Eleições

Esquerda na Espanha chega a acordo para formar Governo de coalizão

PSOE, do presidente de Governo Sánchez, oferece o posto de vice ao líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias. Ainda será preciso, no entanto, obter apoio de outras siglas

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e o líder do Podemos, Pablo, anunciam acordo.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e o líder do Podemos, Pablo, anunciam acordo. Victor J Blanco (GTRES)

O que foi impossível durante seis meses se desbloqueou em menos de 48 horas. Dois dias após as eleições espanholas de domingo, em que o Partido Socialista dos Trabalhadores da Espanha (PSOE) buscava maioria para comandar o país, mas acabou permitindo a explosão da extrema direita, o primeiro-ministro em exercício, Pedro Sánchez, fechou nesta terça-feira um acordo para formar um “Governo de coalizão progressista” com o Unidas Podemos.

Com o acerto, Pablo Iglesias, do Podemos, será o vice-presidente de Governo (ou vice-primeiro-ministro). A repetição das eleições, a segunda realizada na Espanha neste ano, forçou Sánchez a aceitar as premissas de Iglesias, que avisou que sua retirada, em julho, de negociações para uma coalizão de esquerda não valia se houvesse um novo processo eleitoral.

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Sánchez, que estava convencido de que melhoraria sua posição com novas eleições, acabou perdendo força e teve de ceder. O pacto ainda não está fechado, porque agora é preciso convencer os outros parceiros. Para que esse novo Governo seja empossado, será preciso buscar o “sim” do Mais País, Partido Nacionalista Basco (PNB), Partido Regionalista da Cantábria (PRC), Bloco Nacionalista Galego (BNG) e Teruel Existe, e ainda assim tudo dependeria da abstenção da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e da aliança basca Bildu, que sempre optaram por esse voto. Se não quiser depender desses apoios, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Sánchez, precisará convencer o Cidadãos a se abster.

Sánchez compareceu por volta das 14h30 ao Congresso com o líder da Unidas Podemos para explicar os detalhes desse pacto. Ao fim do encontro, e depois de seis meses de duros embates, os dois líderes trocaram um simbólico abraço e a sala, cheia de dirigentes dos dois partidos e de jornalistas, explodiu em um “oooooooh” quase zombeteiro. Sánchez se negou durante meses a aceitar que membros do Podemos, e particularmente Iglesias, pudessem estar em seu Governo. Durante a campanha eleitoral, repetiu isso muitas vezes. Mas os dois partidos perderam votos na votação de domingo, e isso tornou todos mais flexíveis, porque em uma nova repetição das eleições Sánchez correria o risco de perder o Governo.

O fiasco da repetição eleitoral, que teria sido evitado se este acordo tivesse sido alcançado em julho, tornou a negociação, subitamente, muito simples. “É hora de deixar para trás qualquer recriminação”, disse Iglesias. “Os espanhóis falaram e corresponde a nós superar o bloqueio. Não conseguimos obter este acordo [em julho], embora estivéssemos muito perto. Temos consciência da decepção que isso significou para os progressistas”, justificou-se Sánchez, que fez assim uma retificação completa de sua posição inicial, forçado pelo resultado eleitoral. A situação agora é pior que a de julho, porque ambos têm, ao todo, 10 cadeiras a menos e precisam do apoio de mais forças do que antes, mas existe uma maioria possível que precisará ou não da abstenção da ERC e da Bildu em função do que fizer o Cidadãos, que o PSOE tentará convencer a pelo menos se abster.

Sánchez e Iglesias assinaram um documento com as bases do pré-acordo, antecipado pelo eldiario.es: trata-se de um texto com ideias muito gerais sobre “a proteção dos direitos sociais”, que não traz a divisão de vice-presidências e ministérios. No documento também não aparece explicitamente a possibilidade de reverter os aspectos mais nocivos da reforma trabalhista −que os dois partidos propunham em seu programa para as eleições de domingo passado− ou o aumentos de impostos que os dois partidos pactuaram há alguns meses, embora as duas ideias estejam esboçadas no documento. Algo que o texto promete explicitamente é procurar “garantir a convivência na Catalunha”, destacando o objetivo de “fomentar o diálogo” e “fortalecer o Estado das autonomias”.

