Do Vietnã ao Reino Unido: 158.000 reais por um longo trajeto de exploração

A descoberta de 39 cadáveres num caminhão perto de Londres revela a odisseia de milhares de jovens que emigram nas mãos de máfias de traficantes de pessoas em viagens que chegam a durar anos

Hoang Thi Ai, de 48 anos, mãe de Hoang Van Tiep, suspeito de estar entre as 39 vítimas cujos corpos foram achados em Londres.
Hoang Thi Ai, de 48 anos, mãe de Hoang Van Tiep, suspeito de estar entre as 39 vítimas cujos corpos foram achados em Londres. ATHIT PERAWONGMETHA (REUTERS)

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“O veículo que transportava seu filho até a Inglaterra sofreu um acidente. Sinto muito.” O homem vietnamita que ligou na última quinta-feira para a casa de Nguyen Dinh Gia, na província rural de Nghe An, desligou sem dar mais detalhes. Não telefonou de novo. O filho de Nguyen, Dinh Luong, de 20 anos, tampouco deu sinais de vida, embora a família tenha tentado entrar em contato com ele freneticamente. Desde então, seu pai presume que o jovem seja uma das 39 vítimas de tráfico de pessoas que a Polícia britânica encontrou mortas nesse dia na parte traseira de um caminhão frigorífico em Grays (sudeste do Reino Unido).

Ainda não foi possível confirmar oficialmente a identidade de nenhuma das vítimas (31 homens e oito mulheres), embora seja quase certo que a maioria eram vietnamitas. Segundo os jornais britânicos, já há 24 famílias das províncias de Nghe An e Ha Tihn que denunciaram o desaparecimento de entes queridos — o mais jovem, um menino de 15 anos — que planejavam ir ao Reino Unido na semana passada. As autoridades vietnamitas lhes pediram amostras de DNA para comparar com a dos corpos e tentar identificá-los. Além dos detidos em território britânico, quatro pessoas foram presas no país do Sudeste Asiático em conexão com o caso. Os presos, com idades entre 40 e 60 anos, foram acusados de “organizar ou obrigar que outras pessoas viajem ao exterior ou trabalhem no exterior ilegalmente”.

Entre os que proporcionaram seu DNA, encontram-se os familiares de Pham Thi Tra My, a jovem de 26 anos que, pouco antes de o caminhão chegar ao polígono industrial onde foi encontrado, enviou uma mensagem comovente despedindo-se da mãe e avisando que morria porque não podia respirar. Seu pai, Pham Van Thin, explicou ao jornal on-line vietnamita VNExpress que o casal demorou a ver o texto porque a mãe não percebeu o que havia recebido; só viram um dia depois, quando o irmão da menina tentou ligar para ela. “Ninguém respondeu.”

Segundo a família, Tra My havia deixado a universidade para procurar trabalho no Japão. Mas regressou ao Vietnã com a ideia de ir à Europa, onde esperava poder economizar para enviar maiores quantias aos parentes. Ela era a caçula de três irmãos, os dois maiores sem emprego estável. “Eu lhe aconselhei que ficasse em casa e se casasse, mas ela me disse que queria ganhar dinheiro para nos tirar da pobreza, e que depois pensaria no casamento”, contou a mãe, Nguyen Thi Pong, também ao site vietnamita.

O Vietnã, um país de 97 milhões de pessoas, viveu um grande salto econômico nos últimos 30 anos. Mas a divisão dos frutos tem sido muito desigual, deixando importantes bolsões de pobreza nas zonas rurais. Cada ano, milhares de pessoas são fisgadas pelas redes de traficantes para tentar chegar à Europa, onde acreditam que poderão encontrar trabalho bem remunerado e tirar a família da miséria. O Reino Unido, onde existe uma importante comunidade vietnamita, é um dos destinos preferidos. Nos últimos 10 anos, as autoridades britânicas identificaram 3.187 vietnamitas, adultos e crianças, como possíveis vítimas do tráfico. Mas as cifras reais podem ser muito mais elevadas.

Mimi Vu, especialista independente em tráfico de pessoas oriundas do Vietnã, diz que esse país “figura sistematicamente entre os três primeiros lugares de tráfico de adultos no Reino Unido. Mas não é apenas o tráfico entre o Vietnã e o Reino Unido. É também o tráfico a partir do Vietnã através da Rússia, Ucrânia, Polônia, França, República Checa e outros até o Reino Unido”. Os países da Europa continental, diz ela, costumavam ser apenas lugares de trânsito. No entanto, à medida que Londres endureceu o controle de suas fronteiras, agora é mais comum que os migrantes acabem ficando neles. “A Europa deve fazer muito mais” para combater o tráfico, diz a especialista.

A maioria dos que almejam ir à Europa são homens. Segundo Vu, 65% dos vietnamitas que chegam ao Reino Unido são adultos e crianças do sexo masculino. “Tudo é controlado pelo crime organizado em Berlim, Moscou, Praga, Paris... É um setor muito específico, e a viagem para chegar ao Reino Unido é muito mais longa. Existe todo um serviço de contrabando por trás”, conta.

Segundo o relatório Precarious Journeys: Mapping Vulnerabilities of Trafficking from Vietnam to Europe, elaborado por três ONGs, muitos são explorados durante o longo caminho, em setores como a construção ou em confecções clandestinas de falsificação de marcas da moda. A primeira parada são os mercados de produtos vietnamitas nas cidades onde essa comunidade é grande. Mas os estabelecimentos onde costumam ser mais explorados são os salões de beleza e os de cultivo de cannabis.

