Partidos social-democratas viram à esquerda em busca do eleitorado perdido

Nos dois lados do Atlântico, os partidos procuram respostas progressistas a uma globalização e uma revolução tecnológica que os deixaram sem parte de sua base

O porta-voz do SPD alemão, Stefen Ruelke, entre o ministro das Finanças, Olaf Scholz (direita) e o das Relações Exteriores, Heiko Maas, neste sábado em Berlim.
O porta-voz do SPD alemão, Stefen Ruelke, entre o ministro das Finanças, Olaf Scholz (direita) e o das Relações Exteriores, Heiko Maas, neste sábado em Berlim.TOBIAS SCHWARZ / AFP

O Bella Ciao”. Vários membros socialistas da nova Comissão Europeia, entre eles o vice-presidente primeiro, Frans Timmermans, concluíram dias atrás uma de suas primeiras reuniões em Estrasburgo entoando o redescoberto hino da luta antifascista. Mas o coro entusiasta, mais do que um suposto espírito revolucionário, ilustra a tentação de uma guinada à esquerda de uma parte da desgastada família social-democrata europeia.

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Para alguns de seus membros, sobretudo os meridionais, a volta à essência poderia ser a via para recuperar um eleitorado que fugiu de partidos cuja agenda social e econômica foi substituída, em parte, por reivindicações transversais como os direitos das minorias, a igualdade de gênero e a luta contra a mudança climática. Nos países nórdicos, onde a social-democracia continua aguentando, eles preferem insistir numa terceira via que combina a defesa de um Estado de bem-estar hiperdesenvolvido com a aposta numa liberalização comercial e na flexibilidade laboral.

“Os social-democratas e os socialistas europeus não têm uma visão clara sobre políticas regulatórias e sociais. Por isso, estão profundamente divididos entre os partidários de um neoliberalismo com rosto humano e os que seguem uma onda retrossocialista à moda [Jeremy] Corbyn e [Jean-Luc] Mélenchon”, diagnostica Sophie Pornschiegel, analista sênior do European Policy Centre em Bruxelas. A guinada à esquerda, em todo caso, já é uma realidade em países como a Alemanha, onde os sociais-democratas do SPD consumaram uma mudança de liderança nessa linha; no Reino Unido, onde os trabalhistas apostam no ideário esquerdista de Corbyn; e na Espanha, com um possível Governo do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e da coalizão esquerdista Unidas Podemos.

A maré chega também ao outro lado do Atlântico, onde o partido Democrata, o parente social-democrata dos Estados Unidos, preparam-se para tentar derrotar Donald Trump em 2020 com pré-candidatos como Bernie Sanders, considerado de ultraesquerda para os padrões de Washington. A dúvida entre as próprias fileiras do socialismo é se a nova tendência será o começo de uma jornada sem destino ou a refundação de uma família política que foi essencial na Europa e nos EUA no século XX e contribuiu, com a democracia-cristã, para marcar um período de prosperidade e igualdade sem precedentes.

“A atual guinada à esquerda poderia ser o caminho para melhorar os maus resultados eleitorais se a crise dos partidos social-democratas fosse relativa apenas ao alcance da redistribuição, num clássico debate entre esquerda e direita”, afirma Guntram Wolf, diretor do centro de estudos Bruegel em Bruxelas. “No entanto, é muito provável que seu declínio se deva a muitos outros fatores”.

Wolf não descarta que a guinada dê resultado. Mas acredita que o velho esquema de esquerda e direita seja “estreito demais para entender as novas linhas divisórias que atravessam a sociedade”. E diz que “o declínio da social-democracia não se deve à recente crise financeira; teria ocorrido em qualquer caso”.

