarentena. Até sonhei com a doença na noite passada. Tenho medo de me contagiar, mas temos de confiar nas autoridades e acreditar que nada de mal ocorrerá”, afirmou Cleusa. “Tenho asma e, só de pensar nessa doença, já passo mal. Espero que nada ocorra de mal para os que chegam, nem para nós”, disse Delcilane.

Entre os moradores e frequentadores do bairro Santos Dumont, também há céticos quanto a futuros problemas. “Acho bom eles virem para cá. Se fosse meu filho, eu ia querer que viessem para o seu país. Se tiver de ser tratado, melhor que seja aqui. Torço para que dê tudo certo”, disse a comerciante Alessandra Maria Alexandre, de 40 anos.

“Não acho que nada de mal vai acontecer. Os médicos disseram que, se eles ficarem isolados, tá tudo bem. Então, vamos confiar”, afirmou a cozinheira Maria Neide da Silva, de 66 anos. Em tom de brincadeira, ela ainda diz que, se for atingida pelo coronavírus, usará a mesma estratégia para se curar que costuma usar quando está gripada. “Cheiro um pouquinho de fumo e tomo um banho morno depois. Não tem vírus que resista”.

Para o lavrador Sebastião Coelho Guimarães, de 66 anos, o Governo Jair Bolsonaro tomou a decisão correta em repatriar os brasileiros que demonstraram interesse em retornar ao país. Vizinho da base aérea anapolina, ele diz que seu único temor, caso fosse um dos repatriados, era o de ficar isolado em um quarto ―o que não ocorrerá―. “Você já imaginou não poder conversar com ninguém por 18 dias. Deus me livre!”, afirmou enquanto enrolava lentamente um cigarrinho de palha na varanda de sua casa.

Nos últimos três dias autoridades de saúde do município, do Estado e da União repetiram à exaustão nos principais meios de comunicação de Goiás que não há risco para a população, já que os repatriados ficarão em total isolamento e, até o momento, estão assintomáticos. “Não é preciso mudar a rotina de ninguém em Anápolis. Estamos todos seguros”, repetia insistentemente um locutor na rádio local na manhã deste sábado.

Anápolis é uma cidade de 334.000 habitantes, com uma pujante indústria e um polo farmacêutico que reúne mais de 20 laboratórios. Sua rotina, até o momento, quase nada mudou, de fato. Nas farmácias, por exemplo, não houve registros de aumento da venda de máscaras. “Aqui não vendi nenhuma máscara na última semana”, disse a atendente Margarete Alves. Nem o vendedor ambulante de frutas que tem uma banca na frente da base aérea notou qualquer alteração no cotidiano. “Só aumentou o número de repórteres e de compradores curiosos”.

Os repatriados que devem desembarcar na próxima madrugada ficarão no hotel de trânsito da Aeronáutica. Um espaço com 38 suítes que foi preparado especificamente para recebê-los. Todos serão monitorados três vezes por dia pela equipe de saúde brasileira que viajou de Brasília até Wuhan para buscá-los. Entre os 58 que ficarão em quarentena estão 27 adultos (sendo quatro chineses casados com brasileiros) e sete crianças que estavam vivendo na China. Os outros 24 faziam parte da tripulação da aeronave, sendo 14 profissionais de saúde, oito tripulantes e dois jornalistas.