Redutos trabalhistas punem ambiguidade do líder do partido com o Brexit

Conservadores tomam do trabalhismo mais de 20 bastiões históricos

Boris Johnson celebra neste sábado a vitória com o novo deputado conservador por Sedgefield, Paul Howell, em County Durham.
Boris Johnson celebra neste sábado a vitória com o novo deputado conservador por Sedgefield, Paul Howell, em County Durham.WPA Pool (Getty Images)
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Tudo que não é tradição é plágio. Boris Johnson fez neste sábado uma excursão triunfal por algumas das circunscrições que durante décadas tinham votado no trabalhismo, mas que, na quinta-feira, deram as costas ao líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. “Não frustraremos a confiança que vocês depositaram em nós”, proclamou o primeiro-ministro britânico, em um discurso que lembrou aquele que foi feito décadas atrás pelo ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair. “Lembrem que não somos os amos, e sim os servos do povo britânico”, disse Johnson em Sedgefield, onde durante anos manteve sua cadeira parlamentar. “Tudo que pedimos é a oportunidade de servir”, proclamou o então jovem advogado Blair ao fim daquele dia de 1997 em que conquistou uma vitória arrasadora em todo o país e pôs fim a 18 anos de domínio conservador.

No jargão de políticos e jornalistas, esses redutos trabalhistas eram conhecidos como “muralha vermelha”. Do norte de Gales à costa de Northumberland, no extremo nordeste da Inglaterra, passando pelas Midlands (Terras Médias). Regiões industriais e de mineração, de forte tradição trabalhista, onde o Daily Mirror era o manual de cabeceira e alguns moradores garantiam que prefeririam ter a mão amputada a votar em um conservador. Bolsoner, Workington, Bishop Auckland, Blyth Valley, Don Valley, Sedgefield... A revolução de Boris Johnson varreu 24 circunscrições onde a esquerda dominou a cena durante quase um século.

Duas razões, sugerem pesquisas pós-eleitorais como as realizadas pelo Deltapoll e pelo Opinium, explicam essa mudança. Ambas praticamente com o mesmo peso. A frustração provocada por três anos de debate sobre o Brexit, apoiado majoritariamente nessas áreas do país. E a rejeição maciça da personalidade política de Jeremy Corbyn. “Qual é o sentido do Partido Trabalhista se ele não representa nem respeita a voz do povo? É evidente, aqui em Doncaster e em muitos outros lugares do país, que os eleitores de forte tradição trabalhista rechaçaram nosso candidato a primeiro-ministro e suas políticas”, afirmou entre lágrimas Caroline Flint. Deputada dessa circunscrição havia 22 anos −na onda do triunfo total de Blair−, ela culpou com raiva o líder do partido pela perda, pela primeira vez em um século, desse reduto.

Corbyn e seus aliados tentaram agradar todos os seus eleitores e acabaram desagradando todos. Os da periferia e os das grandes cidades, os jovens e os idosos. Um Reino Unido multicultural e diversificado, e uma Inglaterra fã do rúgbi e das ligas menores de futebol, com a sensação de não ter sido escutada. “Se não enfrentarmos adequadamente todas essas questões e preocupações, criaremos um vazio que será preenchido por uma extrema direita que aspira a se tornar a voz da classe trabalhadora branca”, advertiu há meses o líder do sindicato Unite e forte aliado de Corbyn, Len McCluskey. Não tentou dissimular ao acrescentar o adjetivo “branca”. Foram pessoas como ele que convenceram Corbyn a se manter ambíguo em relação ao Brexit e a evitar expressar claramente qual seria a política de imigração do partido. Com isso, irritou o eleitorado pró-europeu e não convenceu o eleitor trabalhista tribal.

“Retribuiremos a todas a pessoas do nordeste da Inglaterra a confiança que depositaram no Partido Conservador, e para isso a primeira coisa que faremos será cumprir o Brexit”, proclamou um eufórico Johnson, consciente de que tem em suas mãos a possibilidade de consolidar uma nova maioria que abandonou sua lealdade partidária e se entregou em suas mãos.

Dennis Skinner, deputado trabalhista por Bolsover durante meio século, chegou a definir um tipo de eleitor. Rude, áspero, com enormes costeletas brancas, parecia ter saído de um filme de Ken Loach. Atuou ombro a ombro com os mineiros em cada uma das grandes greves do século passado. Filho de mineiro. Republicano até a medula e famoso por seus comentários em voz alta toda vez que Elizabeth II chegava ao Parlamento para inaugurar a legislatura. “Digam a ela que pague seus impostos”, por exemplo. E profundamente partidário do Brexit. Na quinta-feira, por pouco mais de 5.000 votos, perdeu sua cadeira parlamentar, que acabou nas mãos do conservador Mark Fletcher.

A ameaça estava chegando, e o Brexit a precipitou. Algumas destas regiões começaram a dar sinais de desapego em 2015, quando apoiaram o Partido de Independência do Reino Unido, do ultranacionalista Nigel Farage. E antes. Durante a tentativa fracassada de Ed Milliband de ressuscitar o Partido Trabalhista. Falava-se então da divisão de seus votantes entre os “amantes da cerveja” e os “amantes do vinho”. Paradoxalmente, muitos dos primeiros acabaram decidindo nestas eleições que confiam mais em um fervoroso consumidor de vinho como Boris Johnson. Embora tenha brindado com cerveja neste sábado.

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