Sánchez ressaltou, na assinatura do documento, que o objetivo é “desbloquear a situação política, que está travada há muitos meses na Espanha”. Iglesias qualificou o “Governo de coalizão progressista” como “a melhor vacina contra a extrema direita”, e adiantou que as duas forças buscarão “alianças com outros partidos” para ter maioria. Depois do apertão de mãos com Iglesias, Sánchez afirmou que o pacto permitirá “não só a posse, mas um Governo para toda a legislatura”. O chefe de Governo em exercício iniciará imediatamente uma rodada de contatos políticos.

O PSOE e a Unidas Podemos somam 155 das 350 cadeiras do Legislativo – para formar a maioria, são necessárias 176. É muito provável que possam aderir ao acordo os sete deputados do PNB, os três de Mais País-Compromís −que já manifestou interesse em fazer parte desse pacto−, um do Bloco Nacionalista Galego, outro do Partido Regionalista da Cantábria e um último do Teruel Existe. Ao todo, somariam 168 deputados. Para Sánchez ser empossado em segunda votação seriam necessárias várias abstenções. As dos 13 deputados da ERC e dos cinco da Bildu bastariam para desbloquear a situação. As hipotéticas abstenções dos 10 parlamentares do Cidadãos não seriam suficientes se não entrarem nessa fórmula os independentistas catalães ou bascos. Estes últimos, que agora passaram a ter cinco deputados, sempre se abstiveram.

Os contatos entre os líderes do PSOE e da Unidas Podemos começaram na noite de segunda-feira com discrição máxima. Depois, assumiram as rédeas das negociações as respectivas números dois, a socialista Adriana Lastra e a dirigente da Unidas Podemos Irene Montero. Só no final da manhã desta terça-feira, quando o pré-acordo já estava encaminhado, os socialistas divulgaram um comunicado para anunciar a reunião entre Sánchez e Iglesias. Posteriormente, fontes do partido confirmaram o acordo, que tinha sido impossível depois das eleições de 28 de abril.

Fontes socialistas explicaram que depois do pacto com o Podemos haverá contatos com outras forças políticas que apoiaram no ano passado a moção de censura contra Mariano Rajoy, o que levou Sánchez ao poder. Na manhã desta terça, o presidente do PNB, Andoni Ortuzar, mostrou-se partidário de recuperar o bloco de aliados da moção, que incluiria os independentistas catalães.

Depois das eleições de domingo, Iglesias insistiu na formação de um Governo de coalizão como única saída para o bloqueio político. O PSOE já havia deixado na segunda-feira a porta aberta para uma coalizão com a Unidas Podemos, segundo declarações do secretário do partido, José Luis Ábalos. A prioridade dos socialistas seria reeditar, ampliado, o acordo em torno da moção de censura, com o PSOE e a Unidas Podemos à frente de outros partidos, como o Mais País e vários nacionalistas e regionalistas. Embora Ábalos não tenha deixado clara a fórmula, se o acordo vingar, ressoará assim um dos mantras de campanha de Pablo Iglesias: “As coisas importantes nem sempre são conseguidas de primeira”.

O líder do Partido Popular, Pablo Casado, já informou a seus líderes sobre o pré-acordo entre PSOE e Podemos durante a reunião do comitê executivo nacional, realizada em Madri. Esse anúncio freou o debate sobre a estratégia a ser seguida pelo PP e os possíveis cenários. Até o momento, só o ex-chanceler José Manuel García Margallo tinha apostado por uma grande coalizão de constitucionalistas. Fontes do PP assinalam que o pré-acordo entre Sánchez e Iglesias os libera da pressão e que exercerão uma oposição responsável. O PP, insistem, é “a única alternativa” a Sánchez.