ELEIÇÕES EM PORTUGAL

Desafio da esquerda em Portugal é reduzir dívida e melhorar serviços em meio à desaceleração

Socialista Costa foi referendado nas urnas e terá a chance de tentar reeditar Governo com aliados da esquerda

O premiê português, António Costa.
O premiê português, António Costa.Rafael Marchante (REUTERS)

As urnas referendaram em Portugal a coalizão liderada pelo socialista António Costa. À espera deste novo velho Governo estarão problemas que permaneceram sem solução ou a meio caminho até agora. Talvez o mais importante de tudo seja a substituição de Mário Centeno, o Ronaldo das finanças —como o ex-ministro alemão Wolfgang Schäuble o batizou— que assumiu o país com um crescimento de 1,5% e um déficit de 4,4% em 2015 e chegou à eleição com crescimento de 2,6% do PIB e 1,4% de déficit, para espanto de Bruxelas.

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Centeno, que foi nomeado presidente do Eurogrupo em 2017, prometeu aceitar o cargo de ministro se o socialista António Costa fosse reeleito, mas não prometeu cumprir a legislatura, como foi o caso no Governo anterior. Há quatro anos, Centeno foi contratado pelo secretário-geral do Partido Socialista (PS) para projetar o quadro macroeconômico de quatro anos. Embora mais tarde o plano tenha sido ajustado pela legenda, suas linhas mestras foram mantidas e apresentadas na campanha eleitoral.

Uma das batalhas de Centeno desde 2015 foi a redução da dívida do país, que era de 129% do PIB e este ano será encerrada com 10 pontos a menos. Os bons dados da economia portuguesa no período 2015-2019 devem-se principalmente à disciplina implementada por Centeno, apoiada pelo primeiro-ministro.

O próximo Governo também terá que enfrentar a raiva da opinião pública com os serviços de saúde e transporte público, e a irritação dos profissionais de Saúde e Educação. No caso da Previdência social, o Bloco de Esquerda (BE) pede a contratação de 18.000 profissionais —médicos e enfermeiros— para compensar a redução do horário de trabalho de 40 para 35 horas. Percentualmente, o investimento em saúde foi menor nos últimos anos do que quando o país estava sob a supervisão da troika (BCE, Comissão Europeia e FMI).

A infraestrutura também sofreu um corte no orçamento para equilibrar as contas. Desde o reparo de estradas secundárias até o principal aeroporto, o país precisa de mais do que apenas uma camada de tinta. O trem de alta velocidade nem menciona. Tanto o PS quanto o Partido Social Democrata (PSD) renunciaram a planejar qualquer conexão com a Espanha pelo tipo de transporte. O plano da Costa é melhorar a infraestrutura ferroviária, principalmente entre Lisboa e a cidade do Porto.

No caso do aeroporto de Lisboa, o solução chega tarde e obsoleta. Absolutamente congestionado em pistas, acessos e serviços, somente em 2021 a alternativa do aeroporto de Montijo, do outro lado do rio, poderá estar operacional, aproveitando uma base aérea militar. Sua capacidade será insuficiente a partir do primeiro dia, se a progressão turística e econômica dos últimos anos continuar. Além disso, há a rejeição de ambientalistas e partidos à esquerda do PS, que somam votos que Costa precisa para governar.

No ano passado, os portugueses sofreram com a maior carga tributária da história, 34,9%. Os dois principais partidos, PS e PSD, prometeram reduções na declaração de renda, a principal fonte de arrecadação no país. O futuro Governo também prometeu trabalho. E tudo isso em um cenário de menor crescimento econômico do que nos anos anteriores.