Amazônia perde 9.700 quilômetros quadrados em um ano, maior desmatamento da década

Os ecologistas culpam o presidente Jair Bolsonaro pelo aumento de 30% na superfície da floresta tropical destruída; Governo o atribui à “economia ilegal”

Uma zona da Amazonia deforestada em uma vista aérea tomada em agosto passado na reserva biológica de Altamira.
Uma zona da Amazonia deforestada em uma vista aérea tomada em agosto passado na reserva biológica de Altamira.JOAO LAET (AFP)

As motosserras avançam velozes na maior floresta tropical do mundo, que tem um papel crucial para conter a mudança climática. A Amazônia brasileira perdeu 9.762 quilômetros quadrados de vegetação — 20% mais do que os 7.946 quilômetro da região metropolitana de São Paulo — em um ano. O dado, que é o pior em mais de uma década e representa um aumento de 30% em relação ao ano anterior, foi divulgado nesta segunda-feira pelo organismo público brasileiro que realiza as medições oficiais com satélites. A cifra confirma o que as medições de alertas em tempo real vinham indicando há meses: que o desmatamento se intensificou desde que governa o ultradireitista Jair Bolsonaro, um firme defensor da exploração econômica da Amazônia a quase qualquer preço e que despreza o papel dos indígenas na preservação.

As derrubadas na Amazônia brasileira crescem desde 2012, embora a um ritmo menor. A superfície destruída agora equivale a 1,3 milhão de campos de futebol e aumentará ainda mais a pressão sobre Bolsonaro e seu Gabinete, pois tanto seu discurso como sua política ambiental assustam não só os indígenas, as ONGs e os cientistas, mas também muitos Governos estrangeiros, a começar pelos europeus. Meses atrás, o presidente criticou duramente o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), questionou suas medições e destituiu seu diretor. Apesar disso, seus ministros do Meio Ambiente e de Ciência compareceram à apresentação dos números do desmatamento medidos a cada 12 meses.

As cifras difundidas nesta segunda-feira apontam a quantidade de floresta destruída entre agosto de 2018 e julho passado. Ou seja, incluem sete meses do mandato de Bolsonaro. Era grande a expectativa pela apresentação na sede do INPE em São José dos Campos, já que a polêmica mundial por causa dos ferozes incêndios na Amazônia continua fresca e porque os sistemas de alerta em tempo real — usados para mobilizar inspetores, bombeiros e outros profissionais — indicavam que a destruição da floresta havia disparado.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atribuiu o enorme aumento à “economia ilegal”, em referência às atividades ilícitas de mineradoras, madeireiras e invasores, que se apropriam das terras. Salles disse que é necessário criar oportunidades econômicas sustentáveis na região. Os ecologistas e uma parte dos empresários do setor agropecuário afirmam que o desenvolvimento econômico da Amazônia não é incompatível com a preservação ambiental.

Os prazos esboçados até agora por Bolsonaro com essa finalidade incluem o início da exploração comercial de terras indígenas, que neste momento contam com uma forte proteção legal que só permite que sejam destinadas ao uso sustentável dos indígenas que as habitam há milênios. Entre as medidas anunciadas pelos ministros para combater o desmatamento, incluem-se o reforço da fiscalização na Amazônia e a visita de alguns científicos, além da transferência para lá de algum organismo de pesquisa.

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Para as ONGs, o principal culpado pelo enorme aumento é o presidente. “O projeto antiambiental de Bolsonaro eliminou a capacidade de combater o desmatamento, favorece os que cometem crimes ambientais e estimula a violência contra os povos (nativos) da floresta”, declarou Cristiane Mazzetti, da campanha Amazônia do Greenpeace. O World Wild Fund (WWF) ressaltou que nunca foram aplicadas tão poucas multas ambientais como nos últimos meses.

Os efeitos cada vez mais visíveis da mudança climática colocaram a questão ambiental no centro do debate político da Europa e de boa parte do mundo. Isso gerou uma intensa pressão, com a qual Bolsonaro não contava e que o transformou no vilão ambiental do planeta. Durante a campanha, o capitão reformado proclamou seu desdém pela preservação ambiental. “Se eu chegar lá, não vai ter dinheiro para ONG. Esses inúteis vão ter que trabalhar... E não vou demarcar terra indígena enquanto for presidente”, prometeu. Dito e feito. Bolsonaro não ampliou a proteção legal a outros territórios desde que assumiu o mandato, em janeiro. Mas precisou esquecer sua promessa de seguir os passos dos Estados Unidos do presidente Donald Trump, que abandonaram o Acordo de Paris. O enorme peso das exportações à União Europeia (UE) e a pressão política internacional o obrigaram a anunciar que manteria os compromissos assumidos.

Para a Europa, a questão climática é também essencial no processo de ratificação do acordo comercial entre o Mercosul e a UE, assinado meses atrás após árduas negociações e que todos os países de ambos os blocos devem chancelar para que entre em vigor. A França lidera os países que exigem que Brasil respeite o acordo mundial contra a mudança climática como condição para o apoio ao tratado.

Os primeiros a soar o alarme ante a política ambiental deste Governo foram os ex-ministros do Meio Ambiente. Em maio, eles o acusaram de desmantelar todos os avanços feitos desde que a pressão internacional contra a destruição da floresta fizeram com que o Brasil implementasse políticas para preservá-la.

O desmatamento atingiu seu máximo histórico em 1995, com a destruição de 29.000 quilômetros quadrados da Amazônia (três vezes a cifra atual) e seu mínimo em 2012, com 4.500 quilômetros quadrados. Essa evolução positiva foi fruto de uma política continuada que protegeu por lei dezenas de reservas indígenas, decretou que na Amazônia só se pode cultivar 20% de cada terra e reforçou os sistemas de inspeção e punição aos que cometem crimes ambientais.