Caso Marielle Franco

Caso Marielle lança sombra sobre a polícia, tribunais e a política brasileira

Assassinato da vereadora carioca, há 20 meses, está cheio de lacunas, inclui graves irregularidades e continua cercado por uma corrente de informações, frequentemente contraditórias, que semeiam novas dúvidas sobre quem encomendou o assassinato

No dia 1o de novembro, manifestantes realizaram um protesto para cobrar investigações sobre quem mandou matar Marielle Franco.
No dia 1o de novembro, manifestantes realizaram um protesto para cobrar investigações sobre quem mandou matar Marielle Franco. MAURO PIMENTEL (AFP)

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A investigação sobre o assassinato, há 20 meses, da vereadora Marielle Franco, transformada em símbolo da esquerda brasileira, saiu da letargia esta semana com um eletrochoque. A notícia de que um porteiro do condomínio onde Jair Bolsonaro vivia antes de se mudar para Brasília mencionou o presidente em relação com o crime durante um interrogatório policial devolveu o caso à atualidade. A revelação monopolizou o debate durante algumas horas, mas no dia seguinte o Ministério Público lançou dúvidas sobre o testemunho. Esta é a dinâmica de uma investigação que está corrompida, segundo a ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge. O caso está cheio de lacunas, inclui graves irregularidades, como um delegado que tentou incriminar um vereador com uma confissão falsa, e continua cercado por uma corrente de informações, frequentemente contraditórias ou confusas, que semeiam novas dúvidas sobre quem encomendou o assassinato.

“598 dias. Quem mandou matar Marielle? E por quê?”, tuitou na manhã deste sábado Eliane Brum, como vem fazendo diariamente. A colunista do EL PAÍS aponta, como uma ladainha, as duas principais incógnitas de um caso que tem como pano de fundo as milícias, grupos criminosos formados por ex-policiais que controlam várias áreas do Rio de Janeiro. As suspeitas de vínculos dos Bolsonaro com esse mundo vêm de longe, porque o clã dedicou boa parte de suas carreiras políticas a defender os interesses corporativos dos agentes das forças de segurança. Há meses se sabe que Bolsonaro era vizinho do suposto atirador, que tem uma foto com o segundo suspeito... Marielle Franco representava outro universo. Era uma negra criada em uma favela, mãe, bissexual e estrela emergente no Partido Socialismo e Liberdade.

A TV Globo abriu com a reportagem exclusiva o telejornal de maior audiência do país na terça-feira à noite. O protagonista era o presidente e a data, a do assassinato. Um porteiro contou à polícia que em 14 de março de 2018 o ex-policial militar Élcio Queiroz, hoje na prisão, chegou de carro ao condomínio, disse que ia à casa 58 (a de Bolsonaro), e um homem que se apresentou como Jair autorizou, pelo interfone, sua entrada… mas o suspeito, em vez de ir à casa de Bolsonaro, foi à do suposto assassino, Ronnie Lessa. A polícia acredita que pouco depois ambos saíram para cometer o crime.

Um Bolsonaro bastante irritado negou imediatamente as acusações, em um vídeo gravado em plena noite na Arábia Saudita, onde estava em viagem oficial. Está comprovado que no dia que a vereadora e seu motorista foram assassinados, o então deputado federal estava em Brasília, porque votou na Câmara. O Ministério Público semeou dúvidas sobre a informação da Globo ao revelar que a declaração do porteiro não coincide com as gravações da guarita, que indicariam que foi Lessa que autorizou a entrada. Neste sábado, Bolsonaro afirmou que pegou a gravação da portaria do seu condomínio "antes que fosse adulterada". " Pegamos toda a memória da secretária eletrônica que é guardada há mais de ano. A voz não é a minha", disse o presidente.

A investigação continua em segredo, nas mãos da polícia do Rio, apesar das graves irregularidades denunciadas pela então procuradora-geral Raquel Dodge em seu último dia no cargo, em setembro. No documento em que pede a federalização do caso, Dodge traça um cenário sombrio da situação na cidade. Sustenta que a polícia estadual está contaminada e no documento há “diversas menções ao Escritório do Crime [o grupo suspeito de ter assassinado Marielle e seu motorista], às milícias espalhadas pela cidade, seus homicídios mediante pagamento, participação de policiais ou ex-policiais, em um cenário de plena impunidade” que, segundo ela, “nem a intervenção federal no Estado do Rio em 2018 conseguiu reverter”. Entre os motivos para acusar de obstrução os atuais responsáveis pelas investigações, Dodge destaca um emblemático. O delegado cuja investigação apontou primeiro Lessa e Queiroz como executores dos assassinatos propôs a um miliciano preso que confessasse ter sido contratado por um vereador para matar Marielle. Diante da recusa desse miliciano, fez uma contraproposta. O delegado lhe prometeu que, se confessasse ter sido sondado pelo vereador para cometer o crime, não iria a julgamento por uma acusação anterior de assassinato.

Dodge solicitou em setembro que Domingos Brazão, ex-membro da Assembleia Legislativa do Rio, seja investigado como autor intelectual do assassinato, além de acusá-lo de obstruir a investigação. Mas, nesta semana, a promotora do Rio responsável pelo caso Marielle declarou que “não há provas concretas” da participação de Brazão.

Na sexta-feira, uma das promotoras foi afastada da investigação depois que o The Intercept Brasil revelou que ela era uma militante bolsonarista e que tirou foto com um político local que destruiu uma placa em memória de Marielle Franco.

Os ex-policiais Lessa e Queiroz estão presos. Quatro pessoas ligadas a eles foram acusadas recentemente de se desfazer da arma do crime, que desde o começo se considerou ter sido cometido por um profissional e por encomenda. Mas, como diz a esquerda brasileira, Marielle está presente. E seu assassinato lança uma enorme sombra sobre a polícia, os tribunais e a política do Brasil.