Vazamentos de óleo

Um dos maiores vazamentos de óleo da Europa mostra como é difícil punir culpados

Incidente com o navio Prestige, na Galícia, levou voluntários a atuar na limpeza, assim como tem ocorrido no litoral do Nordeste brasileiro

Grandes porções da costa da Galícia foram afetadas pelo vazamento.
Grandes porções da costa da Galícia foram afetadas pelo vazamento. RICARDO GUTIÉRREZ

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Uma das maiores catástrofes ambientais que a Europa já sofreu, 17 anos atrás, foi provocada por um velho petroleiro carregado com 70.000 toneladas de um combustível muito viscoso. O navio, chamado Prestige, navegava em 13 de novembro de 2002 pelo Atlântico em plena tempestade, a 50 quilômetros da costa da Galícia, no canto noroeste da Espanha. Sofreu uma rachadura em seu casco, e o piche que cuspiu chegou até a França, poluindo 2.000 quilômetros de litoral à sua passagem. As imagens da época, com voluntários atuando para limpar as praias, lembram cenas que se repetem nos últimos dias ao longo do litoral do Nordeste brasileiro, devido a um misterioso vazamento de óleo.

A magnitude daquela maré negra provocou uma crise política na Espanha e uma onda internacional de solidariedade para limpar as zonas afetadas. As características do óleo combustível expelido pelo Prestige, muito denso, mas nada volátil nem solúvel, facilitou sua expansão. A demora das autoridades em reagir e a ausência de barreiras suficientes contra a contaminação marinha levou, nos primeiros dias, os marinheiros galegos a se lançarem ao mar para recolherem o hidrocarboneto com suas próprias mãos, na tentativa de salvarem os ricos bancos pesqueiros e marisqueiros dos quais vivem. Milhares de voluntários se deslocaram durante meses à Galícia para ajudar a separar e recolher a camada de piche que grudou nas falésias e envenenou a areia de 745 praias.

A tendência do hidrocarboneto do Prestige a se emulsionar multiplicou os resíduos. Voluntários, militares, barcos pesqueiros e embarcações de despoluição recolheram em terra e mar um total de 80.000 toneladas de piche, quando a carga vertida pelo petroleiro rondou as 60.000. Tamanha foi a mobilização que durante os primeiros três meses uma média diária de 2.500 pessoas foram de forma altruísta limpar manualmente a costa. Primeiro sem a devida proteção, mas depois providos de máscaras e macacões brancos, para evitar problemas cutâneos e respiratórios.

O descaso das autoridades nos primeiros momentos, insistindo em negar a gravidade ambiental do naufrágio, fez eclodir um movimento de indignação batizado como Nunca Máis (assim se grafa no idioma galego), e cujo lema continua sendo utilizado ainda hoje em protestos populares na Espanha. A fatura definitiva daquele desastre por danos “patrimoniais, ambientais e morais” foi estipulada há apenas dois anos em 1,57 bilhão de euros (sete bilhões de reais), após um longo processo judicial. Entretanto, o cipoal de empresas relacionadas com o barco ainda não pagou nada.

A maré negra terminou em 2018 nos tribunais espanhóis com uma condenação definitiva por crime ambiental contra o capitão do navio, o grego Apostolos Mangouras. A Justiça absolveu o único responsável do Governo espanhol — presidido em 2002 por José María Aznar, do conservador Partido Popular — a ser levado ao banco dos réus. O caso, entretanto, não está encerrado. O pagamento das milionárias indenizações reivindicadas por 1.900 afetados deve ser assumido pela seguradora da embarcação, uma firma britânica chamada London P&I Club, cuja apólice só cobre 900 milhões de euros. Para obter esse dinheiro, a Espanha prepara uma batalha judicial que deverá travar no Reino Unido.

A catástrofe revelou o complexo cipoal corporativo que rodeia a navegação marítima e que complica muito a apuração de responsabilidades. O Prestige tinha armador liberiano, bandeira das Bahamas e capitão grego, e transportava óleo combustível de propriedade suíça. O dano ambiental, contudo, foi revertido mais rápido que o previsto, graças, segundo os cientistas, à enorme eficácia regeneradora da natureza. O petroleiro afundou a 250 quilômetros da costa galega, e seus destroços continuam lá, com milhares de toneladas de piche ainda dentro. As autoridades acreditam que ele nunca sairá de lá.