Nobel da Paz 2019

Nobel da Paz 2019 vai para Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia

O comitê norueguês reconhece o papel do dirigente nas conversas de paz com a vizinha Eritréia. O cacique caiapó Raoni Metuktire e a sueca Greta Thunberg também estavam na disputa

O primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, 24 de janeiro de 2019, na sede do Conselho Europeu em Bruxelas. Ele foi escolhido o Nobel da Paz deste ano.
O primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, 24 de janeiro de 2019, na sede do Conselho Europeu em Bruxelas. Ele foi escolhido o Nobel da Paz deste ano. Francisco Seco (AP)

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O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, 43 anos, foi o escolhido para receber o Prêmio Nobel da Paz de 2019. "Estamos orgulhosos como nação", foi sua primeira reação, de acordo com uma nota emitida por seu gabinete em Addis Abeba nesta sexta-feira. Entre seus méritos estão a assinatura da paz com a Eritreia após um amargo conflito de duas décadas e a mediação decisiva no processo de transição no Sudão, que levou este ano a um acordo entre civis e militares. Desde que assumiu o cargo, em 2 de abril de 2018, ele iniciou uma verdadeira revolução democrática em seu país. Apoiou a presidência do país para Sahle-Work Zewde, a única mulher chefa de Estado na África, e nomeou um Governo paritário, entre outras reformas profundas.

Quando muitas casas de apostas indicavam como favoritos o cacique caiapó Raoni Metuktire e a adolescente sueca Greta Thunberg, que se tornou um ícone da luta contra as mudanças climáticas, o Comitê Nobel Norueguês decidiu entregar o Prêmio Nobel da Paz a um dos líderes africanos da moda. A chegada ao poder de Abiy Ahmed foi uma verdadeira lufada de ar fresco em todo o continente, mas especialmente na Etiópia. Uma de suas primeiras medidas foi a libertação de milhares de presos políticos e o fim do estado de emergência no país, usado pelo Governo anterior para cometer violações dos direitos humanos, segundo organizações internacionais.

Abiy Ahmed, de pai muçulmano da etnia oromo e mãe ortodoxa cristã de Ahmara, embarcou em um caminho de mudanças em um sistema político marcado por equilíbrios étnicos. Engenheiro de computação por formação, ingressou ainda jovem no grupo armado que forçou a queda do ditador Mengistu e, posteriormente, entrou no Exército, onde realizou tarefas de comunicação e inteligência. Em paralelo, iniciou carreira política no Partido Democrático Oromo, tornando-se deputado da coalizão governista em 2010.

Seu ímpeto reformista, que no campo da economia busca a liberalização e a abertura econômica da Etiópia, não foi bem recebido por todos. Em 23 de junho de 2018, apenas três meses depois de chegar ao poder, foi alvo de uma granada que explodiu a menos de 20 metros do local onde estava, embora isso não tenha lhe causado nenhum ferimento. As primeiras investigações apontaram para setores no Exército e nas forças de segurança refratários às mudanças.

No entanto, o Comitê do Nobel valorizou especialmente a assinatura da paz com a Eritreia, um antigo conflito dos dois países vizinhos e que terminou com a restauração das relações diplomáticas em 8 de julho de 2018, como também seus constantes esforços para a paz no Sudão do Sul e no Sudão, onde, a pedido da União Africana, conseguiu que os líderes civis e militares golpistas assinassem um acordo para a criação de um conselho de transição.

O Prêmio Nobel da Paz já havia ido para a África no ano passado, em parte, quando foi dividido entre o médico congolês Denis Mukwege e a ativista iraquiana yazidi Nadia Murad, ambos distinguidos por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra em conflitos armados.

Com o prêmio concedido ao líder etíope, nascido em 1976 em Beshasha, queremos "reconhecer todos os atores que trabalham pela paz e reconciliação na Etiópia e nas regiões leste e nordeste da África", observa o comitê norueguês.