A redução do emprego no setor industrial e o surgimento de novas categorias laborais no setor de serviços são citados como causas de uma erosão social-democrata que dificilmente poderia ser corrigida com a volta de postulados esquerdistas do século XX. “Os sociais-democratas ficaram sem base eleitoral”, conclui Pornschiegel. A analista considera que nem a mudança rumo à esquerda nem a terceira via bastariam, por si sós, para salvar a social-democracia da investida dos Verdes e da extrema direita.

Jonás Fernández, eurodeputado socialista desde 2014, atribui a perda de votos ao fato de que o Estado, ao menos na União Europeia (UE), perdeu grande parte da capacidade de taxar rendas e lucros, assim como de regular a atuação de empresas globais. “Nesse ambiente, a promessa redistributiva da social-democracia é muito difícil de implementar, pois o instrumento para reduzir as desigualdades, o Estado, perdeu potência em sua intervenção”, diz Fernández. O eurodeputado diz que é urgente criar “uma instituição pública com suficiente poder de intervenção nos mercados. E esse caminho passa exclusivamente pela Europa.”

Esse caminho, contudo, parece obstruído pela resistência da maioria dos sócios em mutualizar políticas sociais na UE. Wolf adverte que, se não houver movimento na frente da redistribuição em âmbito europeu, a convivência entre a democracia cristã e a social-democracia poderia estar em perigo. Nesse caso, a erosão da social-democracia também solaparia as bases políticas da UE.

Nos dois lados do Atlântico, os partidos social-democratas olham para a esquerda em busca de respostas progressistas a uma globalização e uma revolução tecnológica que os deixaram sem parte do eleitorado tradicional. Em alguns casos, o naufrágio dos socialistas favoreceu a ascensão de forças consideradas de extrema esquerda.

Alemanha, em ebulição

A esquerda alemã está em plena ebulição. Os sociais-democratas do SPD consumaram, com a escolha de Norbert Walter-Borjans e Saskia Esken para a liderança do partido, uma clara guinada à esquerda. Centenas de milhares de militantes quiseram girar o timão de uma legenda que se deslocou para o centro político e perdeu boa parte do apoio. Se as eleições fossem hoje, o SPD obteria apenas 14% dos votos. À sua esquerda, o pós-comunista Die Linke, também em plena redefinição, obteria cerca de 10%.

O auge dos Verdes e da extrema direita na Alemanha estreitaram o espaço eleitoral dos sociais-democratas, que buscam recuperá-lo num contexto cada vez mais polarizado. Mas sentem, sobretudo, que foi a dilatada coabitação com os conservadores que afetou sua identidade. O SPD governou 10 dos últimos 14 anos em grandes coalizões e, segundo muitos militantes, essa é a causa de vários dos seus males. Sentem que o partido perdeu a essência. Por isso, em parte, triunfam agora Walter-Borhans e Esken, dois políticos que pretendem devolver à formação sua raiz social-democrata, informa Ana Carbajosa.

Reino Unido, à beira do naufrágio

Jeremy Corbyn é o salva-vidas que permitiu que a esquerda britânica sobrevivesse a uma década de social-democracia descafeinada (o Novo Trabalhismo de Tony Blair) e outra de pura austeridade (com o conservador David Cameron). Ao mesmo tempo, o veterano líder é o obstáculo que impede, com seus preconceitos e sectarismos tribais, dar uma imagem de novidade a algumas ideias resgatadas do baú da história justo quando o eleitorado estaria de novo disposto a considerá-las. “Algumas das coisas que ele propõe soam menos extremistas que há 10 ou 15 anos”, explica Tony Travers, professor da London School of Economics. “O centro de gravidade político mudou consideravelmente”.

O programa eleitoral de 2019, “o mais radical em muitas décadas”, segundo Corbyn, espantou o mundo econômico, mas agrada o eleitorado de esquerda. Mas é muito provável que os trabalhistas percam uma oportunidade histórica por causa de dois graves erros. A ambiguidade de seu candidato em relação ao Brexit afastou eleitores, e sua lentidão para erradicar os episódios de antissemitismo no partido provocaram a deserção de figuras moderadas e a sensação de que a nova embalagem esconde a mesma mercadoria estragada, informa Rafa de Miguel.