36.000 euros

O tortuoso trajeto, que vai mudando conforme o nível de vigilância nas diferentes fronteiras — segundo o relatório, cada vez mais se detectam rotas para a Europa através da América do Sul —, pode durar anos até chegar à terra prometida. Primeiro, ainda no Vietnã, as famílias devem pagar às máfias o custo do contrabando. Cerca de 950 milhões de dong, o equivalente a 36.000 euros (cerca de 158.000 reais). Um valor inacessível para um camponês num país onde o salário médio de um trabalhador é de 140 euros (616 reais) mensais. Para assumi-lo a pessoa contrai uma dívida, em geral com as próprias máfias, e paga trabalhando nas diversas etapas da viagem.

A odisseia de Dinh Luong, como relatou seu pai ao VNExpress, é clássica. Originário de Thanh Loc, em Nghe An, ele contraiu uma dívida de 18.000 euros (79.200 reais) — a outra metade a ser paga na chegada ao Reino Unido — para viajar à Europa com certa segurança. Voou em agosto de 2017 do Vietnã a Moscou (provavelmente com documentos falsos). De lá, em outros meios de transporte — tipicamente caminhões, carros ou até mesmo andando em parte do caminho — prosseguiu até a Ucrânia, para continuar o périplo rumo à União Europeia. A Alemanha, no caso do jovem. Em abril de 2018, chegou à França.

Trabalhou um ano e dois meses num restaurante administrado por compatriotas. Recebia, conta seu pai, cerca de 1.900 euros (8.300 reais) por mês. Parte ele enviava à sua casa, e outra parte usava para pagar a dívida.

Em 10 de outubro, Nguyen recebeu uma ligação do filho. “Ele disse que já quase tinha saldado a dívida e queria trabalhar como manicure em algum salão de beleza, que ganharia três ou quatro vezes mais. Disse que tinha entrado em contato com vietnamitas na Europa que haviam prometido levá-lo ao Reino Unido. Se tivessem sucesso, nós, os pais, tínhamos que enviar dinheiro a eles”, disse ao VNExpress.

A família, recorda Nguyen, não devia se preocupar: Dinh Luong não escolheria a opção barata (“palha”, no jargão das redes de traficantes), e sim a VIP, mais cara, embora mais confortável e garantida.

Ou era o que ele pensava. Se os temores do pai estiverem certos, Dinh Luong acabou, como os migrantes que pagaram menos, na parte traseira do caminhão de placa búlgara para cruzar o Canal da Mancha, num trajeto que o veículo iniciou no porto de Zeebrugge, na Bélgica. No dia 24, chegou o telefonema de aviso.

Le Van Ha, de 30 anos, seguiu uma rota diferente, contava seu pai, Le Yuan, também da província de Nghe An. O segundo de seus filhos partiu há três meses, primeiro rumo à Malásia, depois por uma longa lista de países europeus. Em 21 de outubro, ligou da França para avisar que viajaria para o Reino Unido. “Eu lhe disse que se cuidasse e avisasse quando estivesse a caminho. Não sei com quem ia, só me disse que custaria milhares de dólares. Fui ao banco e saquei o que pude. Agora sinto uma angústia enorme. Minha família está muito preocupada”, explicava ao jornal vietnamita.

“A grande maioria da população do Vietnã nasceu depois de 1975 [quando terminou a guerra com os Estados Unidos]”, diz Vu. “São pessoas muito jovens, muito ambiciosas e muito impacientes. As vias tradicionais — ir à escola, conseguir trabalho e ascender aos poucos — levam muito tempo, e eles querem ganhar dinheiro imediatamente. Já. E [as máfias] vendem esses sonhos: ‘Olha, você pode ganhar muito dinheiro na China, pode ganhar muito dinheiro no Reino Unido, só precisa pagar 40.000 dólares e pronto’. Há toda uma máfia por trás, e não para de crescer.”

A única maneira de conter o fenômeno, segundo a especialista, é a prevenção. Abordar os fatores que aumentam a vulnerabilidade ao tráfico: falta de formação, pobreza, desigualdade de gênero e discriminação das minorias. “Se resolvermos esses problemas, também contribuiremos para o desenvolvimento do Vietnã em geral”, afirma.

Homem é detido na Irlanda por enviar o contêiner à Bélgica

RAFA DE MIGUEL, LONDRES

As pistas que a Polícia de Essex (Reino Unido) segue para destrinchar o caso dos 39 cadáveres encontrados num caminhão levam constantemente à Irlanda. Os investigadores revelaram que, durante o fim de semana, foi preso no porto de Dublin um homem de 23 anos natural da Irlanda do Norte. Seria o motorista que enviou – de um lugar desconhecido – até o porto belga de Zeebrugge o contêiner onde foram descobertos os 39 corpos.

Trata-se de Eamon Harrison, preso no sábado ao chegar a Dublin proveniente da França. Pesava sobre ele uma ordem de detenção por um assunto alheio à investigação. Em 2009, Harrison havia sido condenado a dois anos e meio de cadeia por tentar enviar 1.180 pacotes de cigarro contrabandeados do porto britânico de Dover até a localidade francesa de Calais, escondidos em carregamentos de fruta. Não está claro se, a essa altura, se ele sabia que seu contêiner seria usado para o tráfico ilegal de migrantes. Harrison é a quinta pessoa detida no transcurso da investigação. Três delas foram soltas sob fiança. O primeiro suspeito, Mo Robinson, de 25 anos, que rebocou o contêiner no último percurso até abandoná-lo de madrugada num polígono industrial a leste de Londres, compareceu hoje por videoconferência perante o tribunal e não pediu que o libertem sob fiança. Foi acusado de 39 crimes de homicídio e de conspiração para o tráfico de pessoas.