mudança climática

A corrida contra o relógio para conter o aquecimento global

ONU alerta que países precisam multiplicar por cinco seus esforços se quiserem cumprir a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris

O glacial Lower Grindelwald, nos Alpes suíços, em 1865 e em 2019.
O glacial Lower Grindelwald, nos Alpes suíços, em 1865 e em 2019.Denis Balibouse (REUTERS)

Está aumentando o fosso entre o que precisa ser feito e o que está sendo feito para conter o aquecimento global. Foi o que a ONU (Organização das Nações Unidas) voltou a alertar, destacando que o tempo para alcançar a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris está se esgotando. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, conhecido pela sigla PNUMA, publicou seu relatório anual sobre essa lacuna. E adverte que os países precisam multiplicar por cinco seus planos de redução das emissões de gases do efeito estufa, que aquecem o planeta, se quiserem que o aumento da temperatura fique abaixo de 1,5 grau em relação aos níveis pré-industriais. Se a intenção for chegar a um aumento inferior a dois graus (a outra meta estabelecida em Paris), esses cortes deverão ser multiplicados por três. Os planos de redução de gases aprovados agora pelos países, mesmo no cenário de aplicação mais otimista, levarão a um aumento de pelo menos 3,2 graus, calcula a ONU.

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Mas o principal desafio não é que as reduções dos países signatários do Acordo de Paris sejam multiplicadas por três ou cinco. O problema fundamental, como indica o relatório, é que os cortes devem começar a acontecer já em todo o planeta, ao contrário do que indicam as projeções das emissões de gases do efeito estufa. "Se não o fizermos, a meta do 1,5 estará fora de nosso alcance antes de 2030", disse Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA, em comunicado.

De acordo com o relatório da ONU apresentado nesta terça-feira, a partir de 2020 serão necessárias reduções anuais de 7,6% para atingir a meta do 1,5 grau. A análise contém uma censura e uma advertência: atrasar (outra vez) os cortes tornará cada vez mais difícil cumprir a meta e vai implicar que os esforços anuais necessários sejam ainda maiores. "Não começar a reduzir as emissões em 2010" significou que agora são necessárias baixas mais acentuadas, explica a ONU.

Isso porque, durante esta década, as emissões, em vez de cair, cresceram a uma taxa de 1,5% ao ano. E em 2018 o aumento prosseguiu, segundo o relatório.

"Não podemos dilatar mais a ação climática em todos os níveis, tanto por parte dos Governos como das entidades supranacionais e outros atores econômicos e sociais", disse a ministra espanhola para a Transição Ecológica, Teresa Ribera, ao comentar o informe. "O relatório do PNUMA nos diz que as emissões precisam atingir o teto em 2020 e começar a cair de modo acelerado a partir dessa data", acrescentou ela em nota.

A ministra enfatizou que a cúpula do clima a ser realizada a partir de segunda-feira em Madri, conhecida como COP25, deve servir para que elevem a "ambição" de seus planos de corte de emissões em 2020.

Revisões em alta

Que os esforços não eram suficientes já se sabia quando foi assinado o Acordo de Paris, na capital francesa, em 2015. Por esse motivo foi estabelecido um mecanismo de revisão para cima dos planos de corte que cada país precisa apresentar ao aderir ao pacto climático.

A primeira revisão deve ser feita em 2020 para se aproximar das metas de 1,5 e 2 graus. Mas, por enquanto, apenas 70 países se comprometeram a fazer isso. A expectativa é que mais Estados o façam durante a COP25.

A ONU lembra em seu relatório que as países do G20 acumulam 78% de todas as emissões de gases do efeito estufa. "Mas apenas cinco membros do G20 se comprometeram a estabelecer uma meta de longo prazo de zero emissões", relata o PNUMA. Os mais ambiciosos são os europeus: França, Alemanha e Itália (e também a Espanha) se comprometeram com esse objetivo de zero emissões até 2050.

"No curto prazo, os países desenvolvidos terão que reduzir suas emissões mais rapidamente do que os países em desenvolvimento, por razões de equidade", explicou a ONU nesta terça-feira. Mas, no longo prazo, todos os países deverão contribuir de forma mais decisiva. Atualmente, a China é o principal emissor de gases do efeito estufa e não faz parte da categoria de países desenvolvidos nas negociações climáticas. E, por ora, apenas se compromete a reduzir a expansão de suas emissões a partir de 2030.