França, uma paisagem em ruínas

As eleições presidenciais de 2017 deixaram o Partido Socialista (PS), hegemônico durante décadas, à beira da extinção. Foram vencidas por Emmanuel Macron, um ex-ministro de um Governo socialista, com um novo partido de centro liberal, A República em Marcha. Desde então, nenhum partido substituiu o PS. A esquerda populista da França Insubmissa não conseguiu se consolidar como alternativa e vê como a extrema direita da Frente Nacional se afirma como o primeiro partido operário. O PS tampouco levanta a cabeça. Sua ala centrista acompanhou Macron, e parte da ala esquerdista fundou o Generation.s, que é marginal. O Partido Comunista sobrevive como pode. A única novidade foi o Europa Ecologia/Os Verdes, que ficou em terceiro lugar nas eleições europeias e traz consigo a esperança de aglutinar a esquerda moderada. O paradoxo é que, embora Macron tenha feito políticas de centro-direita e deixado livre um amplo espaço à sua esquerda, a divisão impediu que alguém o ocupe, informa Marc Bassets.

Portugal e a sobrevivência pragmática

A ascensão ao poder do socialismo português (PS) ocorreu com a derrota eleitoral de 2015. Desde o fim da ditadura, em 1974, sempre havia governado o partido mais votado – com ou sem maioria. O PS quebrou essa regra em 2015: perdeu as eleições mas governou porque, pela primeira vez, somou maioria e se aliou com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. Foi um acordo inédito entre as esquerdas, agora renovado – em outubro passado, o PS ganhou com 36,3% dos votos. São cinco anos de Governo de António Costa, com a virtude de que nem o PS nem seus sócios abriram mão dos seus princípios. Nem o primeiro foi mais à esquerda, nem os demais à direita. Todos jogaram a carta do pragmatismo. Um pragmatismo que beneficiou a todos, informa Javier Martín del Barrio.

Itália, a divisão permanente

O desastre do Partido Democrático (PD) nas últimas eleições legislativas, nas quais teve o pior resultado da história, obrigou a reconstrução da cúpula e uma guinada à esquerda. Matteo Renzi renunciou e Nicola Zingaretti foi nomeado secretário-geral. Um homem menos vinculado ao establishment econômico e aberto ao diálogo com as correntes mais à esquerda. O discurso agradou no início e, segundo as pesquisas, parte dos eleitores da classe operária que haviam migrado para propostas populistas, como as da Liga e do Movimento 5 Estrelas, estiveram dispostos a regressar.

Mas isso durou pouco. Quando parecia que o PD podia caminhar unido, a última fragmentação chegou com Renzi e a fundação do partido Itália Viva. Hoje nenhuma formação se atreve a dar uma resposta totalmente de esquerda, e essa posição ficou nas mãos de movimentos populares, informa Daniel Verdú.

Grécia: condenados à irrelevância

Atingido pelas impopulares políticas de austeridade da troika em troca dos resgates que evitaram a “quebra” do país, o Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok, na sigla em grego), que pilotou parte da crise – de 2009 a 2014, primeiro sozinho e depois com a conservadora Nova Democracia – foi condenado à irrelevância e está imerso num processo de primárias para conseguir uma liderança mais forte. Dos 44% dos votos obtidos em 2009, o Pasok se tornou o menos votado em 2015 (4,6%) após a sua identificação com a centro-direita durante sua etapa de governo. O Syriza, liderado por Alexis Tsipras, colonizou em apenas cinco anos quase toda a centro-esquerda. Promove sua refundação para ampliar a base, mas ainda lidera as pesquisas no campo da esquerda (e da centro-esquerda), com um pouco menos de 30% dos votos, informa María Antonia Sánchez-Vallejo.

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