O ‘gângster sindical’ que devolve a Finlândia à social-democracia 20 anos depois

Antti Rinne, vencedor das eleições para o 'Eduskunta' (Parlamento), com 17,7% dos votos, vai liderar agora as negociações para formar um Governo de coalizão com forças progressistas, como os Verdes

Antti Rinne, líder social-democrata na Finlândia.
Antti Rinne, líder social-democrata na Finlândia.Heikki Saukkomaa/Lehtikuva/dpa

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Antti Rinne (Helsinque, 1962) tem uma enorme missão: "Transformar a Finlândia em um país mais humano", como prometido em seu programa eleitoral. Acaba de vencer pelo mínimo (40 deputados contra 39) as eleições para o Eduskunta (Parlamento finlandês) e nesta segunda-feira começa a liderar as negociações para formar um Governo estável no país nórdico de cinco milhões e meio de habitantes. Os primeiros que chamará para o diálogo serão os Verdes, de Pekka Haavisto –"as pessoas estão pedindo um Governo vermelho-verde", disse na segunda-feira passada durante uma entrevista a este jornal em um café no centro de Helsinque– e, em seguida, a Aliança de Esquerda, de Li Andersson. Embora o Governo final levará vários dias para ver a luz –ou meses, por causa dos resultados muito apertados–, os social-democratas recuperam o poder na Finlândia pela primeira vez desde 1999.

Apesar de sua visível timidez, Rinne, nascido em Helsinque e educado entre Hyvinkää e Loviisa (sul), é um político experiente nos sindicatos desse país nórdico. Sua militância e a organização de várias greves que beiravam a ilegalidade o levaram a ser apelidado de gângster sindical. Nos últimos meses, fez uma campanha discreta, apoiando-se em caras novas do partido com mais carisma que ele. Além disso, esteve ausente por várias semanas na pré-campanha em razão de problemas de saúde com origem em uma pneumonia diagnosticada na Espanha.

Markk Jokisipilä, do Centro de Estudos Parlamentares, diz que ele será o próximo primeiro-ministro da Finlândia com um Governo arco-íris. Ou seja, que entre quatro e seis paridos entram numa coalizão. Rinne recoloca a social democracia na liderança do país pela primeira vez desde 1999 e garante que dar voz aos jovens tem sido a fórmula para recuperar a confiança dos cidadãos. Desde 2017, cerca de quinhentas pessoas trabalharam para moldar um programa mais social e ecológico do que nunca.

Este amante da natureza –como qualquer outro cidadão deste país de florestas–, da pesca e dos esportes também foi ministro das Finanças, até 2015, quando começou o governo tripartite da conservadora Coalizão Nacional, dos liberais do Centro e da extrema direita do Partido dos Verdadeiros Finlandeses, primeiro e, após sua cisão, do partido Futuro Azul.

Rinne está ciente da consolidação dos Verdadeiros Finlandeses, que ficaram em segundo lugar, com 39 deputados –praticamente o mesmo que em 2015, quando obtiveram 39 graças ao ex-ministro das Relações Exteriores Timo Soini–, e os culpa pela austeridade do Governo anterior, como nos cortes de benefícios sociais e no congelamento das aposentadorias.

Apesar disso, resiste a ter que falar com eles para formar um Governo. "A Finlândia é diferente da Suécia. Aqui, a Constituição estabelece que o candidato mais votado tem que liderar as negociações para formar um Governo com todos os partidos, sem exceção", explica. Embora, na prática, ele não veja nenhuma cooperação com eles. "Um Governo de coalizão deve ter uma base de valor comum, e nós, com os Verdadeiros Finlandeses, não temos isso", diz.

Rinne, 56 anos, vê a si mesmo como uma pessoa "honesta" que acredita "fortemente" na justiça social. A terceira idade é uma das maiores preocupações em um país que está envelhecendo rapidamente. Segundo dados oficiais, um quarto da população terá mais de 65 anos em 2030, cifra que o atual sistema de bem-estar social não pode suportar. Ele dá atenção especial aos cuidados "humanos" dos idosos. "Existem apenas 0,7 enfermeiro para cada paciente", diz ele. Na campanha, prometeu mais mil funcionários para a saúde.

Com quatro filhas e três netos, ele se propõe a conduzir o curso de um país que não consegue sair de uma estagnação econômica que começou anos atrás com o declínio de seu orgulho nacional: a Nokia. "O maior desafio que enfrento é formar o programa do Governo", explica. Além dos Verdes e da Aliança da Esquerda, Rinne quer negociar com os liberais do Centro e os conservadores da Coalizão Nacional. "Esta seria uma solução normal na Finlândia", diz.

Rinne é um finlandês na aparência –cabelo, olhos e pele clara– e no espírito. Passa os verões nos arquipélagos finlandeses no Báltico, onde pesca salmão. Outro de seus lugares favoritos no mundo é a Suécia, especialmente a capital, Estocolmo. Além de ter que formar um Executivo estável, Rinne, europeísta convicto, vai assumir de 1 julho a 31 dezembro a presidência rotativa da UE, com o Brexit programado para 31 de outubro. "É um tema muito importante para nós." E Jokisipilä acredita que a presidência da UE pressionará a formação de um Executivo o mais cedo possível.

Também são cruciais para ele as eleições para o Parlamento Europeu, em 26 de maio. Rinne acredita que os extremistas de direita, como em muitos países da UE, "ganharão mais apoio", mas está confiante em que os partidos do establishment –em sua opinião, os social-democratas e o Partido Popular Europeu– farão uma campanha de choque. "É preciso dizer às pessoas que a Europa é liberdade e que é paz."